Crónicas



               Mui nobre senhor de barba farfalhuda, ar sisudo e austero, carácter colérico e violento, não foi um príncipe amado, mas foi um rei respeitado. É difícil imaginá-lo no papel de amante cortês, que idealiza a pessoa que ama, elevando-a a um plano etéreo, quase divino, enquanto a aia escova os longos cabelos da princesa e lhe aperta o espartilho, num aposento que exala a pot-pourri de flor-de- lis e de especiarias.

               Mas, tal como o amor cortês (comportamento amoroso que se desenvolveu na chamada Baixa Idade Média), o jogo amoroso dos dias, da vida e da história disputa-se dentro de nós mesmos, ora irradiando o nosso orgulho e felicidade, ora exacerbando o nosso ciúme e a nossa raiva.

               Cuido dele, do amor, e alimento-o com ardor, como se fosse o último legado da derradeira dinastia… Como se fosse um privilégio inatingível, só ao alcance da nobreza e da fidalguia!

               Gosto de senti-lo, ao amor, com a mesma inquietude, com a mesma impetuosidade e a mesma bravura com que Afonso IV é lembrado: como um comandante militar corajoso… Coragem que lhe valeu o cognome de Bravo!

               A bravura das pequenas-grandes coisas que, potenciada no seu melhor, torna a história de cada um e de todos uma etapa superada. A bravura das pequenas-grandes coisas que, adormecida, pode ser uma trincheira mortal ou a monotonia da não-mudança. A bravura das pequenas-grandes coisas é, afinal, a transformação de nós mesmos, de um todo pessoal e colectivo.

               Temos, por isso, de dirigir o nosso pequeno reino (que é a vida) com pulso de ferro, com determinação e com resiliência, como fez El Rei Afonso IV.

               É ele o mote da edição deste ano da Viagem Medieval em Terra de Santa Maria (www.viagemmedieval.com), que decorre no centro histórico da cidade nortenha de Santa Maria da Feira, de 2 a 13 de Agosto. Dom Afonso, o único filho legítimo do seu pai, Dom Dinis. Filho que não era o mais amado pelo progenitor, já que este teria preferência por outro filho, um bastardo: Dom Afonso Sanches. Uma subalternização do descendente legítimo que esteve na origem de rivalidades, de conflitos armados, da reunião das cortes para jurarem fidelidade ao rei, quando o jovem Afonso subiu ao trono, aos 35 anos.

               Das súplicas de paz protagonizadas pela mãe, Isabel de Aragão (tornada rainha Santa Isabel), às conspirações do rei Afonso IV para aniquilar a facção castelhana e à legislação que aprovou para reprimir a mendicidade e a ociosidade durante os tempos de peste, o infante rebelde, de temperamento obstinado, tornado O Bravo, governou, pela graça de Deus, durante 32 longos anos. Anos duros, difíceis, tempos de fomes, tempos de escassez de alimentos, de seca, de pestes e de guerras com Castela.

               Mas é de tenacidade que reza a história. E são os resistentes que escrevem a história. A história que transforma vidas, que transforma pessoas, lugares, territórios, línguas, tradições e identidades.

               São as lutas, as conquistas, os amores, os hábitos, as vivências, os episódios do quotidiano e as expressões do dia a dia de centenas de personagens “velhos e relhos” (= muito velhos), do “tempo do ronca” (= muito antigo), de “lugares do fim do mundo” (= distantes ou de difíceis acessos), “onde Judas perdeu as botas” (= muito longe), personagens que lutavam “na última lona” (=em péssimo estado ou muito desgastado) contra os infiéis, contra os sarracenos (= árabes) e contra si próprios que dão colorido à maior e uma das melhores recriações medievais da Europa: esta a que se realiza, todos os anos, no centro histórico de Santa Maria da Feira.

               Digo a maior e uma das melhores recriações medievais da Europa, se tivermos em conta todos os aspectos que dão impacto e grandiosidade a este tipo de produções… Desde logo, pelo espaço que ocupa e respectiva envolvência. São 33 hectares da baixa da cidade, ornamentada pelo altaneiro castelo de quatro torres (www.castelodafeira.com), considerado um dos exemplos mais completos da arquitectura militar medieval de Portugal. Este castelo teve um papel relevante na história do país, é rodeado pela floresta das Guimbras e por uma quinta com espécies arbóreas e vegetação luxuriante, com um lago, com uma gruta artificial, com uma ponte romântica e com trilhos desenhados em declives. É com este cenário de fundo e neste palco natural assente nas margens do rio Cáster que se desenvolve a acção da Viagem Medieval. Um palco natural ímpar e difícil, senão mesmo impossível, de recriar em qualquer outra parte do país ou em qualquer outra latitude do mundo.

               A maior e uma das melhores recriações medievais da Europa também por causa do número de pessoas envolvidas diariamente na organização da Viagem Medieval: são mais de duas mil, incluindo centenas de voluntários.

