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Dezembro 2014


Pedaços de Pensar Grande
"Viagem a uma forma de viver o mundo freelancer"

Freelancer. Trabalhadores por conta própria. Profissionais autónomos. Que se auto-empregam. Que guiam o seu trabalho por projetos, trabalhando para várias empresas/clientes. Que trabalham por hora, por projeto, por dia, em vez de trabalharem para uma mesma entidade e com um salário fixo.

Somos muitos os que vivemos assim, somos cada vez mais os que vivemos assim.
Uma forma de vida com peculiaridades e formas de questionar o óbvio em mais ou menos quase tudo.
E dentro deste mundo, da mesma forma que no mundo de quem trabalha por conta de outrem, há tantas formas como pessoas, tantos estilos como personalidades.

Hoje, num café do Porto, entre projeto e projeto, entre o café e o almoço, num pedaço de tempo próprio –porque todo o tempo é próprio, trabalhando assim –deixo por escrito aquilo que marca este estilo de vida. Um caso concreto, entre tantas perspetivas possíveis. Características de um mundo freelancer em particular, de quem anda há 10 anos de mochila às costas, o trabalho sempre lá dentro.
Deixando aberto ao comentário de outros freelancers, para conhecer diferenças, e de outros profissionais que tantas vezes questionam como é, afinal, este mundo “sem horas” mas com tantas horas, aqui vão pedaços deste mundo:


# 1 – Coffices (Coffee + Office) – Uma expressão já conhecida no meio freelancer para falar dos escritórios que são cafés, ou dos cafés que servem de escritórios.
Não tenho sede física. Nunca tive, não penso em ter. Apesar de a casa, própria ou alheia, em Portugal ou em qualquer outro lugar do Mundo, ser um bom escritório para alguns momentos do dia, os que mais me cativam são, sem dúvida, os cafés.
Cheiros, pessoas, ambientes, atmosferas diferentes. Movimento, interação, ação.
O vai e vem, o entra e sai, a sensação de que o mundo acontece ali, ao longo das horas, à nossa volta. Reuniões com gente que se vem sentar connosco a partilhar um chá, uma nata, um sumo de laranja. Mesas peculiares, decorações sempre diferentes, localizações para todos os gostos, internet sempre presente.
Para cada dia ou tipo de trabalho, uma escolha diferente. Há os que são bons para reuniões, os que permitem chamadas Skype, os que inspiram só por lá estar, os que acolhem melhor o stress ou os que são bons para dias de chuva ou dias de sol.
Porque os ambientes contam e muito, a possibilidade de escolha do Coffice de cada dia é, sem dúvida, das coisas que mais valorizo neste tipo de trabalho. A sensação de estar em movimento, com a escolha sempre à mão.

# 2 –Walk & Talk (reuniões em movimento) – Um trabalho que exige tanto tempo diante do computador e de livros, pede movimentos de contra-ponto. Pede movimento, ação, arejo, ar, energia física.
Por isso, durante os dias, cada oportunidade que pode ser aproveitada para caminhada, não é desperdiçada. Uma conversa telefónica de meia hora? Caminhada pelo quarteirão, com telemóvel colado. Uma reunião de equipa para acertar detalhes, debater ideias ou definir projetos? Caminhada o mais longa possível. Necessidade de sistematizar uma formação que se acaba de dar, no final de um dia bem cansativo? Caminhada sem limite de tempo. Necessidade de inspiração para um novo projeto ou de uma ideia nova ou solução alternativa? Caminhada, caminhada, caminhada. Com sol, com frio, com chuva ou com neve (neste caso, um bom gorro é bem-vindo como companhia).
Saúde, Criatividade, Inspiração, refrescar de Perspetiva são boas razões para levantar e sair 20 minutos.
O impacto extremamente forte do movimento corporal no potenciar da criatividade é bem conhecido. Pensar com o corpo. E libertá-lo para que o pensamento flua de forma mais fácil.
O corpo é sábio e pede-nos, mais do que o que nos permitimos escutar, que o movimento se integre nas ideias e nas reflexões. Fazer-lhe caso tem sido uma aprendizagem forte.

