Crónicas

Setembro 2016


Pedaços de Pensar Grande
Poesia e Beleza

Em leituras dos dias tropeço por duas vezes, escondida em livros distintos e em idiomas diferentes, numa mesma frase, repetida como quem reitera uma ideia, uma ideia de deixar a pensar:
“Há que habitar poeticamente a terra.”
Procuro o autor e descubro-o no século XVIII. Um poeta e romancista alemão, chamado Friedrich Hölderlin (https://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Holderlin).
Um senhor que trouxe, no vento dos tempos, uma ideia que agora ressoa no sentir de uma contemporaneidade aparentemente desprovida de poesias terrestres.

A toda a volta, no absurdo das notícias de naufrágios, de corrupções, de listas de desemprego, de violência e de doenças, de incêndios de terras e de valores, o sentido da existência parece limitar-se ao sobreviver para existir. A burocracia anestesiando o sentido crítico; os media retorcendo factos com narrativas que pairam por lugares aparentemente distantes; a educação desobedecendo ao mais comum dos sensos,...
Manter-se vivo, manter-se à tona, manter-se imune: a mensagem constrói-se como aparente única salvação, num caótico mundo com partículas desintegradas.

E no entanto, a frase a ecoar ao longe mas tão perto:
“Há que habitar poeticamente a terra.”

Sigo-lhe as pistas, inquieta com o eco que traz.
Ainda sem ter encontrado a interpretação de Heidegger* sobre o tema, explicando que nem a “poesia” dizia só respeito ao sentido mais lírico da existência, nem o “habitar” se referia à ocupação dos dias no espaço, sinto entranhar por dentro o significado mais amplo da mensagem.

A necessidade do sentido(sentir) poético de uma existência nos dias. A urgência de chamar ao quotidiano uma palavra feita de algo maior, composta talvez pelos vários pedaços do mais pequeno.

Como se habitará então esse outro lugar de existir, trazendo da poesia o que dela sirva para semear algo maior?
Como caminhar entre o caos, compondo com ele, aceitando-o, vendo-o e transformando-o; fazendo dele parte da solução, parte da construção desse algo novo que sejamos capazes de (re)criar?

Poderemos voltar a olhar para as coisas suaves que vivem e brilham; fazer delas o mundo quase inteiro?
Será possível reaprender a cantar na cozinhar ou no banho, ou relembrar a forma das nuvens, ou apreciar com força os sabores esquecidos?
E poderemos, depois de tudo e com tudo isso, criar por fim um oásis resistente aos dias absurdos e ao absurdo de cada dia?

Reencontrar a beleza, olhá-la nos olhos e acariciar a sua presença, com tudo, apesar de tudo.

Reaprender a ver, a ficar, a sentir.
Reaprender a poesia mesmo não sabendo ler nem prosa.
Re-habitar um mundo inteiro reciclando os usados materiais.
Compor com o caos transformando-o em cosmos, em novo, em possível.
Descobrir na Beleza o aliado que leva mais longe, que leva mais fundo.

Nas palavras de Cheng**, “Para quê falar da beleza se não é para tentar fazer voltar o homem ao melhor de si mesmo e, sobretudo, aventurar uma palavra que possa transformá-lo?”. Fazer do homem um melhor passeante da Terra, atento ao de dentro, cuidador do de fora.

Colhendo então a beleza por entre a imperfeição, colocando-a em forma de verso não-rimado: poderemos assim sobreviver àquilo que o novelo do mundo teima em enrolar?

Deixando chegar os dias em que sintamos na pele grossa a possibilidade infinita de salvação através das pequenas coisas. A criação de sentido num café tomado ao sol, a apreciação do corpo durante uma caminhada ritmada, o regresso ao calor num abraço sentido, a quietude sintonizada numa música ouvida ao final de um dia terrível.
E a isso chamar-se-á Beleza.
A beleza de existir, sem medo ou castração ruidosa, posta assim à mão de criar espaço. A beleza do que rodeia interiores e exteriores, das grandes empreitadas aos pequenos nadas, do mais fabuloso edifício de arquiteto ao risco fino de lápis afiado, seguro por umas mãos que começam a escrever.

Em cada coisa a Beleza, e nela tudo contido. A personificação desta poesia. E ambas relembrando que do absurdo também nasce o sentido, e que a terra necessita de versos que tornem a passagem mais leve, mais Humana. Porque afinal a Beleza não é coisa pouca, e é mesmo, como marca Cheng**, “um tema em que está em jogo, nada menos do que a salvação da Humanidade.”

Na procura entre os dias, em cada dia, do pequeno verso dito em voz alta ao gesto presente que sente mais, o regresso às palavras do escultor Rui Chafes***: “a Beleza como dever, a coragem como único caminho para o futuro.”

* Roberto Amaral (2009), “Germina – revista de Literatura e Arte”
** François Cheng (2012), “Cinco meditaciones sobre la Belleza”
*** Rui Chafes (2012), “Entre o céu e a terra”

Fotografia by Miguel Marecos


Edite Amorim, 30 Setembo'16
www.thinking-big.com

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