Livros

A Miúda da Banda
Kim Gordon (Sonic Youth)

Editora: Bertrand

Sinopse: Kim Gordon, membro fundador dos Sonic Youth, símbolo feminino de uma geração, conta-nos a sua história – uma memória de vida focada na música, no casamento, na maternidade, na independência e, naturalmente, na sua condição de pioneira entre as mulheres do rock. Uma narrativa marcada pela beleza e pela sensibilidade visceral.
Considerada por muitos reservada, em A Miúda da Banda apresenta-se de forma inédita. Conta-nos a sua história de família, a infância e juventude na Califórnia dos anos 60 e 70, o percurso nas artes visuais, a mudança para Nova Iorque, os homens da sua vida, o casamento, a sua relação com a filha, a música, a banda.
Gordon faz-nos regressar à Nova Iorque perdida, dos anos 80 e 90, de onde brotaram os Sonic Youth e a revolução alternativa na música popular. Um tempo em que a banda ajudou a edificar um novo léxico musical – que abriu caminho aos Nirvana, Hole, Smashing Pumpkins e muitos outros grupos.
Uma crónica emotiva e contemporânea particularmente rica em imagens e sons de um mundo em mudança e de uma vida transformadora, A Miúda da Banda é a história fascinante de um percurso notável e de uma artista extraordinária.

Opinião: Mal acabei de ler este livro, há umas semanas atrás, não resisti em escrever automaticamente um Diário de Bordo em que realçava o quanto esta leitura tinha sido qualquer coisa. Uma coisa é quando conhecemos os artistas de nome e os vemos em fotografias e vídeos ou até espectáculos, outra coisa é quando mergulhamos nas suas vidas e encontramos histórias que nos tocam e comovem, mas também nos inspiram. O discurso de Kim Gordon é simples, directo, pragmático, mas também espelha a sensibilidade que a artista diz sempre ter tido, aproximando-a do leitor e tornando-a real, desmistificando aquele pedestal em que tantas vezes colocamos quem admiramos.
O livro está dividido em pequenos capítulos, todos eles ilustrados de alguma maneira por um registo fotográfico relacionado com Kim Gordon, e não seguem propriamente uma estrutura temporal linear. Na verdade, os pequenos saltos que se vão dando de vez em quando ajudam a compreendermos melhor as suas emoções. Vinda de uma família em que na sua infância pouco ou nada à vontade se sentia para se expressar, com um irmão que, veio mais tarde a constatar, desenvolvia uma doença mental, ter alcançado o que alcançou é admirável.
Penso, mesmo tendo gostado tanto, que este não será um livro consensual. Existe muito com que nos podemos identificar com Kim, principalmente as mulheres que atravessaram uma adolescência atribulada seja por alguma espécie de repressão familiar ou crise de identidade, mas também é verdade que ter ultrapassado todos esses eventos da sua vida a tornou mais forte, mais dura, e com perspectivas e opiniões que poderão levantar uma ou outra questão. Acima de tudo acho que é uma escrita sincera, pessoal, e que mostra como foi para Kim passar de uma rapariga insegura a uma mulher que ousou assumir o protagonismo em palco e fora dele.
Enquanto fã de Sonic Youth, gostei particularmente dos capítulos dedicados a certas músicas de alguns dos discos. Saber como surgiram, as circunstâncias, o que despoletou a que ganhassem vida e como ganharam vida fez-me recuar umas boas décadas e voltar a ouvir em loop alguns dos temas. Existe sempre este aspecto curioso quando nos predispomos a ler sobre a vida de alguém que procura esta intimidade com quem está a partilhar as suas experiências. Feminista assumida, Kim Gordon publicou assim um livro autobiográfico que nos mostra muito da mulher que é por trás da cara que representa parte dos Sonic Youth, revelando todas as suas outras facetas artística mais desconhecidas pelo público. Uma leitura que não me admiro nada se repetir daqui a uns anos.

