Blast Zone

Publicada originalmente na LOUD! deste mês, aqui está a entrevista integral com os londrinos Neon Animal, quando da sua passagem pelo festival Laurus Nobilis, em Julho passado.

      Da festa do Avante até à vossa aparição no festival do Laurus Nobilis, o que se passou?
      Esta é a segunda vez que três quartos de Neon Animal tocam em Portugal. No Avante tocamos ainda como Bublegum Screw, banda de onde surgiram os Neon Animal e onde conheci o Mark Thorn, vocalista, e o Jonathan Gaglione, baixista, isto em Londres. O Mark tinha tocado com os Warrior Soul e é um fã do Kory Clarke e dos discos dele. Eu tinha acabado de tocar e misturar o último disco a solo do Kory e conhecemo-nos. Como estava sem guitarrista, convidou-me e andamos a tocar pela Europa cerca de um ano. Começamos a desenvolver um som diferente, menos Punk Garage e mais Hard Rock, mais melódicos, então resolvemos criar um nova banda, um novo conceito e surgiram os Neon Animal.

      E acabam a gravar o álbum no Porto…
      Sim, por diversas razões, a minha ligação à cidade, o Andrés Malta que co-produziu isto comigo, estava a abrir o estúdio, o Silo, no centro do Porto. Ele fez uma boa oferta e como o Porto é um local inspirador, todos ficaram excitados com a ideia e em dez dias gravámos o nosso disco de estreia, que acabou de sair.

      O título é um grito de desespero, não? O Rock em Londres está um bocadinho escondido.
      Eu acho que está escondido um bocadinho por todo o lado, o que nos frustra um bocado enquanto ouvintes, porque não é fácil ouvir bandas novas que façam um som ou tenham a mensagem ou a energia que nos fez gostar deste estilo de música e de vida. O Rock’n’Roll não está morto, mas necessita de um empurrão. O que eu sinto e o Mark e o Jonathan partilham essa ideia, é que tudo é muito genérico, as bandas novas, inglesas e americanas, são muito semelhantes, as vozes são parecidas. A estética é parecida, o som também. A mensagem é a mesma e passa por curtir e drogas, pouca mensagem política, pouca vontade de uma revolução e pouco para dizer. Infelizmente, sinto que está a ficar como outros estilos de música, sem carácter, sem substância. Essa é a nossa revolta, estivemos quase um ano a trabalhar na letra dessa música e na altura o Mark tinha um amigo numa banda relativamente conhecida que faleceu uma semana antes de terminarmos a música e daí surgiu aquele trecho da marcha fúnebre. Estávamos a relacionar os rockers que têm andado a desaparecer e quisemos fazer uma convocação do espírito do Rock’n’Roll.

      Isso lembra-me muito o Kory Clarke, de quem és próximo, e que teve sempre aquele lado anti-sistema.
      Teve e continua a ter. É uma pessoa que tenho vindo a conhecer nos últimos anos, é meu amigo e se há coisa que aprecio nele é que desde o início, quando a banda estava a crescer nos EUA e assinou pela Geffen Records e até depois de sair desse meio, em que não conseguiu lidar muito bem com a economia e política do Rock’N´Roll, ele foi sempre um revoltado, nunca se vendeu, nunca facilitou ou tentou agradar a alguém, continuou fazendo aquilo em que acredita. O carácter dele é de um verdadeiro rocker, porque é impossível adaptar-se, simplesmente é como é. Ser honesto não é o mais fácil numa indústria como esta.

      Como é que um portuense acaba a formar um grupo em Londres, e a produzir um disco do Kory Clarke?
      Tinha estado a estudar produção nos Estados Unidos, depois voltei para Portugal, tendo estado a trabalhar com o André Indiana, aqui no Porto, como guitarrista dele, também escrevia e trabalhava em estúdio, porque ele produz muitas bandas. Foi ele que me mostrou Warrior Soul, que não é muito conhecida em Portugal. Adorei e hoje, o “The Space Age Playboys” é o melhor disco de sempre, ainda agora soa tão actual como futurista, com mensagens importantes. Ele contactou o Kory a sugerir que viesse ao estúdio dele gravar algo. A resposta foi imediata e o Kory, no espaço de um ou dois meses, veio para cá e ficou em casa do André e tornamo-nos amigos. Depois terminei a produção do disco e fui tocar com os Warrior Soul na Europa. Sempre o respeitei imenso e ainda trabalhamos juntos de vez em quando. Estou agora a terminar de misturar as faixas do disco que os Warrior Soul estão a gravar nos Estados Unidos.

