Há quase três décadas que os Sunn O))) – Stephen O'Malley e Greg Anderson – têm vindo a expandir os limites da música pesada, abrangendo os mundos do avant-garde e do rock para criar um estilo único.
Agora, regressam com o seu primeiro álbum desde 2019, e é pela mão da ZDB que os poderemos ver ao vivo em Lisboa, na República da Música, no dia 11 de Julho, às 21H.
Das suas raízes humildes de tributo aos Earth, em devoção simbólica na escolha de um nome que tanto aponta para a banda de Seattle como para a mítica marca de amplificadores, a entidade formada por Greg Anderson e Stephen O'Malley atingiu uma esfera de influência que em muito transcende esses confins traçados no final do século passado. Da genealogia doom reinventada em bandas precedentes como Burning Witch ou Goatsnake, ao altar erguido a 'Earth 2: Special Low-Frequency Version' em 'Grimmrobe Demos' e 'ØØ VOID', Anderson e O'Malley postularam uma máxima - "Maximum Volume Yields Maximum Results" - que tem sido, desde então, continuamente extrapolada para novas dimensões, arrastando na sua riffagem toda uma horda de seguidores dos mais diversos quadrantes e vivências - metaleiros, noiseniks, eruditos do experimentalismo, potheads em conluio com o lado negro e gente sem poiso fixo geralmente interessada em músicas de transcendência e hipnose.
A bater nas três décadas de actividade e contando com um elenco diversificado de colaboradores ao longo deste tempo, da avença regular de Attila Csihar (Mayhem) e Oren Ambarchi, a participações mais ou menos pontuais de gente como Julian Cope, Eyvind Kang, John Wiese ou Hildur Guðnadóttir, Sunn O))) têm dado vida a um teatro - os robes, o alto volume e as cortinas de fumo em palco não são senão assumpção teatral de todo um folclore oculto -, cunhado numa linguagem sua em 'Flight of the Behemoth' em 2002, para onde confluem caudais do metal, drone, noise, composição contemporânea e uma contínua dualidade minimal/maximal num fluxo em câmara lenta que se regenera a cada investida. Dos rituais e invocações forjadas em feedback do díptico 'White', à fúria de gelo do black metal escadinavo em suspensão de 'Black One', aos arranjos quase orquestrais de 'Monoliths & Dimensions' e posterior reificação fixe, mais despojada e metaleira, com 'Kannon' até à afirmação mais recente de tudo isso, bem evidente no título, em 'Life Metal', para além de discos em colaboração simbiótica com Boris, Ulver e Scott Walker - DEP -, Sunn O))) reescrevem o seu próprio feitio a um tempo arrastado que lhes pertence por direito. E têm agora novo capítulo com um disco apropriadamente homónimo na lendária Sub Pop - a responsável pela edição do tal 'Earth 2' em 1993, como que a completar um ciclo - onde, pela primeira vez, toda a música foi criada apenas pelo duo de Anderson e O'Malley, consta, num ambiente bem descontraído e imune a pressões. Como que a redescobrir a sua Essência. Palavra chave para um som que é tão primordial na sua génese quanto infinito na ambição.
(Texto de Bruno Silva)