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Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada
Eimear McBride

Editora: Elsinore

Sinopse: Galardoado com diversos prémios e considerado logo como um clássico, Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada, um romance breve mas intenso, dá-nos o retrato nu do relacionamento de uma jovem com o seu irmão, e da longa sombra projetada, nas suas vidas, pelo tumor cerebral de que ele padece e pela família profundamente disfuncional em que vivem.
Narrado na primeira pessoa por esta rapariga sem nome, numa espécie de fluxo de consciência repleto de elipses e incoerências, que reflete o estado de quebra emocional da narradora, este é o romance de estreia de Eimear McBride, escritora irlandesa, considerada por muitos críticos a grande revelação de língua inglesa da última década. Ler este livro é mergulhar na mente da narradora, sentir a vida em bruto, tal como ela a atravessa. Nem sempre é uma experiência confortável - mas é decerto uma descoberta.
Uma Rapariga É uma Coisa Inacabada venceu diversos prémios: Baileys Women's Prize for Fiction, Goldsmiths Prize, Kerry Group Irish Novel of the Year Award Desmond Elliott Prize e Geoffrey Faber Memorial Prize.

Opinião: De tempos a tempos apanho livros sim, livros que contém em si muito mais do que meras páginas com letras que em sequência formam frases de uma história linear. Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada é, provavelmente, uma das obras mais perturbadoras e brutais que já li. Demorei algum tempo a arrancar com a leitura, esta requer alguma atenção e concentração iniciais para que possamos perceber a (não) estrutura da narrativa e que papel directo outros intervenientes têm na forma como a protagonista expõe as suas vivências. Apanhado o ritmo, e ritmo é coisa que não falta nestas palavras que tanto se atropelam como se parecem estender para lá do infinito, houve alturas em que li dezenas de páginas seguidas, outras que li meia dúzia e parei. Não acho que seja um livro para o estômago de toda a gente, apesar de o achar acessível a qualquer pessoa. Estamos perante um romance que impressiona, que mostra uma realidade algo fragmentada, mas que toca, que acorda demónios, que incita a que se abram os olhos, a que se limpem os ouvidos, a que se desperte para uma realidade que gostamos de pensar existir só em livros e em filmes, mas que na verdade poderá estar ao virar da esquina. Quero muito ler a versão original deste livro. Não que esteja a criticar a tradução, mas dado o estilo da escrita de Eimear McBride, tenho imensa curiosidade em estar em contacto directo com a língua nativa, quanto mais não sejas pelos preciosismos.
Entremos neste enredo que tanto comove como nos revolve as entranhas. As primeiras páginas, exigência de concentração ultrapassada, mostra-nos uma narradora ainda em criança, com um irmão pouco mais velho às portas da morte. Este sobrevive, mas quando regressa casa é o pai que abandona a família. A mãe é uma mulher católica que usa e abusa da religião como desculpa para agredir tanto fisicamente como psicologicamente os filhos. Entre um sentido protector em relação ao irmão mais velho e alguma perda de identidade, assistimos ao crescimento da criança em jovem, mais tarde quase adulta, através de uma fragmentação mental que procura na dor um alívio e uma limpeza que só a condenam cada vez mais. Desde a relação precoce e abusiva com o tio, à procura de outras experiências que a libertassem, o percurso da protagonista é feito através de caminhos sinuosos em que assistimos a modos de pensar e de agir que desafiam a lógica e qualquer sentido. São abusos atrás de abusos, alguns provocados por outros, a maioria procurada por ela. O conforto encontrado na violência.
Ao mesmo tempo existe toda a ligação com o irmão, que acaba por crescer sempre com uma espécie de atraso em relação aos da mesma idade, ou assim nos vai parecendo pela narrativa, e que a certa altura sofre uma disrupção. Mais tarde, com novos acontecimento, que não vou referir aqui para não desvendar mais do que desvendei da leitura, existe toda uma tentativa de redenção, do voltar às origens. É uma fase muito sofrida, angustiante, desafiadora. O que diz na sinopse é totalmente verdade: este livro é uma autêntica descoberta. Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada é daquelas obras em que perdemos consciência real do acto de ler por nos transportarmos para os escombros mentais e para o físico imaginário da protagonista. Sentimos a sua dor, a sua loucura, o seu medo, o seu fascínio, a sua incapacidade de parar, a sua perdição. O fim, para mim, era o único possível. Acho que vivi tanto a personagem que a uma ou duas dezenas de páginas antes de terminar só pensava que aquela era a única via possível. Não tenho qualquer problema em recomendar este livro, fica apenas o aviso que é bom que se preparem, tem tanto de fascinante como de aterrorizador.

