Crónicas

Junho 2016


Pedaços de Pensar Grande
À flor da pele

A que distância andamos, a quantos passos ficamos dos outros passos?

“Um abraço. Pare para olhar nos olhos, dê-lhe a mão e, se se atrever, abrace-o, mesmo. Abraçar a sério.”
Foi assim que ouvi o Daniel Horta Nova, um ex-sem abrigo e agora poeta, responder à pergunta “E que mais é que a sociedade civil pode fazer em relação ao problema crescente da situação de tanta gente a viver na rua?”
“Abrace-o”, repetiu, olhando-nos nos olhos. “Comida e alguma roupa as pessoas vão arranjando. Mas um abraço é ser visto, é ser respeitado como humano, é calor que não se arranja de outra maneira.”

Ficou a dançar, dentro daquelas palavras, mais uma razão para pensar no tema do contacto.
A importância que cresce em nós, de forma individual e coletiva, do estar fisicamente perto de outro.
Um abraço. Uma mão a passar num braço, um estreitar de mãos com força e olhos postos, um chegar mais perto.
O contacto físico intencional, presente, respeitador do espaço alheio como potenciador de mais de nós, de mais dos outros.
Uma espécie de transporte para conhecer mais do mundo, para conhecer mais de nós mesmos.

As teorias confirmam o empirismo trazido pelo que os olhos veem nas ruas, nas interações que pautam os dias corridos. Também os estudos sobre embodiment importância de abraçar o mundo para o trazer para dentro de si, de tocar para integrar, para aprender.
O que traremos para dentro de nós se não tocarmos e se não deixarmos, ao alcance de uma mão suave, o nosso mundo para ser aprendido? O mundo perto da mão, o outro ao alcance do braço, o mundo a crescer na possibilidade de um abraço. Como se nele, nesse espaço estreito, se guardassem possibilidades de chegada a lugares maiores, como diz o pensador José Gil ao falar da dança em proximidade. Não sendo do abraço, que fala, mas do contacto físico procurado, desse estar fisicamente próximo, Steve Paxton, coreógrafo e criador do Contact Improvisation, define-o como “o modelo do tacto agindo no corpo inteiro”, em que através do movimento que se sente do outro se tem acesso também a esse seu espírito.
O outro mais perto através do contacto, e a própria proximidade a reforçar o território do que conhece e do que é conhecido.

O que falta, o que habita cada corpo, que emoções dançam lá dentro, esperando um ombro para pousar, dois braços para estreitar?
Quanto de nós precisa desse chegar perto, quanto de nós se dispõe a dá-lo?
E de que forma aumenta o nosso mundo (o de dentro e o de fora), pela proximidade física dada por esses encontros de pele?

Recolho as palavras de Marguerite Yourcenar que, nas “Memórias de Adriano”, fala desta “teoria do contacto, em que o mistério e a dignidade de outrem consistiria precisamente em oferecer ao Eu esse ponto de apoio de um outro mundo.”
Precisamos do outro. Do contacto com o outro, com a sua pele, com o calor que emana, com a força que produz ao tocar a nossa força.
Aumentamos nesse encontro. Expandimo-nos nesse aproximar de corpos sem intenção maior do que o aperto em forma de abraço espontâneo, não forçado.

Precisamos de nos estreitar noutros corpos, precisamos do calor que chega e parte em proximidade, para nos nutrirmos de humanidade.
Como dizia o Daniel que já conheceu as ruas como casa: “É que o abraço sentido e o toque sincero acabam por ser, de entre tudo, o que nos permite manter à flor dos dias.”
À flor dos dias, à flor da pele. Pela proximidade de um contacto que nos torne maiores.

Fotografias by Miguel Marecos


Edite Amorim, 03 Junho'16
www.thinking-big.com

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