      E o que é ser um rocker em Londres? Não vejo a vida dos Neon Animal muito fácil…
      Claro que não é, mas quando trabalhas para as coisas e dás o teu suor, elas acabam a ter mais valor. Começas a desenvolver-te e a ter resultados e percebes que foi preciso trabalhar para chegar a algum lado. Se Neon Animal começar a crescer, eu não vou esquecer que tive de trabalhar para isso. Preciso de continuar a trabalhar para crescer. Uma vida não–fácil é muito mais interessante, mais desafiante, para mim, que ter nascido neste meio, filho de um músico conhecido, com estúdio montado.

      Se calhar, na geração do download, desvalorizam-se as bandas, porque é tudo fácil, a um click de distância.
      É tudo fácil, não só ter acesso a muita música, como ter acesso a música, e perde-se um bocado o sentido de tudo. É muito fácil ser crítico de música, muito fácil criticar, mas é preciso haver um grupo de pessoas que conheçam o género para poder falar dele e ter alguma relevância naquilo que estão a dizer. Como hoje em dia é possível ter um software em casa, não saber tocar, mas editar digitalmente. Cantas desafinado mas alteras a voz ou metes em tempo. O baterista não sabe tocar a música do princípio ao fim, gravas por partes e depois colas e copias. As bandas não são obrigadas a saber tocar e ser bons músicos, mas a aprender a gravar e estar em estúdio. Chegas ao vivo e não sabem tocar, o que fazem em palco não representa o que está em disco, algo que com o analógico não se passava. Tudo isto é recente, e ainda é complicado distinguir o que tem valor e é real, por isso, para mim, ver uma banda ao vivo é o que conta.

      Conseguem encontrar onde tocar, na cidade de Londres? Há um par de anos, li que as salas estavam a desaparecer muito rápido.
      Conseguimos. Nos últimos três meses temos tocado em Londres pelo menos uma ou duas vezes por mês. A cidade é grande, mas também não é assim tão grande que permita tocar mais. Em certos aspectos é mais difícil que o Porto, Lisboa ou outras capitais europeias, mas tem mais estruturas, mais salas para um grupo em crescimento passar da garagem para algo mais relevante, pessoal mais qualificado e condições que um país como Portugal não oferece. Isso prende-se com a crise económica e cultural que acontece e obriga as pessoas qualificadas a sair, sofrendo-se depois da falta de pessoas com o conhecimento. Em Londres posso tocar mais vezes ao vivo com melhor som que em Portugal, e quanto mais tocar ao vivo, melhor músico poderei ser. Neste momento estou a dedicar-me aos Neon Animal, que sinto ainda terem muito para crescer.

      Ao vivo tocam mais faixas que no disco, sinal que há muito material para gravar. Achei piada a toda aquela história sobre o tema “Raquel” .
      É uma música em que a letra é toda escrita pelo Mark, depois trabalhamos o resto como banda. Uma noite em que estávamos a gravar o disco no Porto, ele conheceu uma Raquel, naquelas paixões à primeira vista, ficou obcecado por ela. Nas noites a seguir andou à procura dela e nunca mais encontrou, procurou nas redes sociais, ainda conheceu duas ou três Raqueis, mas não era nenhuma delas. Quando voltamos a Londres, escreveu a música e começamos a trabalhar nela. É curioso, porque hoje a namorada dele chama-se Raquel, mas é espanhola e não tem nada a ver com o que aconteceu.

      Têm tocado fora de Londres?
      Sim, mas só há meio ano começamos a fazer concertos pela Inglaterra fora, pois era mais difícil que tocar pela Europa, já fomos três vezes a França, da última vez fizemos doze concertos seguidos, já estivemos duas vezes em Itália, fizemos uma festa do Rocky Horror Picture Show, em Paris. Temos tocado pela Europa mais que em Inglaterra, mas agora estamos a fazer um esforço para tocar mais, mas a oferta é tanta que se torna mais complicado! No lançamento do disco, alugamos uma sala e conseguimos esgotar. Em Outubro/Novembro temos vários concertos por Inglaterra fora, quatro vezes três concertos, o que é qualquer coisa para lá. Neste momento temos material que pode ser tocado ao vivo, um concerto que merece estar presente, por isso é a melhor altura para tocarmos.☆












Emanuel Ferreira

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