Festival Para Gente Sentada em Braga

Festival Para Gente Sentada
16 e 17 de Novembro, Theatro Circo e GNRation, Braga

Há um momento, quase no final das duas horas de espectáculo, que o alemão Nils Frahm disserta sobre a simplicidade de «Says», e explica que nos cinco anos desde o seu lançamento tem tentado superar o seu sucesso e escrever algo superior, mas esta música como que se alimenta disso mesmo e cresce cada vez mais. O discurso poderia ser também sobre este concerto, excepcional, que ganhou uma outra dimensão pelo local em que decorreu, mas que teve sempre tanto de simples como de complexo e no fim desaguou em «Says». O monólogo serviu também para perceber o bom humor do músico e o ar aparentemente descontraído e simples com que se apresentou ao público, meias de riscas e um aspecto de saltimbanco, embora, como bom alemão, não descurando a água gaseificada ou, qual rock star, limpando o suor a uma toalha negra. Por trás de toda a maquinaria apresentada em palco, por onde Nils pulava ora disparando loops, ora minimizando cada tema até ao ecoar de uma nota solitária a desafiar o silêncio da sala, estava toda uma equipa de treze pessoas, um camião TIR e um trabalho que vinha já desde a manhã. Como referiu «Says» são apenas três notas executadas em ciclo, sobre as quais o compositor vai exercendo malabarismos musicais. Mas essa é a magia de Nils, pegar no simples e daí construir melodias complexas e mágicas.

O monólogo poderia também ser sobre o festival que neste fim-de-semana de Novembro assentou, mais uma vez, na cidade de Braga, tirando partido de duas excelentes salas, Theatro Circo e GNRation, e do centro histórico. Tudo começou por aí, nas ruas, no fim da tarde sexta, com West Coast Man, projecto musical de Pedro Costa. No entanto, era na sala centenária que residia o maior interesse do festival, desde logo com a sul-africana, a residir em Berlin, Alice Phoebe Lou. Quase sempre acompanhada por quatro músicos, a cantora e guitarrista, preferiu apresentar temas de um disco que virá em 2019, pois “não se sente próxima dos temas antes gravados”, por isso o concerto foi quase preenchido por inéditos ou temas antigos de uma fase em que era perfeita desconhecida e tocava pelas ruas. Mesmo assim houve tempo para «Nostalgia» ou para uma versão de «Hot Dreams» dos Timber Timbre, terminando com a inevitável «She» e Galaxies. Um concerto bonito, que começou com uma declaração de amor à sala que a intimidava e que resultou perfeito.

Marlon Williams dispensa apresentações, embora da Nova Zelândia, veste perfeitamente o papel de galã de Hollywood, num qualquer papel de cantor de bares, algures entre o folk e o country blues. Embora artista a solo, muito do concerto residiu na qualidade dos três músicos que o rodearam. Marlon começou ao piano, introspectivo com «Modern Love», mas ficou eléctrico e conversador quando em quarteto, aí até soube regressar ao primeiro disco a solo para visitar «Dark Chyld», falou do amor, afastou a paternidade, revelou-se um «Party Boy» e «Vampire Again», mas foi no encore que se tornou mais emocional, descolando de uma actuação que até aí tinha sido «apenas» correcta. A noite prosseguiu no GNRation, na Black Box, com Medeiros/Lucas e Filipe Sambado, mas com esta parte do festival menos conseguida que em anos anteriores.

Madrepaz trouxe a música à rua no final da tarde de sábado e uma Núria Graham de fato de treino chegou à frente de palco do Theatro Circo para explicar que toda a sua bagagem se tinha perdido e apenas possuía a roupa que tinha trazido. E mais não foi preciso pois revelou-se uma excelente comunicadora, revelando uma atitude em palco que certamente a levará a altos voos, desde logo porque soube estabelecer cumplicidade com o público, não ignorando que era por Nils que lá estavam e que também ela desejava ver o concerto dele. Terminou com a bonita «The Stable», depois de ter encantado os presentes. Sobre Nils já tudo foi dito, num concerto que inaugurou a digressão europeia e que se espera ter sido, para ele, melhor que o «festival à chuva» em que cá esteve.

A noite concluiu-se novamente no GNRation, embora com pouco público a assistir à performance de Ian, violinista que parece saída de um qualquer vídeo-clip e que deixou momentos interessantes, entre o pop e a electrónica, sempre conversadora, contando a sua vida e explicando os temas. Menos dialogantes vinham os Riding Panico, com os seis elementos a preferirem divertir-se com os seus temas instrumentais recheados de pormenores musicais, por vezes quase in jokes que só o colectivo entende, mas que resulta sempre bem a quem escuta. ☆


Fotos e texto: Emanuel Ferreira



      

Alice Phoebe Lou

    

    

    

    

    

    

    

    

Marlon Williams

    

    

    

    

    

Medeiro Lucas

    

    

    

    

Núria Graham

    

    

    

Nils Frahm

    

    

    

    

Ian

    

    

    

    

Riding Panico

    

    

    

    

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