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Flores
Afonso Cruz

Editora: Companhia das Letras

Sinopse: Um homem sofre desmesuradamente com as notícias que lê nos jornais, com todas as tragédias humanas a que assiste. Um dia depara-se com o facto de não se lembrar do seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de ver uma mulher nua. Outro homem, seu vizinho, passa bem com as desgraças do mundo, mas perde a cabeça quando vê um chapéu pousado no lugar errado. Contudo, talvez por se lembrar bem da magia do primeiro beijo - e constatar o quanto a sua vida se afastou dela - decide ajudar o vizinho a recuperar todas as memórias perdidas. Uma história inquietante sobre a memória e o que resta de nós quando a perdemos.
Um romance comovente sobre o amor e o que este precisa de ser para merecer esse nome.

Opinião: Desde que foi publicado, não há tanto tempo assim, que já li este livro duas vezes. Estou capaz de ler uma terceira, mas não ainda, não para já. Não sei bem descrever esta capacidade que Afonso Cruz tem de nos fazer primeiro estranhar e depois entranhar. Houve obras em que a empatia e foco foram automáticos, mas com Flores o processo foi diferente. Após a primeira leitura, senti que tinha gostado, mas que nem sempre tinha compreendo. Existe um grau de subtileza considerável em alguns diálogos, em algumas reflexões dos personagens, que se não estivermos atentos chegamos ao fim com a sensação que ficou a faltar algo ao livro. Foi assim que me sentir, mas depois pensei que talvez não o tivesse lido em boa altura. Vocês sabem que eu gosto que os livros chamem por mim e quando peguei em Flores, após ter chegado a casa, "obriguei-me" a ler por toda a admiração que tenho pelo Afonso. Não resultou bem. Há umas semanas atrás, arrumava eu uns livros, cruzei o olhar este e senti que estava na altura de o ler, bem lido. E a vida tem destas coisas, uma ironia imensa.

Flores é um livro que vai provocar diferentes sensações a diferentes pessoas com diferentes sensibilidades e diferentes passados/presentes. Existem romances para os quais eu considero que é necessária alguma bagagem para extrair da leitura uma maior identificação com a mesma. Também o estilo de narrativa do escritor apresenta-se diferente do habitual. Está mais fragmentada, a trama central, embora conduzida por um único personagem, bifurca-se entre o protagonista evitar olhar para si mesmo - criando em vez disso alter egos exibicionistas - e o ficar obcecado com a história de um próximo que nem conhece assim há tanto tempo, mas que contribui para que adie o constatar do quanto a sua vida descarrila. É como se ao encontrar um passado esquecido se redimisse de algo que só mesmo enfrentando as suas fraquezas tal será possível. E depois temos todos aqueles pequenos pormenores e vicissitudes da vida que muitas vezes se desvalorizam ou sobrevalorizam e que a forma como lidamos com ela pode ditar o rumo da nossa vida. Um deslize aqui, uma indecisão ali, o deixar arrastar e assim deixar que a vida tome o seu rumo sem qualquer responsabilidade nele.

Gostei muito da ironia latente ao longo da narrativa. Apesar de serem assuntos sérios ou até retratarem opções moralmente questionáveis, o humor presente fez com que a leitura aligeirasse os ânimos. Fomos conhecendo vários novos personagens ao longo das páginas, todos eles com ideias tão diferentes de quem o Ulme era, mas também todos eles com a sua própria história e percepção do valor das suas vidas. É através destes personagens que Afonso Cruz consegue abranger uma série de segmentos da sociedade, principalmente a música, enviando uma mensagem tão óbvia e verdade, mas que ainda assim acho que passa tão despercebida. No fundo estas páginas têm uma grande dose de crítica, pessoal, social, relacional, acima de tudo cultural. E tudo em tão poucas páginas, com frases simples, descomplicadas, mas que reflectem tanto a essência amorosa como o cinismo que cada um consegue carregar consigo e transmitir aos outros.

Terminando num breve parágrafo, acho que este é mais um livro de Afonso Cruz que surpreende ao mostrar uma nova faceta, uma nova abordagem à trama. Certamente não é conciliador com os outros no estilo, mas é isto que é extraordinário no Afonso: todos os seus livros são únicos, por vezes diferentes em estrutura, ritmo e harmonia, mas a impressão digital está lá. Um leitor sabe quando lê Afonso Cruz e sabe também que dificilmente ficará indiferente. Recomendo Flores, claro que sim, e se não gostarem à primeira, experimentem dar-lhe uma segunda oportunidade. Há locais onde vale a pena retornar, tendo passado o devido tempo e adquirido a devida bagagem.

