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Crónicas Novembro 2010 Nuno Prata e Gonçalo Codeço
Sei que sou aspirante a Nuno Prata. Espero com o decorrer do texto saber explicar-me.
Sou um jovem de 21 anos, licenciado – se fizerem as contas percebem que tive um caminho
académico estável, sempre com o intuito de fazer tudo bem, na esperança de uma recompensa
qualquer que ainda está por chegar. Enquadro-vos então no meu presente: com casa e família no
Porto, escrevo em Lisboa porque me dizem que o trabalho que quero é por aqui que se arranja.
Sei lá! - e por momentos façam uma breve pausa e pensem na imbecilidade e nulidade
desta ‘nossa’ expressão: ‘sei lá’. É uma quase-onomatopeia. Enfim. É terça-feira. Eram oito
da manhã e já me levantava. Fazia o meu café e à varanda fumava o primeiro cigarro – olho
os carros, as mães que levam os filhos pequenos à escola cheias de pressa, e os putos dizem a
gozar “vais chegar atrasada!”; ao que a mãe responde “não vou, não” – “vais chegar atrasada” –
“não vou, não”... e repetem este diálogo durante a rua toda molhada e escorregadia, até que a mãe,
dando razão ao puto, ou lhe grita ou lhe dá um abanão qualquer. Volto para pousar a chávena na
cozinha – pratos e copos espalhados da noite passada. Boémios e burgueses espalhados por sofás
ou simplesmente encostados à parede – não são bêbados, porque esses cospem o vómito; estes
engolem-no e adormecem. Estes outros, boémios e burgueses, são os que não acordam cedo – são
uns desgraçados. E a esses todos, pela minha casa espalhados, chego-lhes ao ouvido e baixinho
digo ‘Essa dor não existe (tu isso sabes, não sabes?)’. Murmuram qualquer coisa e viram-se para o
outro lado. E é com esta música que o concerto começa (também a primeira do álbum).
O bilhete para o concerto era o disco em si. Assim, foi escolha minha ouvir o ‘Deve Haver’
pela primeira vez ao vivo, só depois consumindo o disco. Uma experiência que se recomenda.
Nunca tinha visto Nuno Prata ao vivo. Conheci ‘Estes Outros’ há exactamente dois anos –
lembro-me da data porque foi quando, em jeito de exercício de escola, escrevi uma curta baseada
na música ‘Hoje Quem’. Lembro-me de ter gostado das músicas que ouvia e pensar que finalmente
tinha conhecido uma banda portuguesa com música boa – e não como aqueles artistas cujo bigode
farfalhudo ou chapéu ou suspensórios, ou qualquer outra persona inventada, vale mais que qualquer
música que façam, que têm vídeos bonitos a correr no youtube (daqueles que se vêem entre a meia
noite e as seis da manhã, naquelas festas caseiras de pessoas que não sabem ser interessantes!) e
p(r)onto.
‘Estes Outros’ é um álbum muito jovem – as ideias e ideais são de um não-adulto, quer nas
questões amorosas quer nas mais políticas (quer no resto também). Comparemos, rapidamente, por
exemplo ‘Cantando e rindo’ com ‘Cala-te e come’. A primeira, talvez a música com o cariz político
mais forte do álbum (e um breve parêntesis para pedir que não pensem a política de que falo como
aquilo a que os telejornais e afins chamam ‘política'; bloquistas e monárquicos que gritem, que
eu cito a atitude do director de som do ‘Aquele Querido Mês de Agosto’ – eles andam por aí mas
eu não os ouço; essas bandeiras que carregam não são vossas, são-vos impostas, vocês é que não
sabem!; se querem politica de verdade ouçam o FMI do José Mário Branco, esqueçam tudo o que
sabem e leiam a República de Platão. E isto não é uma bandeira minha, é so um manual para o bem-
pensar); já ‘Cala-te e come’ mostra uma capacidade de se alhear da ‘manif’ – para se recriar vida
é preciso estar nela, sair e saber o que foi e como foi estar nela – o que mostra um crescimento do
personagem que canta nos dois distintos álbuns.
Cheguei cedo à frente do palco e durante todo o espectáculo parecia que tiravam mais
intrumentos, ou melhor, sons do fundo do bolso – quase como o mágico que tira o coelho da
cartola. Eu sei que vi sons em garrafas de água de litro e meio, teclados de computador, assobios e
mais outros brinquedos (de criança).
Ser aspirante de Nuno Prata: é querer ser crescido, (sem se tornar num fato de gravata em vez
de um peito cheio), bem pensante, capaz de levitar do mundo que crio e saber falar.
Texto: Jano, donde estas?

Julgo ter como base o concerto dado no Hard Club e o novo álbum de Nuno Prata. Mas aviso já
que de música percebo pouco, não toco nenhum instrumento e não sou crítico nenhum – não gosto
de críticos. Um dia, num outro (con)texto, explicar-me-ei.
Vivo num andar dum prédio antigo, perto da Avenida da Liberdade – eu e mais uns quantos que se
encontram, mais ou menos, na mesma situação académica/profissional que eu. O que me separa ou
distingue de todos 'estes outros' – entre tudo o resto: o ‘Deve Haver’ de Nuno Prata.
Entretanto, num tempo mais presente, pensei que fazia todo o sentido o facto de, naqueles
tempos de escola, ter gostado do primeiro álbum.
Este personagem presente em ‘Deve Haver’ não é o mesmo queixoso que cantava ‘Esse
não, todos menos esse’ - agora sabe olhar o amor a uma distância que não o deixa esquecer onde
lhe doeu, que o deixa crescer e ser um ser melhor depois do tempo ter passado. O passado. O
Tempo. Este novo álbum tem tempo – o narrador não vive só o presente (prazer/dor) momentâneo
(e pensemos o viver o momento pelo momento, como uma estagnação certa, cega), mas tem
constantes degraus, patamares, não cai no estereótipo, tem consciência que um futuro se aproxima
constantemente. Mais do que ser (pai) responsável, porra, não é egoísta.
Contudo conseguimos encontrar uma estética certa, chamemos-lhe estilo se calhar. E volto a
sublinhar que nada percebo de música no seu sentido mais clássico e que esta foi a primeira vez que
vi Nuno Prata ao vivo.
Eram três rapazes jovens em palco. Nuno Prata com a guitarra ou baixo – muito acanhado mas
feliz por estar a tocar no Porto; o homem da bateria, Nuno Tricot, muito fininho cheio de genica e
sorrisos enquanto partia a loiça toda; o rapaz com uns cabelos encaracolados, António Serginho,
parecia ainda aprendiz no meio daquele mundo esquisito – era o responsável por sacar esses sons
pequenos - mas belos pela sua simplicidade. Punctum da musicalidade: o raspar na garrafa de água.
Perdoem-me se do concerto, do acto físico de ouvir, só vos apresento este mísero par de olhos a
brilhar... mas é o brilho que vos tento dar.
Concluo-me com o alerta da existência desta nova personagem. Não chega dizer se se gosta
ou não – que porra é essa? Que quer isso dizer? Gostar (?!). Gosta-se de esparguete à bolonhesa ou
de dias solarengos. Não se devia gostar da arte – sente-se e pensa-se e volta-se a sentir. E pensares
discutem-se. Eis o meu pensar: este personagem tem vida própria (ver/relembrar Purple Rose of
Cairo) porque o pensador em questão soube separar-se do seu tempo, olhar-se, e cantar - eis que
anuncio ter achado arte.
(Acreditem que o bem pensar é o sentido da vida.)
(Gonçalo Codeço)
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