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Amplifest 2022

Tentar rotular o Amplifest com um estilo de música ou um estilo de vida, é pouco. Muito pouco. Diria, é quase nada.

A ideologia deste evento ultrapassa todos os rótulos, ultrapassa qualquer comparação possível. É algo imenso que vai para além da musica, mesmo com um cartaz poderoso que sem grande esforço, faz estragos no catalogo de festivais em Portugal. Bastaria o poder de sedução de Anna Von Hausswolff, a excentricidade dos Cult of Luna, a entrega dos Amenra, mesma na sua versão mais acustica, a curiosidade de Dälek e da grandeza de Caspian, a força celestial dos Deafheaven ou a surpresa encantada de A.A.Williams ou dos Putan Club (em aparição no M.Ou.Co). A descoberta de Lingua Ignota, o “Adeus” dos místicos Indignu, a rebeldia de Scúru Fitchadú ou as profundezas dos Goodspeed You! Black Emperor.
Tudo isto no icónico Hard Club imenso e vestido de Amplipeople ao longo de seis gloriosos dias. Pessoas de visão sonora ampliada. Com uma visão alargada da vida, de saber estar e sentir.

É sem duvida uma experiência que nos penetra na alma e não se limita a apenas aos dias do evento. É uma experiência que deixa marca. Que tatua a nossa existência. É algo enorme que nos pinta o futuro de negro brilhante e nos cativa. O Amplifest fica indiferente para quem nunca viveu estes intensos momentos, mas marca com profundeza os sentimentos vitais de quem vive e sabe viver estes dias.

Mas a grandeza do Amplifest não se fica por aqui. É teimoso suficiente para não ficar por aqui. E com isso, cria um ambiente sedutor, cria um bem estar infinito de permanecer eternamente no Hard Club que se veste uma vez mais de negro. Mas é um negro diferente este. É uma cor descontraída. Destemida. Uma cor que apesar de negra, ilumina. E como explorar esta luz? Só mesmo nos vários espaços do Mercado Ferreira Borges. Só mesmo em frente ao palco na absorção dos sentimentos sonoros debitados. Só mesmo nos corredores em momentos descontraídos e aprazíveis. Só mesmo por entre as palavras que se cruzam nos Ampli-talks ou mesmo entre um café e uma cerveja inspiradora. Só mesmo entre manobras de culturas variadas que se unem nestes dois dias. Só mesmo em momentos relaxantes sobre o imenso verde que a zona frontal do Hard Club oferece. Não há limites descontrolados. Não há estilos. Não existem barreiras. Apenas um só como um todo. Como se o festival fosse feito à medida de cada alma que o visita.

Falar em ser alternativo é sinónimo de Amplifest. Mas não basta. Uma palavra apenas não é suficiente para abraçar tamanho sentimento e entrega. Talvez duas ou três palavras consiga estar mais perto desta experiência. Talvez dizer que o Amplifest é a Alternativa ao Alternativo seja o mais correcto. Poderá não o ser mas está lá muito perto.

Acreditamos nesta experiência única e tentaremos vive-la para além destes dois dias. Para lá da nossa existência, que para além de nossa, pode ser bem mais do que a alternativa.

Para o ano... uma nova tatuagem a ser vincada em todos os Amplipeople.

Um obrigado ampliado à Amplificasom. ★

Vitor Pinto


Imagem @ Geert Braekers


Imagem @ Geert Braekers


Imagem @ indignu


Imagem @ Vera Marmelo

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Vodafone Paredes de Coura 2022