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A Alvorada dos Deuses
Filipe Faria

Editora: Editorial Presença

Sinopse: No inverno de 1477, Berardo de Varatojo, padre franciscano estigmatizado, viaja para a distante Thule (Islândia) em busca de respostas para a sua crise de fé. Contudo, acaba raptado por desconhecidos antes de as conseguir encontrar, e os seus captores afirmam ser deuses, os sete destinados a sobreviver a um Crepúsculo dos Deuses de que nunca ouvira falar. Aqueles que Berardo toma por feiticeiros pagãos confessam-se numa encruzilhada, culpando o Deus cristão pelo seu dilema, e, segundo eles, o franciscano é precisamente a chave para a sua salvação, embora ele não consiga sequer conceber como.

Opinião: Acompanho o Filipe há quase tantos anos como aqueles que leio romances. Acompanhei As Crónicas de Allaryia, que são um marco na literatura fantástica (e não fantástica) portuguesa, fiquei apaixonada pelos livros Felizes Viveram Uma Vez (em que obviamente não houve consenso com os restantes leitores já que os livros não tiveram nem de perto o sucesso das Crónicas), e é agora com tremendo orgulho que vejo este A Alvorada dos Deuses a ser publicado. Basta trocar meia dúzia de palavras com o Filipe (e eu só falo com ele praticamente a cada Feira do Livro, e não fui à última, imaginem o que está por colocar em dia!) e seguir o seu blogue para percebermos que o seu universo literário vai muito para além das Crónicas. Essa versatilidade, que poucos lhe (re)conhecem, parece não estar a ter entrada fácil no mercado literário português, mas penso que isso se deve a alguma preguiça. A escrita do Filipe exige, é verdade, principalmente nas primeiras leituras, uma atenção acrescida ao habitual. O seu vocabulário é diversificado e a prosa composta, requer alguma atenção, mas está longe de ser um bicho demasiado coloquial e presunçoso. Onde é que eu quero chegar com isto? Bem, quero chegar que sendo este o terceiro tipo de romance que leio do Filipe Faria, continuo a afirmar que estamos perante um grande escritor português.

A Alvorada dos Deuses é um romance que dentro do género fantástico quase poderia ser também considerado histórico. Eu que sou uma devoradora ávida de mitologias e até um pouco da religião cristã, vi-me deliciada ao longo destas quase duas centenas de páginas. Vá, é verdade, a leitura não é muito fluída caso a nossa cabeça não esteja devidamente comprometida com a leitura, mas tal é resolvido quando a narrativa atinge uma imagética forte constante. Os cenários estão, como já tão bem nos habituou ao final de nove livros, sendo este o décimo, muito bem descritos. Parece-me claro que foi necessária uma boa dose de pesquisa para a dose de rigor mitológica e religiosa que nos é apresentada. Isso foi o que mais me agradou na obra. Não tanto os protagonistas em si, o franciscano e os quatro deuses que o acompanham na viagem, mas toda a composição paralela que nos vai sendo apresentada através das visões. Para quem nunca leu sobre mitologia nórdica, este não pode ser considerado uma enciclopédia, mas antes um compêndio da mesma, onde o essencial sobre a natureza de alguns dos deuses mais conhecidos passa a ser conhecido.

Depois existem todas as questões ligadas à fé ou à transição que houve entre o paganismo e o monoteísmo cristão. Costuma-se dizer que uma coisa só ganha força se acreditarmos nela e ao longo dos tempos assim se tem confirmado também com as crenças. O confronto entre aqueles seres primevos e o franciscano é interessante por diversas razões, sendo que esta é para mim essencial no que toca à derivação das religiões consoante os séculos vão passando. Não poucas vezes fiz paralelismo aqui entre as crenças pagãs e as cristãs, principalmente em alturas festivas como o Natal ou a Páscoa. Em Alvorada dos Deuses vai-se um pouco mais longe no que ao paralelismo de personalidades diz respeito. É um livro de literatura fantástica, a 100%, não vos estou a tentar fazer passar uma mensagem diferente disso, mas ainda assim tem a capacidade de para além de entreter, dar que pensar. Da minha parte, recomendado.

