Crónicas



“Dar a volta”, “Ver mais longe”, “Rir apesar de tudo”, “Ver a parte positiva”, “Reagir”,...
As frases a negrito ecoam e propagam-se, vindas de bocas com olhos que veem mais longe, mais alto, mais forte.
São boas, bonitas, poderosas, inspiradoras, as frases. São úteis, motivadoras, grandes e cheias. Mas matam por dentro, se forem ouvidas quando os ouvidos ainda não têm receptores adaptados a elas.
Queimam, como se fossem bolas de fogo atiradas sobre tecido leve. Ferem, se forem pousadas em carne frágil.

Quando escrevo estas linhas não me esqueço que venho da área da Psicologia Positiva, que trabalho com ela a cada dia e que a ensino e aplico nos quotidianos alheios e próprios.
Não esqueço os conceitos de gratidão, da importância de celebrar e reconhecer, do poder da criatividade na procura de soluções, nem da importância fundamental do uso das forças pessoais para chegar mais alto em nós.
E é precisamente desse lugar, de um que conhece e reconhece a importância dos olhos postos em lugares com perspetiva, que resgato o tempo de dor sem frases a negrito.

Há um tempo, um tempo íntimo de carne aberta, em que as palavras só deveriam soar a “estou” e a “vejo-te”.
No tempo de queda no chão o urgente é sentir a solidez do mesmo. No momento em que os joelhos cedem, é a almofada que apetece, não a catapulta.
As lágrimas obedecem também à força da gravidade. E a gravidade é a gravidade e tem força, muita força. Reconhecer-lhe o peso próprio é tão urgente como saber acolher entre as mãos um pássaro que cai de uma árvore, antes de o por de novo em voo.

Sou adepta da resposta, da luta que se faz manga arregaçada, dos copos que se enchem quando parecem quase vazios e das limonadas que se fazem quando a vida só dá citrinos amarelados.
Mas importa-me muito a bolha de tempo e espaço que antecede a reação.
Importa-me o passo atrás para melhor acolher o choque; o encolher do corpo para sentir o aperto; o nó na garganta que a tristeza profunda gera.
Importa-me a bolha chamada “estou” e a bolha chamada “vejo-te”, de quem ao lado testemunha e fica. Permanece. Sem frases que empurrem, só palavras onde se pousem cabeças cansadas.

No espetro entre a prostração crónica de quem desiste e lá fica e a capacidade elástica de quem verga mas não parte, há um espaço de silêncio que se chama reconhecimento de dor. É um tempo que a respeita e lhe dá tempo.

É um espaço de pousar, em que não há (ainda) nada para fazer. É o espaço de sentir por fora e por dentro, de permitir ser tocado como humano, no mais íntimo da fragilidade, na mais profunda simplicidade do “doeu”.
E este texto fala dele, na forma dessa bolha, como um lugar a ver, a reparar, a fomentar.
Sem a letargia do “para aqui fiquei...” mas longe da tirania do salto positivo. O positivo já chegará, já terá o seu lugar, já será até agradecido. O momento de reagir já se escreverá na agenda e será cumprido.
Mas não se empurrem as lágrimas para cima, não se levantem as cabeças cansadas quando elas acabaram de cair, não se levem de passeio os medos que acabaram de se instalar.
Há um tempo de fazer casa a tudo isso, a um respeito profundo que nos merece o perfurar da alma ou do coração. E nesse tempo, ser visto e ser acompanhado, num silêncio que só está, não diz nem fala, é talvez a bolha mais preciosa que podemos tecer à reação que virá. Depois. Virá depois.

Põe as mãos em concha, num ato de receber, e observa à volta as dores em queda ou os corações perfurados. Recebe, nas palmas viradas para cima, os destroços do que serão as pedras da reconstrução do amanhã sem pressa.

Oferece um silêncio presente e escreve num papel que se lerá depois - só depois! - as frases motivadoras, cativantes, inspiradas e de fazer voar, que os lábios tiverem vontade de dizer.
Chegará o tempo, uma vez levantado o coração, para que ecoem.

Talvez o segredo dos lanços que dão balanço esteja no certo recuar acolhido na hora do embate.
No momento presente esquece de contar os segundos e não lhe imponhas tiranias. Fica.
Fico.☆



Fotografia by Miguel Marecos

Edite Amorim, Novembro'17
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