A.A.A.
Access All Areas




Estivemos à conversa com Tiago Pereira sobre o piquenique A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria.

Fenther – Uma pequena introdução da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria...
Tiago Pereira – Talvez o mais complexo de responder. Como é que explica em poucas palavras, um projecto que começou por uma ideia de juntar toda a música no mesmo espaço, gravando na rua e em lugares inóspitos, e se transformou num projecto de vida com uma grande componente social, quando no inicio o que acontecia, era sempre fugir das pessoas e passar o menor tempo possível com elas, quer por timidez ou por preconceito. Não se consegue. A MPAGDP quer nivelar a atenção que se dá à música em Portugal, acreditando que a música deve ser divulgada, fora da indústria, fora dos festivais, sem hierarquias e sem fronteiras.

Fenther – Como surgiu esta vontade de unir pessoas e as suas tradições?
Tiago Pereira– Como tudo, primeiro devagarinho e depois de repente. Com toda uma vivência e uma educação que me sensibilizou, coisa que só me apercebi mais tarde, para dar espaço à memória colectiva e à tradição oral.

"O piquenique está para além de quaisquer rótulos."

Fenther – Como correu o ano passado em Monforte da Beira?
Tiago Pereira– Foi um momento sem palavras, ninguém esperava aquilo e todos ficaram surpreendidos com a força que tinham juntos. De repente percebeu-se que as pessoas junta em comunhão e partilha era algo muito rico e único. Coisa que as pessoas se tinham esquecido.

Fenther – E agora Viana do Castelo. Porque?
Tiago Pereira– As coisas acontecem sempre primeiro por razões afectivas. A minha relação de infância no Minho, o facto de eu ter aprendido a nadar no rio Minho e ter amizades profundas aí, como a Josefina Bouças das Cantadeiras do Vale do Neiva. Depois porque o Minho é festivo, recebe bem, é altivo e alegre e tem muitas romarias. Uma particular que adoro, São João de Arga, tem uma história particular com o Pedro Homem de Melo e o Desiderio, grande bailador da Góta de Dem. Contava ele que em meados dos anos 70, já não se dançava e cantava porque sim na Romaria, havia discos pedidos que tinham ocupado esse espaço. O Pedro Homem de Melo deu 2000 escudos ao Desiderio e disse-lhe vais lá e pedes que não ponham discos nenhuns, até esse valor acabar. E assim foi, de repente tudo ficou em silêncio, mas depressa se aperceberam da marosca e opuseram discos outra vez, mas foi o suficiente para o padre escrever sobre o assunto no jornal de Caminha e mais tarde o São João de arga voltou ao que é hoje, muita gente a cantar e a dançar por que sim. O piquenique é isso.

"A MPAGDP quer nivelar a atenção que se dá à música em Portugal, acreditando que a música deve ser divulgada, fora da indústria, fora dos festivais, sem hierarquias e sem fronteiras."

Fenther – Tem todo o apoio necessário por parte da autarquia e comércio local?
Tiago Pereira– Acima de tudo um apoio de entendimento em que a autarquia apoia a comunicação do mesmo e faz a ponte entre as associações que queiram participar mais activamente no piquenique. Podendo vender produtos regionais, a gastronomia local.

Fenther – O que podemos esperar a nível criativo deste piquenique?
Tiago Pereira– A loucura, o Minho festivo. A ideia é criar um outro modelo social, que já existiu mas que as pessoas se esqueceram, em que a partilha, o convivo e a escuta são privilegiados. Esse modelo sempre existiu até há mais ou menos 50/60 anos atrás. Mas o advento da televisão e da rádio e das tecnologias fizeram as pessoas esquecerem-se. Aqui o que se propõe e que as pessoas se juntem e toquem o que quiserem. E o que daí resultar poderá ser de raiz tradicional ou não. O piquenique está para além de quaisquer rótulos.

Fenther – O convite…
Tiago Pereira– Vamos lá ver, uns dizem que é longe, outros pedem descontos na cp, outros ainda perguntam por alojamento. Até quando vão continuar a arranjar desculpas?
7 de Abril, Parque da cidade, Viana do Castelo. Quem não for, não terá nada para se lembrar. E a memória é a coisa mais importante da vida, sem ela não adianta ter dinheiro e nem existe amor. Já sabem, há coisas que só mesmo vividas.

Vitor Pinto



      geral@fenther.net       Ficha Técnica     Fenther © 2006