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The Empire
João Valente

Editora: TOPSELLER

Sinopse: João Valente leva-nos numa viagem nostálgica pela vida de quatro rapazes, que acima de tudo quiseram fazer música. A música rock do século XXI acolheu na sua genealogia uma superbanda nascida de um acaso improvável. Quem foram os The Empire? Mário Andrade na voz e guitarra, Ricardo Gomes na guitarra, Tiago Gomes na bateria e Eddie Steppleton no baixo. Quatro amigos que se conheceram por acaso e que viveram um sonho invulgar. Uma banda portuguesa ignorada no seu país, mas que triunfou num dos mercados mais difíceis do mundo. E foram muito mais do que isso. Dos momentos passados na loja de música Woodstock ao surgir das primeiras letras da banda. Da primeira demo, mal gravada num estúdio recôndito, ao contrato milionário com uma grande editora discográfica. Dos excessos e da dependência de drogas à maturidade e ao nascimento dos filhos.Numa década, os The Empire venderam milhões de discos, ganharam legiões de fãs em todo o mundo e esgotaram centenas de salas de concertos. Tornaram-se aquilo que, enquanto adolescentes sonhadores, sempre quiseram ser: uma lenda.João Valente conta-nos, numa escrita vívida, profundamente narrativa e apaixonante, a história romanceada destes quatro músicos que começaram, como tantos outros, por ser adolescentes de cabelo comprido, calças de ganga coçadas e t-shirts das bandas de rock preferidas.

Opinião: Ter o BranMorrighan tem sido uma experiência extraordinária. Já passaram mais de sete anos desde que criei este espaço e dizer que o crescimento, tanto meu como do espaço, tem sido brutal é abusar do eufemismo. De lendas mitológicas deu-se o salto para a literatura, para mais tarde me render de igual modo à música. E fez sentido a ordem por que tudo aconteceu, porque também na minha vida primeiro entrou a literatura e só depois a música. Pelo menos com que eu me identificasse. Eu sei, mas o que é que isso tem a ver com a opinião deste livro? Tem a ver no sentido que o meu envolvimento com ele chega precisamente por causa da envolvente que o blogue atingiu nos últimos anos.

Recebi The Empire ainda em Fevereiro. A edição estava prevista só para o final de Março, mas o romance que tinha em mãos exigia algo especial. Não foi à toa que muitos interveniente de renome da música portuguesa alinharam na promoção deste livro. João Valente, o autor do mesmo, conseguiu construir uma narrativa que deixa o leitor na dúvida se está a ler uma biografia real ou se realmente será apenas algo saído da imaginação do autor. Quando comecei a folhear The Empire, não por poucas vezes senti um arrepio na espinha. Desde que mergulhei mais no universo musical português que fui tendo acesso a várias histórias, actuais e antigas, das mais diversas bandas portuguesas e houve alturas em que pensei que o João se referia a este ou àquele caso em específico.

Se pensarmos que estamos perante uma estreia literária, não podemos não ficar admirados com a fluidez e a sagacidade da escrita de João Valente. Nota-se que houve um cuidado ímpar na preparação deste romance. Não só as personagens estão credíveis, como houve toda a construção do universo The Empire, incluindo toda a imagética associada ao grafismo que serve de marca da banda. Os cenários estão tão bem descritos que nos conseguimos transportar facilmente para lá, mas a cereja no topo do bolo é a coerência. Ao longo de todo o livro existe um fio condutor que exigiu que o próprio autor fizesse de compositor para que nada "desafinasse" ao longo do enredo.

The Empire é a história de uma banda que começa como tantas outras - miúdos errantes que encontram na música a escapatória e o abrigo necessários para continuarem as suas vidas. Primeiro são apenas dois, depois afirmam-se enquanto quarteto, mas tal como tantas outras é na bebida e na droga que acabam por se perder. Chega a oportunidade de editarem por uma grande editora internacional e nem sequer estão bem conscientes quando assinam o contrato. Quando dão conta, já fazem parte de uma máquina muito maior do que eles. E isso teve o seu preço. The Empire explora não só como o universo musical não é a manta cor-de-rosa que muitos pintam, como também a facilidade com que muitas vezes os seus elementos se perdem, seja por más companhias, seja por se renderem a vícios que apenas anestesiam os problemas por alguns momentos, amplificando-os depois. Tem romance, tem morte, tem intriga e sofrimento suficientes para dar um abanão ao leitor e deixá-lo rendido à história de quatro jovens que apenas queriam ser lendas do rock. Da minha parte, fica a recomendação a qualquer tipo de leitor. Acima de tudo é um romance que está muito, muito bem escrito.

