Crónicas



Atrever-se a romper, sair voando por impressões de pele, sentir a intuição em picos de pele ardente.
A vida tem mais liberdade do que o sonho de onde nasce. Rasga-se em infinitos que não a podem conter toda, improvisa-se em danças que ninguém sabe de cor.
O correr dos dias faz-se por contas tortas e por linhas atravessadas, atiradas para uma tela sem fundo certo e sem moldura que mostre como se faz.

Além do óbvio: eis uma possibilidade intensa de orientação dos passos.
Para além do que se vê com os olhos postos, para bem fora de tudo, para bem longe de tudo, para bem além de tudo.
Além do óbvio: eis o território onde a Terra se enrola na areia, onde o vento sopra com mais cheiro, onde a pele se arrepia de impressões.

Perto do sentir infinito onde o divergente tem nome. Longe das paralelas repetidas por inércia; em fuga rumo ao construído no andar dos passos, e não antes, nunca antes.

Além do óbvio: eis o mantra que se repete nos encontros, procurando neles os cheiros característicos, o toque da pele de cores distintas, a melodia de vozes que trazem ideias. A mesma ideia nas derivas de passos soltos, de olhos abertos a comer paisagens, sons, constelações de casas, ruas, árvores ou pessoas pousadas em terrenos por explorar.
Ver além, conhecer além, perceber além, aprender além de.

Além do que as ideias de sempre já disseram; compondo com elas mas ultrapassando-as, da mesma forma em que o melhor aluno ultrapassa o mestre, da mesma forma que os filhos adormecem os pais no momento de um fim.
Além do óbvio quer dizer rasgar fronteiras; quer dizer sair dos jornais, em vez de sair neles; quer dizer fechar os olhos e ser um mais longe; quer dizer pedir o que ainda não se inventou.

Ser infinito é trazer nos cromossomas uma cadeia de ADN por reconhecer e deixar que seja ele a definir a cor dos dias, a intensidade do fogo de dentro e o tom do grito que se pode dar em silêncio. E criar assim a realidade que se deseja habitar.

O além do óbvio é um território que dá medo e onde se quer ir; onde se pergunta “porquê” e onde se dá a resposta que se for capaz de inventar; onde se perde o chão e o teto e onde se decide fazer casa nova.

Além do óbvio: assim nos guiem os passos e nos levem os dias que não caibam em calendários. Assim se façam nossos os passos que decidimos dar, sem saber onde levam mas certos do romper de ondas que provoquem ao passar.☆



Fotografia by Miguel Marecos

Edite Amorim, Julho'17
www.thinking-big.com

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