# 3 – Um café com... – Porque os outros importam. É isso. Porque os projetos podem deixar de vir, o trabalho pode ficar aborrecido, os clientes podem não pagar. Mas “os outros” serão sempre “OS outros” e com a importância toda que têm para o nosso mundo pessoal.
“Os outros” podem ser amigos que precisam de um ouvido, colegas que precisam de ideias, desconhecidos que precisam de atenção, gente que só nos conhece pelo trabalho que fazemos e que necessita de inspiração. “Os outros” são as pessoas que nos fazem a vida, de mais ou menos perto. Mas quando alguma delas pede “tempo”, dar-lho é o mínimo que posso fazer. Por isso se abrem as portas para inspirar e deixar-se inspirar, para ouvir e falar, para aprender e partilhar.
Encontros planeados ou acontecidos, que permitem sair da concha mental habitual, que permitem pensar diferente, só porque o outro é diferente.
E quando o tempo de pausa termina e se regressa ao trabalho, a riqueza mental é tão maior, que compensa a dispersão que se criou entretanto e se encurta até as horas de procura das ideias para o que se estava a fazer. Quando se repara já lá estão, postas por mãos invisíveis que fazem magia durante as conversas.

# 4 – Tempo elástico – Obviamente que permitir-se parar para todas as outras atividades tem como origem e consequência uma mesma coisa: que o tempo tenha que ser realmente elástico. Por isso os dias podem terminar bem depois da hora do suposto jantar e começar quando os desportistas madrugadores andam na rua.
Quando a manhã foi passada a ouvir um amigo, ou a tarde a ir ao correio comprar selos para um carta a um colega de longe, a consequência pode ser ter que acabar uma apresentação de Power Point, fechada no quarto, à hora em que os outros conferencistas estão no bar a beber um copo antes de ir dormir.
Mas por outro lado, é precisamente a possibilidade de nesse dia ter podido estar com esse amigo ou comprado esses selos, que faz com que o tempo saiba tão bem.
Não digo que seja sempre fácil. E tenho que reconhecer que a exigência é enorme. É difícil gerir o volume de trabalho e o tempo de um dia comum de 24 horas físicas. É difícil focar e voltar a concentrar na tarefa que se interrompeu. É difícil refazer a agenda várias vezes por dia. E é difícil sentir que, ainda assim, ficam coisas por fazer.
Mas é, sem dúvida, um tempo mais à medida de cada um, à minha medida, mais de acordo com o ritmo próprio e adequado ao que eu considero que devem ser as horas da minha vida.

# 5 – Multi tasking constante – Trabalhar como freelancer e com uma empresa singular exige que o conhecimento e as atividades não se espartilhem de forma nenhuma, antes cresçam e se ampliem tanto quanto possível.
Não há departamento de Marketing. Nem serviço de Contabilidade, nem de Comunicação, nem Gestor de redes sociais, nem serviço de Secretariado que atende chamadas, marca hotéis e compra voos.
Há uma pessoa com muitos braços, muito olho atento e muita capacidade de alternar as pesquisas no Googlemaps para perceber como chega à reunião na empresa cliente, com a melhor descrição da teoria de ponta que acaba de ler no último livro do autor de referência. Tudo isto, depois de ter programado as redes sociais para os 4 dias seguintes, ter enviado um mail em inglês, feito uma chamada em espanhol e pedido um chá em português, e antes de preparar a fatura do projeto anterior, aquele que seria isento de IVA. Ou não seria?
É exigente. Mas com a flexibilidade que se pede ao cérebro, para se ser numa mesma tarde tão bom a liderar uma reunião como a preparar um Power Point visualmente atraente, e acertar na percentagem de IVA, garante-nos, espero, que o Alzheimer demore mais tempo a chegar.