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Contos de cães e maus lobos
Valter Hugo Mãe

Editora: Porto Editora

Sinopse: Esta obra, prefaciada por Mia Couto, é composta por 11 contos, ilustrados por trabalhos de artistas como Graça Morais, Joana Vasconcelos ou José Rodrigues. Ilustram estes Contos de cães e maus lobos os artistas Ana Aragão, Cadão Volpato, Daniela Nunes, David de la Mano, Duarte Vitória, Filipe Rodrigues, Graça Morais, JAS, Joana Vasconcelos com Alice Vasconcelos, José Rodrigues, Luís Silveirinha, Nino Cais e Paulo Damião. Recentemente, através da chancela digital do Grupo Porto Editora, a Coolbooks, um dos contos que integram este novo livro foi publicado em formato ebook, com 6 ilustrações de Paulo Damião.

Opinião: Não sou uma especialista nas obras de Valter Hugo Mãe, pelo contrário, transporto comigo a vergonha de ter lido pouco mais do que A Desumanização e algumas das suas crónicas. Tive foi o privilégio de o conhecer há pouco mais de um ano e de o entrevistar. Não será demais dizer que sou hoje uma pessoa mais rica depois de o ter ouvido e ainda mais depois de ter lido esta pequena pérola que é este livro de contos. Sem bajulações ou qualquer tipo de elogios fáceis, digo-vos isto porque sou mesmo da opinião que estamos perante um escritor que tem a capacidade de transformar o feio no belo, o triste no belo, as coisas banais e pragmáticas em obras que independentemente das emoções que transmitem são belas à sua maneira.

Contos de cães e maus lobos transportam-nos para vários imaginários onde tudo toma uma profundidade digna de reflexão e de um despertar urgente. São 11 contos com 11 ilustrações cujo trabalho deve ser admirado, e que ilustram de forma particular cada um dos contos. Nas linhas que seguem cada ilustração que puxa à imaginação, deixamo-nos ser engolidos e conquistados. A escrita é simples, os cenários são simples, mas o reboliço no meu coração ao longo de grande parte das páginas foi tudo menos simples. Acho que é importante esta capacidade de através das palavras fazer pulsar mais forte os corações de quem as lê. Talvez pelo que tem sido a minha vida desde há um ano, os contos O Menino de Água e As mais belas coisas do mundo me tenham tocado particularmente. No primeiro são apenas duas páginas e meia e, no entanto, senti que o mundo todo cabia e era sugado nelas. O segundo é um pouco maior, mas também o percurso vai sendo através de uma sensação de procura e descoberta. Não há nada como o sentimento de perda para nos unir profundamente a emoções que por vezes não compreendemos.

Há também que enaltecer o prefácio de Mia Couto, e penso que vale a pena frisar uma passagem com a qual me identifiquei desde logo: "Há na escrita de Valter Hugo Mãe algo que nos desconcerta e nos fragiliza." Estou tentada a adicionar que no fim também nos deixa mais fortes, mais capazes, com mais esperança na mudança. Os 11 contos são tão diferentes uns dos outros e ainda assim tão parecidos na candura que carregam com eles. Sabem porque é que já reli e hei-de reler novamente estes contos? Porque me fazem sentir menos sozinha, porque encontro reconciliação e até regeneração do meu espírito naquelas linhas. Se isto não quer dizer que estamos perante uma obra de arte única, não sei o que quer dizer. Acredito na capacidade redentora da escrita. Tanto para quem escreve como para quem lê.

Estamos perante um livro intemporal que serve tanto para crianças como para adultos. Só posso agradecer ao Valter Hugo Mãe por todo o amor e carinho que emprega na sua escrita, pelo modo como encara a vida e tão sinceramente se expressa sobre a mesma. E termino com a última frase de As mais belas coisas do mundo: "Quero sempre inventar a vida.".

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O luto de Elias Gro
João Tordo

Editora: Companhia das Letras (Penguin Random House Portugal)

Sinopse: Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais. A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar. O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza – e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor. "O Luto de Elias Gro" é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.

