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A.A.A.
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Um princípio de tarde na Casa Rolão, um edifício do séc. XVIII, no centro da cidade de Braga, onde se situa a Livraria Centésima Página. A conversa com Miguel Pedro, baterista de Mão Morta e confesso apreciador de livros. O novo «No Fim Era o Frio» é o mote da conversa.

Fenther – Este disco começou por ser construído em módulos.
Miguel Pedro – A ideia dos módulos foi uma sugestão minha. Um pouco como nos sintetizadores modulares, em que podes ligar uns módulos a outros. Propus inicialmente, pedaços de música que pudessem ser ligados entre si. Imagina que uma determinada melodia, ou riff, ou ritmo, pudesse ser utilizado no módulo sete, e no dez. Havia esta ligação intermodular entre os vários temas. Esta foi a ideia subjacente à conceção do disco, um conceito musical. Este disco nasce primeiro como um disco conceptual musical, não de um conceito não-musical. O primeiro conceito musical é o de relação intermodular, poder utilizar várias parcelas, temas que funcional como módulos e cada módulo terá submodelos, um ritmo é um módulo de um tema. Isto exigia tanto que depois avançou para o Adolfo ir fazendo as letras, baseado neste conceito. O projeto é completamente assumido no primeiro módulo, em que vamos poder ouvir vários pedaços que irão acontecer ao longo do disco. Depois foi um bocadinho abandonado porque exigia trabalho muito grande, que as nossas vidas não permitem. Cada módulo acabou a ganhar alguma autonomia e tornando-se verdadeiras canções, umas aproximam-se mais desse formato, outras muito menos, mas a ideia dos módulos foi a primeira.

Fenther – Isso resulta do teu namoro com a eletrónica?
Miguel Pedro– A eletrónica aqui, até me serviu mais como forma de composição. Em alguns temas isso é muito assumido, nascem de coisas que faço na eletrónica, para serem usados em projetos paralelos, mas que depois acabei a utilizar em Mão Morta, O módulo quatro é quase totalmente eletrónico, o oito quase que nasce completamente da eletrónica. É de facto, mais no plano da composição, que monto várias partes da eletrónica no computador, é uma eletrónica muito digital, feita no computador, pouco analógica.

Fenther – Como que escrever as partituras, antes de executar?
Miguel Pedro– Um bocadinho, mas ali improviso mais, a partitura é quase só de momentos, de intensidades, não é uma partitura de notas, é mais gráfica.

Fenther – Como funciona o trabalho de composição?
Miguel Pedro– Neste disco assumi a grande fatia, compus nove dos onze módulos, e o Rafael dois. Depois vive dos arranjos, do Vasco, do Rafael, etc.

"Entrevista na integra relativa ao "Studio Report" da revista LOUD de Setembro, actualmente à venda."

Fenther – As guitarras de «Deflagram Clarões de Luz» soaram bem diferentes do que esperava para vocês.
Miguel Pedro– Quando componho, apresento praticamente o produto final. Faço as maquetas em casa. Mas este início, a ideia era uma só guitarra e um sintetizador. No estúdio, eu, o Rafael e o Ruca Lacerda, excelente guitarrista também, estávamos a brincar com esses riffzinhos e aquilo soava bem. Gravamos o disco no Stop, no Porto. Num domingo de manhã, em que o centro comercial estava deserto, fomos para o corredor, metemos os microfones lá e gravámos as guitarras lá, com o riff e o reverb natural de um centro comercial vazio.

Fenther – Usaste o Frederico para a masterização.
Miguel Pedro– Na minha opinião é das pessoas que melhor trabalha em masterização em Portugal e não só. Sou suspeito porque somos amigos, mas também tenho orelhas e sei ouvir. Faz um trabalho exímio, é o nosso masterizador sempre. Quando digo nosso, refiro todos os trabalhos que faço, que o Rafael faz, o Adolfo faz, mesmo que não seja Mão Morta, são masterizados pelo Frederico.

Fenther – Quantos projetos andam à volta de Mão Morta?
Miguel Pedro– São bastantes, mas isso é normal, andamos aqui há trinta e cinco anos. É natural que queiramos ter outras coisas, ainda hoje falava com o Rafael de para o ano fazer um projeto diferente. Mas isso não só não afeta Mão Morta, como também enriquece. Tudo que trabalhamos nesses projetos é muito experimental, exceção para Mundo Cão. Pego nas aprendizagens que faço aí e trago-as para Mão Morta. Este disco é um caso flagrante disso.

Fenther – Há dois Mão Morta, aqueles que embarcam em projetos e os que se poderia chamar mainstream, que escrevem discos com canções formais.
Miguel Pedro– Nós tendemos cada vez mais para os projetos, e menos para o mainstream expectável para Mão Morta. O «Horas de Matar», é um bocadinho mainstream, aquele rock pesado, a piscar o olho ao Metal, este último é muito experimental, com a Remix foi muito experimental também. É um bocadinho dialético quase à moda do Hegells, estamos sempre à procura da síntese perfeita e andamos ali entre a tese e a antítese. Fazemos a tese mainstream e antítese o projeto.