# 6 – Aprender constantemente – A possibilidade de gerir cada projeto e a forma como se decide levá-lo a cabo, permite seguir a curiosidade de uma forma produtiva e construtiva. Por isso, dar-lhe espaço torna possível um aprender constante.
Isto aplica-se de uma forma diretamente relacionada com o ponto #5, anterior, que exige que estejamos sempre a aprender sobre áreas distintas, mas também às aprendizagens que vêm da curiosidade natural produzida pelas coisas novas.
O que quer dizer esta palavra? Como funciona este programa? De onde vem esta expressão? Quem é este autor? Porque é que esta expressão se aplica neste contexto? É só parar e ir atrás de respostas. Aprender seguindo a vontade, seguindo o fio condutor do que sucede no dia, que nos faz cruzar com aspetos específicos em que ainda não se tinha pensado antes. Aprender ao sabor da curiosidade e ir saciando a inquietação à medida que surge, sem pressões de fora.
No final do dia é, muitas vezes, a sensação de ter podido gerir o ritmo de trabalho para poder parar e aprender algo novo que o faz mais, algo mais do que o anterior. E a nós mais ricos.

#7 – Divergir, divagar, dispersar – Como “dia de trabalho” conto também aquilo a que, de outra forma, chamaria “passatempos”, “perdas de tempo”, e outros atropelos semelhantes ao tempo que achamos tantas vezes estanque.
Também dentro das estratégias de estimulação da Criatividade se estuda esta permissão à divagação, a aposta por coisas distintas e dispersas. A riqueza de raciocínio trazida por atividades aparentemente não relacionadas é imensa. Exige atenção que se recentre rápido, implica o uso dos dois hemisférios cerebrais e permite a sensação de uma vida diária em que se coloca em prática a maior parte do nosso ser. O “Eu do trabalho” e o “Eu da vida real” passam a estar mais perto.
Por isso, se estiver presa numa ideia, ou se sentir esse impulso durante o dia, páro para fotografar, se a inspiração vem, para escrever, se a necessidade chega, para observar, se o momento se apresenta.
Incluo no “tempo de trabalho” cada uma dessas coisas, porque são elas que contribuem também para uma atitude mais aberta, um raciocínio menos enferrujado, um corpo mais ágil, uma mente mais arejada. E tudo isso facilita o processo criativo, a agilidade mental, a capacidade de aguentar o tempo que for necessário para resolver um problema ou encontrar uma solução.
Não são nada raras as vezes em que é mesmo num desses momentos de “divagação divergente e dispersa” que a solução para um projeto chega, ou o tema para uma conferência se torna claro. Várias sequências de temas para os congressos que apresento chegam em momentos em que estou com uma câmara ou uma caneta na mão. A partir daí, é só agarrar o mini caderno de ideias que geralmente acompanha a atividade e anotar o que surgiu.

#8 – Auto-gestão, exigência e celebração – Ser dono do tempo e ser dono da nossa forma de trabalhar implica também ser chefe de si mesmo, trabalhador para si próprio e auto-companheiro. Saber quando desistir, saber até onde se pode exigir ou saber quando é importante parar para uma recompensa torna-se fundamental nos dias.
Ser uma boa chefa de mim própria implica aprender a não me castigar se as coisas não correm a 100% bem e reconhecer de forma clara se algo foi genial. Ser boa colega de mim mesma implica estar atenta e auto-sugerir-me um passeio ou alguma das atividades do ponto #7 quando o momento encravou. Ser boa trabalhadora para mim mesma implica conseguir tirar o máximo das minhas capacidades, dando o meu melhor a cada momento, procurando ser mais a cada projeto.
E o equilíbrio de tudo isto implica algo de base. Implica a noção de desfrute, de prazer pelo trabalho. Assumindo as dificuldades e a exigência que os dias trazem, mas sendo capaz de parar e auto-reconhecer e auto-celebrar o percurso feito.
Assim, os momentos de brinde fazem sentido, mesmo que, sendo a meio da tarde, impliquem copos cheios só de chá. E as fotografias de saltos de equipa fazem sentido para marcar de forma visual um projeto que correu bem.
Porque cada “Muito bem” precisa de ser auto-sussurrado ao próprio ouvido. E cada piscar de olho ou palavra de encorajamento deve vir do mesmo corpo que o verá ou ouvirá.

Estes são, claro, pedaços de uma realidade. Da vida de uma freelancer que procura dias com sentido e um trabalho que lhe encaixe.
Peculiaridades de uma pessoa, com aspetos seguramente partilhados por várias e com tantas diferenças quanto profissionais a fazer o mesmo.
E desse lado? Que dias se criam e que diferenças e semelhanças aparecem?

Edite Amorim, 12 Dezembro'14
www.thinking-big.com/blog

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