Opinião: Ser-se português implica carregar todo um legado emocional. Se é verdade que o sentimento saudade só tem palavra definida na nossa linguagem, também é verdade que existem pequenas particularidades que parecem ser encontradas só na nossa gente. A literatura portuguesa tem-se mostrado, nos grandes romancistas, recheada de uma profundidade que é raro encontrarmos na literatura estrangeira. Não falo de complexidades ou genialidades, falo antes de uma capacidade em explorar emoções e locais intrincados da mente humana no que toca ao relacionamento do eu consigo mesmo e do eu com os outros. Estreei-me na escrita de João Tordo com Biografia Involuntária dos Amantes e não demorei muito a aperceber-me que estava perante um escritor com essa capacidade. O luto de Elias Gro, embora num registo diferente, confirma esse talento nato, de alguém já amadurecido na escrita e capaz de enfrentar as suas próprias sombras.

"Parece que o lugar onde estamos nunca é suficientemente agradável. Deixa-me ver se acolá se está melhor. E, quando lá chegamos, percebemos afinal que a vida também estava a acontecer onde estávamos. Mas agora já estamos acolá e não podemos regressar, porque a vida também acontece acolá."

Nesta obra vivemos histórias dentro de histórias. Temos o protagonista, que sendo já característica do autor não sabemos o seu nome, temos a sua vida comum anterior, a vida de Elias Gro na pequena ilha e ainda o retrocedimento nas memórias de um passado importante para Elias. No presente, procuramos o sentido para as acções do nosso narrador, que se procura a si mesmo. Pensa encontrar na solidão a paz que precisa, mas encontra antes uma série de tormentas que rapidamente tenta anestesiar com a bebida. É Cecilia, a filha de Elias, a única pessoa que o vai conseguindo despertar desse torpor e será também ela a causa do seu acordar.

"O que eu procurava era o esquecimento e, de repente, via-te em todo o lado. Minto, pois na verdade sentia-te em todo o lado."

A narrativa de João Tordo tem tanto de silenciosa, de contacto directo com a alma, como de alarmante. Os compassos de espera, o desapego, a descoberta, a adrenalina e o amor estão muito bem conjugados, mas a componente fulcral é a perda. Aquele sentimento de impotência, de vazio, de desespero associado a uma terrível constatação de que o que foi já mais não será... E aprender a viver com isso. Uns isolam-se, outros perdem-se, outros tentam encontrar-se no meio de ambos. A inocência (que se perde a uma velocidade vertiginosa) de Cecília, marca de forma muita carinhosa esta obra. Alma não tem mãos a medir e Elias será sempre um enigma em muitas coisas. Cabe ao nosso personagem central decifrar o que quer de si e o que pode esperar dos outros.

"O intuito de abandonar estas ideias, de regenerar estes pensamentos (...) revela-se falhado. Quanto mais eu me remetia a mim próprio, julgando, dessa maneira, anular a influência do mundo, mais encontrava as raízes do meu desespero e mais era incapaz de sair dele. (...) Os pensamentos, como diabos à solta num quarto escuro e abafado, conduziam-me uma e outra vez à mesma conclusão, de que o homem transporta consigo o inferno, e que esse inferno não são os outros mas nós mesmos, quando entregues às nossas ideias mais acérrimas, às nossas intransigências mais cruéis, às nossas dúvidas mais corrosivas."

Três excertos que tanto dizem, que tanto transmitem. E ainda assim são só uma gota no oceano que é O luto de Elias Gro. Estamos perante uma obra literária intensa, sofrida, íntima e, sinceramente, não esperava menos de João Tordo. Este talento exímio em escrever como ninguém sobre as zonas cinzentas do que somos, do que sentimos e de como nos enfrentamos. Uma leitura recomendada à cautela dos corações que já perderam muito, mas que ainda têm uma pequena chama que insiste em arder.

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A ridícula ideia de não voltar a ver-te
Rosa Montero

Editora: Porto Editora

Sinopse: Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de certo modo, a sua própria história.
Assim nasceu A ridícula ideia de não voltar a ver-te: uma narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso íntimo doloroso. São páginas que falam da superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.
Um livro libérrimo e original, que nos devolve, inteira, a Rosa Montero de A Louca da Casa – talvez o mais famoso dos seus livros.

Opinião: Existem livros que, uma vez lidos, deixam uma marca tão indelével em nós que se torna imperativo tomar alguns momentos como nossos, quase em tom de luto respeitoso pelo seu fim. Nunca antes tinha lido uma obra de Rosa Montero, tornando A ridícula ideia de não voltar a ver-te o meu primeiro contacto com a sua escrita. Nem sequer é bem um romance, mas antes uma espécie de biografia-autobiográfica, cruzando o seu passado com o de Marie Curie. Através do registo fascinante da vida desta que foi Prémio Nobel da Química e da Física, a escritora dá-nos não só a sua visão sobre os acontecimentos históricos como entrelaça o seu sofrimento com o dela nos devidos momentos.