Imagens @ Sara Sofia de Melo

O NOS Primavera Sound regressou após dois longos anos de ausência, e com ele, o regresso à normalidade de poder sentir a música e de a poder respirar, da liberdade, da vontade de abraçar tudo e todos!
Foi um festival de sentimentos e emoções únicas e tal como o seu “primo” do Minho, este também foi o festival do Amor…
Durante os habituais três dias do evento, por onde passaram mais de 100 mil pessoas, sendo mais de metade desta contagem, de origem estrangeira, o sucesso deste NPS ficou logo garantido na primeira noite com o regresso de Nick Cave com os seus The Bad Seeds. O regresso apetecível passados precisamente quatro anos. Não nos cansamos nunca de receber Nick Cave de braços aberto, e deixamos sempre as portas bem abertas para o seu regresso. (Regressa a Portugal em setembro para o festival Kalorama). Um senhor em cima de qualquer palco sempre por entre olhares e palavras perfeitas. Depois de uma presença tão marcante e celestial, não seria fácil descer à terra e oferecer mais sentimentos musicais nesta primeira noite… Mas no palco vizinho Mura Masa conseguiu envolver mais sentimentos, agora escritos para a dança. Com uma tripla companhia vocal, Alex Crossa soube lançar ritmos preciosos para conquistar o publico que ainda resistia alegremente nesta noite de primavera, quente e emotiva!
Voltando ao local onde fomos felizes nesta mesma noite, Kevin Parker desceu da sua nave psicadélica e juntamente com os seus Tame Impala, fizeram brilhar os céu do parque da cidade com um jogo de luzes impressionante. Uma produção fantástica que incluía um circulo suspenso de lançava emoções visuais e nos transportava para vários locais juntamente com os já clássicos que se foram soltando no fecho desta primeira noite do NPS. As portas também estarão sempre abertas para Kevin Parker e companhia.
Os nacionais Throes + the Shine começaram por debitar a meio da tarde, ritmos mais frenéticos e festivos para um publico sedente de concertos e festivais. Pedro Mafama também foi um senhor em palco. Uma presença cada vez mais saudável, quer em palco quer em registos.
Ainda neste primeiro dia DIIV triunfaram com uma excelente actuação, impressionados com a imensa multidão à sua frente naquele final de tarde. Kim Gordon deixou em casa os seus Sonic Youth e expôs o seu registo de estreia “At Issue” com um rock poderoso à hora de jantar. A californiana Sky Ferreira chegou atrasada e deixou bastante a desejar em palco num curtíssimo e atribulado regresso ao NOS Primavera Sound. Stella Donnelly encantou ao por do sol com a simplicidade nas palavras e o encanto sonoro charmoso por entre o aclamado registo “Beware of the Dogs” e o novíssimo disco apresentado nesta tarde “Flood”. Black Midi intensos e bem ritmados. Preciosos! E por falar em preciosidade pura, Cigarettes After Sex fizeram magia por entre momentos intensos de pura sedução a preto e branco e debaixo da melodia incrível de Greg Gonzalez. E Caroline Polachek que igualmente brilhou entre sonoridades misticas e danças sensuais que exibiram uma actuação inesquecível e sexy de Polachek. Sem duvida, merecia uma outra exposição local e horária, tal como já aconteceu com os seu Chairlift neste mesmo festival.

Arranque de mais um dia belíssimo de primavera e do saudoso Primavera com a simplicidade de Beach Bunny com canções suaves e alegres. Perfeito para um final de tarde que recebeu uma vez mais os Slowdive neste recinto, agora no local correcto, iluminados pelo por do sol e pela vontade quente de um publico atento e recetivo. Pelo mesmo palco Beck chegou, viu, cantou os seus esperados hits mas não convenceu. Era de esperar algo mais do musico que já não nos visitava há imensos anos. Valeu o concerto à mesma hora no palco mais selvagem do evento. A energia contagiante dos Rolling Blackouts Coastal Fever foi intensa e foi bem visível por quem os recebeu e os soube ouvir. Puro rock expressivo, bem disposto e saudável de principio ao fim. Sem duvida, uma das melhores actuações do NPS 2022.
Voltando ao palco principal e depois de tantos anos de espera, finalmente Pavement em palco. A banda de Stephen Malkmus chegou e satisfez os ouvidos mais apurados dos apreciadores do indie rock, neste dia que teve pelo meio algumas surpresas, novidades, regressos e confirmações…
Rita Vian saudou o festival com a certeza de uma grande voz nacional e com temas cativantes que nos deixam a cantarolar. A poderosa Rina Sawayama chegou do Japão, fez paragem por Londres e encontrou um recinto eufórico no Porto pronto para a receber. Sucesso garantido, caras feliz e satisfeitas. Neste mesmo espaço King Krule num outro contexto totalmente diferente e rebelde, cativou pela sua raiva saudável nas palavras, exprimindo canções fortes e aguerridas. Muito bom. Igualmente bom mas num patamar mais melódico e suave Arnaldo Antunes criou emoções felizes no NPS 2022. Cantou, encantou, dançou freneticamente e exprimiu uma eterna boa disposição. Digno de um senhor!
Shellac marcaram a sua presença como sócios honorários do evento e como tem vindo sendo habitual, reuniram uma simpática plateia que os soube acolher uma vez mais, em euforia. Ao cair da noite Amaia embalou o publico em suaves melodias por entre satisfações pelo primeiro concerto fora de portas espanholas seguindo-se o duo 100 Gecs, que ao contrario da espanhola, acordaram todo o recinto do NOS Primavera Sound com decibéis apurados, batidas dançantes e muito auto-tuned à mistura, levando-nos para uma nova vertente da musica urbana. O Hyper como Laura Les e Dylan Brady o intitulam. Jehnny Beth regressa onde já foi muito feliz e aproveita as batidas produzidas anteriormente num outro palco. No seu projecto a solo, mais electrónico do que as Savages, Jehnny salta, grita, explode e oferece-nos doses de loucura controlada. Uma verdadeira guerreira em palco, rainha no sentimento.