               A maior e uma das melhores igualmente pelo impacto social que tem. A Viagem Medieval envolve, na sua organização, dezenas de colectividades, associações e grupos de artes de rua do concelho que, ao longo de todo o ano, estão envolvidos na preparação do evento. Muitos dos espectáculos que produzem são exportados para outras cidades do país e do mundo. Por outro lado, estão, de igual forma, envolvidos na produção da Viagem grupos de dezenas de idosos, dinamizando o chamado envelhecimento activo.

               Maior e uma das melhores recriações da Europa pela duração do evento, 12 dias, e maior no número de áreas temáticas que apresenta: 25.

               Maior e uma das melhores também graças ao número de visitantes que atrai. Em cada edição da Viagem, o certame junta cerca de 600 mil pessoas, o que dá uma média de 50 mil visitantes por cada um dos 12 dias do evento.

               Maior e uma das melhores graças, ainda, ao número de espectáculos recriados nessas áreas temáticas: cerca de 200.

               Maior e uma das melhores, igualmente, pela longevidade: esta Viagem Medieval existe há 21 anos (desde 1996, não se tendo realizado apenas em 1998), reinventando-se sempre com algumas surpresas e elementos inovadores.

               Maior e uma das melhores recriações medievais da Europa graças ao seu rigor histórico. Os textos dos espectáculos, as contextualizações de época apresentadas no recinto, as informações veiculadas à comunicação social, os trajes de época, as receitas de época e os guiões dos espectáculos apresentados são feitos com a ajuda de investigadores, de historiadores e de professores de História, para que tudo o que é recriado seja o mais factualmente rigoroso e aproximado do que se vivia na época retratada.

               Maior e uma das melhores da Europa pelo reconhecimento do público e dos especialistas que, desde 2008, atribuíram à Viagem Medieval 11 prémios de Turismo e Cultura, 4 dos quais internacionais. Nos dois últimos anos, A Viagem Medieval recebeu o primeiro prémio “Best Cultural Event” dos Global Eventex Awards, o segundo prémio “Grand Prix Best Event Eventex”, o Prémio Cidade de Castellón e o mais recente galardão de ouro conquistado foi atribuído pelos Prémios Eventoplus, na categoria de “Melhor Evento Cultural”, um prémio que distingue os melhores eventos de Espanha e de Portugal.

               É no burgo desta cidade pequena mas combativa, empreendedora, culturalmente activa e dinâmica, apostada em ir além fronteiras e em internacionalizar-se, e acolhedora de forasteiros de diferentes línguas que se vive o amor de todas as épocas. É neste burgo que se adensam os ajuntamentos (= grupos de pessoas) de nobres, reis, rainhas, príncipes, princesas, pregoeiros d´el rei, porteiros-mor, mordomos-mor, arautos, passavantes, cavaleiros, escudeiros, soldados, guardas, espadachins, clérigos, ciganas, mendigos, marginais, falsários, saltimbancos, malabaristas, alcoviteiras, cuspidores de fogo, bobos da corte, alquimistas, vendedores de água, vendedores de ar, aguadeiras, barregãs, forasteiros, taberneiros e tantos outros.

               Todas estas dezenas de personagens protagonizam os cerca de 200 espectáculos e recriações históricas da Viagem Medieval, misturando o amor e o ódio, o sagrado e o profano, a fé e as heresias, a luz e as trevas, a guerra e a paz, a alegria e a tristeza. Torneios de cavaleiros, batalhas, conquistas, treinos de militares e de escudeiros, cortejos, peregrinações, cenas da vida no campo, festas de música e de dança medieval, jogos medievais, jantares medievais e banhos públicos medievais estão entre essas centenas de reconstituições que o visitante pode simplesmente observar ou mais que isso.

               O público pode experienciar, viver e sentir, tornando-se parte activa daqueles momentos. Basta, para isso, adquirir um bilhete experiência (www.viagemmedieval.com/index.php?pg=bilhetes-experiencia), com o qual é possível, por exemplo, ser “Guerreiro por um dia”, participar num “Repasto no povoado” ou ter visitas guiadas pelos circuitos temáticos, conhecendo em detalhe as áreas existentes e obtendo explicações sobre o que se passa em cada uma delas. A ideia é estar na Viagem Medieval e não apenas visitar a Viagem Medieval, sentindo e usufruindo da realidade para além da história.

               E porque a trilogia dos horrores - Fome, Peste e Guerra - é mais suportável com uma mesa farta, em redor de uma lareira, com a família e os amigos, o recinto do certame convida os comensais a experimentarem também os pratos típicos da Idade Média. Das ementas das tabernas e das ceias medievais recriadas no recinto, no castelo e em alguns restaurantes da cidade, constam pratos tão exóticos quanto repugnantes: queimada aos maus olhados, matabicho do pastor, enfartamentos de fidalgo, sopa da plebe, papas de feijão, caldo à lavrador, pão artesanal, espetadas mistas na grelha, porco inteiro no espeto ou o mais nobre javali assado com castanhas.