"Vamos tocar o disco na íntegra, depois fazemos um intervalo para as pessoas beberem um copo e voltamos com dez temas do reportório. "

Fenther – Há aí o projeto do bailado.
Miguel Pedro– Este disco, com o conceito dos módulos, começou a ser trabalhado e, entretanto, recebemos o convite do Rui Torrinha para o Guidance. Como temos vidas muito ocupadas, não temos hipótese de compor de propósito para o bailado, resolvemos aproveitar o que temos e compor para o bailado e o disco. Depois o disco teve um tratamento diferente. Este disco nasceu primeiro para bailado, com as composições todas feitas e depois veio o conceito do Adolfo, de uma realidade distópica em que se procura uma salvação numa sociedade alienígena que há de vir para nos salvar e que afinal veio para nos roubar a energia sexual. Isso já é o Adolfo a escrever, tudo construído a pensar na encenação do bailado. Fizemos quatro espectáculos, documentados em vídeo não com o propósito de editar, mas que vai ficar por aí, quem viu, viu, quem não viu que visse. Não estamos a contar que haja mais, sei que o Guidance quer repor para o ano, mas para já o que há foram as atuações de Guimarães, Aveiro, Castelo Branco e Guarda. Não fomos a Lisboa e ao Porto, havia interesse, mas, entretanto, meteu-se o disco e tornou-se prioritário, porque existem as gravações, as misturas.

Fenther – Como vão conciliar os temas deste disco com os do reportório habitual?
Miguel Pedro– Não somos uma banda de tocar muito, mas de fazer dez a quinze concertos por ano e também não dispomos de muita disponibilidade. 2020 vai ser um ano para andar a apresentar o disco. O concerto de apresentação vai ter duas partes, este disco tem de ser executado ao vivo como ouvido no Cd, os módulos estão ligados e tem de ser tocado de “seguideira”. Na íntegra significa cinquenta minutos. Vamos tocar o disco na íntegra, depois fazemos um intervalo para as pessoas beberem um copo e voltamos com dez temas do reportório.

Fenther – Mais tarde, terminam as apresentações e vão querer sempre incorporar temas com os outros.
Miguel Pedro– Ainda não pensamos no depois, há dois ou três módulos que funcionam autonomamente, do ponto de vista musical. Dão para aí uma canção de doze minutos, o cinco e o seis ou o sete e oito. Temos tocado do um ao quatro, ao vivo, que funciona muito bem. Havemos de ligar isso mais tarde. Vamos a uma terra onde o disco não foi tocado e será na íntegra.

Fenther – E os fãs gostarão do formato?
Miguel Pedro– Fã que é fã tem de ouvir assim.

Fenther – Como funcionou o trabalho posterior de composição, já que gravaram depois do Guidance.
Miguel Pedro– Tínhamos um prazo muito curto no Guidance, e houve bastante alteração em estúdio em termos de estrutura. O Vasco gravou as guitarras em casa no estúdio dele.

Fenther – No último concerto o Sapo não esteve presente…
Miguel Pedro– O Sapo continua, e o som dele é uma mais valia inconfundível, ele e a Joana são a pessoas mais low profile. O Ruca substitui-me cerca de cinco meses no último disco, tive de ser operado, agora o Sapo tem estado adoentado e fez a guitarra no Douro Rock e vai ficar temporariamente.

Fenther – O Semibreve é um festival de eletrónica, centrado em Braga e com dedo vosso. Como tem sido?
Miguel Pedro– Nós somos quatro, eu, Rafael, Luís Fernandes e o Tiago. A próxima é a nona edição, trabalhamos bem, o nome foi dado por mim, cada um na sua área, à terceira edição estava ganho. É um festival que meses antes já tem os passes esgotados, muitas vezes comprados sem as pessoas saberem o cartaz. Temos uma clientela fixa em que mais de metade dos passes é vendido fora do país.

Fenther – E encerramos no local de escolha para a entrevista, a Casa Rolão.
Miguel Pedro– Foi durante muitos anos sala de ensaio, em cima foi o nosso estúdio. Com o Nélson Carvalho, gravamos lá grande parte dos nossos discos, em particular o «Nus». Na altura não estava nada assim, estava a cair. Clã foi trabalhado aqui, também com o Nélson Carvalho. Centramos aqui grande parte das nossas reuniões, apresentamos livros e discos aqui, vendemos também os discos. Também está ligada ao Semibreve, a sede é aqui. É propriedade da família do Rafael que nos tem emprestado a casa. Além de que é uma livraria que eu adoro.

Emanuel Ferreira