Numa viagem que já se previa longa para este terceiro e último dia do festival, o festival quase que poderia fechar as portas depois da actuação perfeita dos Dry Cleaning. Apesar da habitual voz timida de Florence Shaw, as guitarras e o ritmos viciantes dos homens da banda, criaram emoções dançantes que quase nos fizeram esquecer do que por ai ainda viria. É o caso do restante alinhamento deste palco, mais cru e sem vegetação… Khruangbin fizeram delicias ao por do sol com as suas viagens de puro encanto pelo psico-jazzy funky instrumental, Little Simz brilhou com o seu sentimento puro e com as suas palavras poderosas e Grimes fechou esta porta com um dj set intenso e vibrante que não deixou ninguém indiferente. Dança foi a palavra de ordem. Num outro registo e igualmente com muita dança à mistura foi a actuação do brasileiro Pabllo Vittar que fez delicias/estragos (riscar o que não interessa) pelo festival.
Antes da longa reta para o final do NPS, uma passagem pelo palco que mais se evidenciou nesta edição. Brilhantes actuações de Pile que nos apresentaram o recente “Songs Known Together, Alone”, o intenso hardcore de Jawbox e os britânicos Squid com o seu único registo “Bright Green Field”. Souberam a pouco, por isso foi-lhes pedido um regresso mais confortável a Portugal em breve. Será que nos vão satisfazer a vontade? Seria perfeito.
Olhares agora atentos para o palco principal que recebeu três regressos ao festival do Porto.
Dinosaur Jr. repetiram a sua mestria sonora com instrumentos emprestados, depois dos seus terem sido extraviados. Mesmo assim J Mascis, Lou Barlow e Murph não descairam. Quem sabe sabe e esta aparição sonora ao cair da tarde foi soberba. Interpol também quiseram regressar e com eles uma mala recheada de clássicos da banda. Mesmo assim, a sua frieza em palco não foi compreendida por muitos, nem sequer conseguiram conquistar os poucos que estavam em contacto pela primeira vez com a banda de Paul Banks. Mas os Interpol são mesmo assim. Frios na atitude e simpatia, mas muito bons no desempenho sonoro e ricos em canções fortes, intimas e dançantes. Frieza esta que foi imediatamente apagada depois de se ler “Olá” nos ecrãs do palco principal do NPS 2022. Damon Albarn regressa ao palco que pisou com os Blur e visivelmente satisfeito por ver 35 mil pessoas à sua frente, saúda Portugal, saúda o Porto e depois de “M1A1”, foi um desfilar de canções em formato “best of” dos Gorillaz.
As imagens foram surgindo nos ecrãs, onde a banda original 2D, Murdoc, Noodle e Russel Hobbs iam desfilando sobre os temas perfeitos criados por uma banda magnifica, recebendo aqui e ali, convidados que davam ainda mais brilho a este concerto. Beck ficou pelo Porto mais uma noite e subiu ao palco para interpretar “The Valley of the Pagans”, “Garage Palace” também se ouviu com a ajuda da diva Little Simz, Robert Smith dos Cure em formato virtual, Bootie Brown aparece em dupla dose. Primeiro com “Stylo” e depois com “Dirty Harry”. “Desolé” intenso com a ajuda vocal de Fatoumata Diawara e a fechar a “guest list”, o já inevitável Pos, dos De La Soul. Uma presença iconica e obrigatória para ser o mestre de cerimonias no hino “Feel Good Inc.” Ninguém ficou indiferente, nem mesmo Albarn que continuava incrédulo e bastante satisfeito com todo o calor humano recebido neste NPS. “Clint Eastwood” cai com a chave de ouro que ninguém queria. Queríamos mais, muito mais.
Gorillaz ficará no coração de todos e o NOS Primavera Sound continuará a ser um festival do coração, da emoção e depois de tudo aquilo que passamos e recebemos nesta difícil edição, é um festival de amor.


Imagens @ Sara Sofia de Melo

Earthless, Maida Vale e The Black Wizards | Hard Club


The Black Wizards @ Sara Sofia de Melo

The Black Wizards @ Sara Sofia de Melo

The Black Wizards @ Sara Sofia de Melo

Hard Club @ Sara Sofia de Melo

Maida Vale @ Sara Sofia de Melo
Maida Vale @ Sara Sofia de Melo
Maida Vale @ Sara Sofia de Melo
Earthless @ Sara Sofia de Melo
Earthless @ Sara Sofia de Melo
Earthless @ Sara Sofia de Melo

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