               Se o prazer de comer é aquele que experimentamos com paixão em determinados lugares e com certas pessoas, a experiência da Viagem Medieval não fica completa se o forasteiro não testar os produtos típicos e exclusivos de Santa Maria da Feira, produzidos na cidade. No cabaz feirense de e para todas as épocas, recomenda-se a inclusão de vários produtos com origem no concelho da Feira.

               É o caso da Chamoa, um néctar de frutos silvestres, disponível em licor e em vinho, inspirado na amante de Afonso Henriques, transformado em bebida oficial da Viagem Medieval, porque, diz a lenda, quem bebe esse néctar beija como se fosse a primeira vez. Por seu lado, as trufas de Chamoa são bombons artesanais de chocolate que acompanham bem com o néctar. Podem ser experimentados no “Restaurante Praceta”, no centro da cidade, tal como a bomboca de fogaça, recheada com creme de Chamoa.

               A famosa fogaça, pão doce com quatro relevos que simbolizam as torres do Castelo de Santa Maria da Feira, e os caladinhos, bolinhos de ovo e farinha, iguaria tradicional do concelho, cuja origem remonta a um episódio histórico do regime de Salazar, estão disponíveis em inúmeras padarias-pastelarias e supermercados do concelho. Recomendo eu a doçaria confeccionada na emblemática e histórica pastelaria “O Trovador”, também na baixa da cidade.

               O Doce dos Pereiras, um pão de ló fofo e húmido, em forma de escudo e engalanado pela emblemática cruz dos Pereiras, em homenagem ao conde do concelho, o conde Pereira, encontra-se na confeitaria “Museu Vivo da Fogaça”, no centro histórico de Santa Maria da Feira. Aqui, a fogaça é reinventada em múltiplos derivados: cortesãs de fogaça (miniaturas de fogaça com chocolate e recheadas com cremes de framboesa, baunilha, rum ou o típico creme da Bola de Berlim), salame de fogaça (com chocolate e bolacha), pudim de fogaça e rabanadas de fogaça.

               O queijo A Queijeira e o queijo flamengo em forma de bola de marca Rico, à venda em todos os hipermercados do país, também é produzido por uma das mais antigas empresas de lacticínios do país, a Lactimaf, sedeada em Fornos, uma das freguesias do concelho da Feira.

               A cerveja artesanal Beata, criada por dois jovens empreendedores de Santa Maria de Lamas, outra freguesia do concelho da Feira, também deve ser experimentada. Está disponível em quatro diferentes sabores, pensados para acompanhar diferentes pratos: marisco; pratos apimentados e fortes; saladas e comida light; sandes e snacks.

               É a abastança de todas as épocas que se homenageia na reinventada gastronomia local e que se apresenta aos forasteiros como se Santa Maria da Feira cortejasse as damas com olhares ostensivos sobre as entradas, com gula sobre o prato principal e com luxúria à sobremesa.

               Reunindo sabores e aromas, reunido a composição decorativa dos trajes, o rigor histórico dos acontecimentos, a tradição e o know how local aliado à inovação das gentes feirenses, Santa Maria da Feira é, também, cada vez mais, um negócio de sucesso. Para levar para casa um produto ou um objecto oficial e original de Santa Maria da Feira, que recorde a cidade, que recorde um episódio ou uma memória, foi criada a loja oficial Saint Mary Store, um projecto destinado a vender, divulgar e promover as Terras de Santa Maria no mundo. Nesta loja online (www.saintmarystore.com e email info@saintmarystore.com), que tem também espaço físico na “Casa do Moinho”, na zona do Rossio, vende-se tudo o que de melhor permite recordar Santa Maria da Feira, os seus produtos tradicionais e as suas gentes, bem como todo o material de merchandising alusivo aos eventos culturais da cidade: a Viagem Medieval, o Imaginarius - Festival Internacional de Teatro de Rua, o evento de Natal Perlim e a secular Festa das Fogaceiras.

               Santa Maria da Feira, a minha cidade berço, já não é somente a imagem do castelo altaneiro que observa o horizonte e já não é somente a memória da minha infância a correr atrás dos esquilos, pelo meio das aveleiras, na bucólica quinta do castelo. Santa Maria da Feira é uma imagem de marca. A marca de quem aproxima povos dispersos e que faz da Diáspora uma identidade colectiva. A marca da adaptação à modernidade, mantendo o que de mais singular nos distingue. A marca de que podemos sair dela, mas ela não sai de nós. A marca de que só podemos ganhar escala quando nos abrimos ao mundo. A marca de que a história tem finais mais felizes quando estamos unidos. Enfim, a marca de que o amor (incluindo o amor por uma cidade) é de todas as épocas!

Fátima Araújo, Agosto'17
Jornalista da RTP

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