Começando pela edição física desta obra, não poderia não mencionar o facto de estar belíssima, com uma capa reforçada, um trabalho fotográfico cuidado e ainda um separador de tecido integrado, da cor das letras da capa. Gostei do detalhe de a Porto Editora ter dado cor à saia da figura na capa, em oposto ao cinzento quase total da edição original, tornando-a numa das mais bonitas e bem sucedidas capas que tenho encontrado na Literatura. Existe uma simplicidade e um jogo entre a sensibilidade e a força tão patentes na conjugação das cores e no desenho em si, que a conjugação com o texto reflecte uma harmonia de contexto e de expressão visual.

A escrita, estrondosa. Uma capacidade única de quem, inequivocamente, já sentiu um mundo inteiro em si mesma. Mesmo Marie Curie tendo uma história controversa, dados os altos e baixos na sua vida, a forma como Rosa Montero a vai caracterizando deixa-nos antever uma mente aberta, um entendimento sem julgamento, mostrando um respeito e admiração por quem, como ela, perdeu alguém de forma, poderei dizer, ridícula. Esta perda, pretexto para nos conduzir pelos meandros da personalidade de Marie Curie, é o catalisador supremo das observações mais incisivas, onde a realidade é exposta de forma tão simples quanto brutal.

"Na origem da criatividade está o sofrimento, o próprio e o alheio. A verdadeira dor é inefável, deixa-nos surdos e mudos, está para lá de qualquer descrição e qualquer consolo. A verdadeira dor é uma baleia demasiado grande para poder ser arpoada. E no entanto, apesar disso, os escritores empenham-se em pôr ?#?Palavras? no nada. Atiramos #Palavras como quem atira pedrinhas a um poço radioactivo até o entulharmos."

Quem poderia deitar palavras destas cá para fora sem as ter sentido no seu âmago? A ridícula ideia de não voltar a ver-te é uma viagem para os corações fortes, sendo inevitável a rendição crescente ao lado mais frágil do ser humano. Se ao longo de cada cenário nos vamos confrontando com a dura realidade de Marie Curie, as últimas páginas, que incluem o derradeiro testemunho pessoal e que contém os registos do diário da cientista, aperta-nos o peito ainda mais, sendo provável que as lágrimas cheguem mesmo aos olhos daqueles que se julgam mais insensíveis.

A vida da mulher que descobriu o rádio tem tanto de fascínio como de horror. A perspectiva que vamos tendo pelos olhos de Rosa Montero mostra-nos a dura realidade do que foi, e às vezes ainda é, ser mulher num mundo de homens, como o universo da ciência, ainda para mais sendo mais bem sucedida do que a grande maioria dos seus colegas. Os sacrifícios feitos, as batalhas esgotantes e uma situação familiar que também a levava a desvalorizar-se a si mesma, tornaram todo o seu caminho doloroso por vezes insuportável. Valia-lhe o seu Pierre, o seu tão amado Pierre, até ao dia em que após uma pequena discussão ele sai de casa para o laboratório e ela não mais o volta a ver.

Este é um livro imenso, onde a antítese e a catarse convivem para darem origem a uma obra ímpar, reflectindo-se numa leitura intensa, apaixonada, factual, mas que ao mesmo tempo dá espaço à imaginação do leitor para as suas próprias divagações. Posso dizer, sem vergonhas e com toda a certeza, que foi a leitura que mais me arrebatou desde Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, de Afonso Cruz, uma das minhas obras preferidas de todos os tempos. É como ter diamantes nas mãos.

«A criatividade é justamente isso: uma tentativa alquímica de transmutar o sofrimento em beleza. A arte, em geral, e a literatura em particular, são armas poderosas contra o Mal e a Dor. (...) a literatura torna-nos parte do todo e, no todo, a dor individual parece que dói um pouco menos. Mas o sortilégio também funciona porque, quando o sofrimento nos parte a espinha, a arte consegue transformar esse dano feio e sujo numa coisa bela. (...) Esmagamos carvões com as mãos nuas e às vezes conseguimos que pareçam diamantes.»

Sofia Teixeira by Blog Bran Morrighan





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