Aftershow

Festival Super Bock Super Rock 2016

O Super Bock Super Rock voltou ao Parque da Nações, o sucesso do ano anterior apenas encorajou a nova morada do festival. E assim, perto de tudo o que é transportes, não demoraram a surgir longas filas, um mar de gente prestes a entrar no recinto junto ao Tejo.

No primeiro dia, os cabeças de cartaz foram The National e Disclosure, mas até que chegassem esses momentos da noite, muita música nacional e internacional esteve disponível. Um bom exemplo de música nacional é Benjamin, que do Palco Antena 3, e com as arcadas da MEO Arena repletas de gente sentada, fez com que todos cantassem O Quinito Foi Para A Guiné. Mas as pessoas por pouco tempo param, já havia quem se tivesse levantado e se dirigisse para o Palco EDP, não tardava que os irlandeses Villagers tivessem a sua hora de espectáculo. Infelizmente a sua sonoridade indie, que até uma harpa inclui, não cativou o público festivaleiro. Muitíssimo mais bem recebido foi Kurt Ville! O artista norte-americano que parece pertencer à mesma estirpe de Bob Dylan, o artista que pode mudar as guitarras mas encantou sempre. Do seu reportório, para começar, deu-nos Pretty Pimpin, Jesus Fever e Downbound Train. Já no interior da MEO Arena, começaram os muito aguardados The National, ao som de Don’t Swallow The Cap, com também I Should Live In Salt. Foi-nos proporcionada uma viagem pelos maiores êxitos da banda, e quando chegou a vez de Trouble Will Find Me, inúmeras vozes ecoaram pelo pavilhão. Foi a cereja no topo do bolo ter Matt Berninger a dizer “we love coming to Portugal”, e pela resposta comum, voltem sempre! Para encerrar a noite na MEO Arena, houve uma última actuação, Disclosure, que infelizmente tropeçaram numa falha técnica. Entre dar os parabéns ao público pelo seu título europeu, e temas dos seus últimos álbuns, “Caracal” e “Settle”, com os seus sintetizadores e computadores, tornaram o espaço numa discoteca.

No segundo dia, o cabeça de cartaz foi Iggy Pop, uma das grandes estrelas do rock que felizmente 2016 ainda não colheu. Contundo, o recinto do festival dava ares de estar substancialmente menos cheio. Dei início à noite logo na MEO Arena, em poucos minutos estariam a actuar os britânicos Bloc Party. Já não são exactamente a mesma banda, que outrora foi tão bem conhecida pelo seu tema Banquet. Não, esta é a banda que traz o álbum que lançaram este ano, “HYMNS”, que soam diferente, e que ainda está a encher o espaço para as bandas que se seguem. Já no Palco EDP, actuava Rhye, um artista caracterizado pelo seu género downtempo e soul. Foi de estranhar como um artista tão calmo, foi inserido no dia com mais rock de todo o festival. Cativou a ser apreciado sentado ou apenas de olhos fechados, não a furar entre a multidão para chegar à frente. Tal cenário foi, sim, proporcionado pelo aguardado Iggy Pop! Uma das figuras mais icónicas, que ainda temos, do rock, um artista que desde que pisou o palco, correu e saltou sem abrandar. Na abertura do concerto, o seu alinhamento teve No Fun, I Wanna Be Your Dog e Passenger, ou seja como quem diz, exibir o que tem de melhor. Mas há gerações e gerações, enquanto uns viviam o rock, outros enchiam o Palco EDP, que com Mac DeMarco estava de bom humor, num estado mental completamente diferente. Fazia piadas, tinha o seu guitarrista num vestido de mulher, e acima de tudo, tem talento com a sua guitarra. Numa bela noite de Verão, ouvir temas de ”Salad Days” ao ar livre… são momentos belos. E assim como num pestanejar, já a MEO Arena estava prestes a dar o seu último concerto do dia, Massive Attack & Young Fathers. Merece um enorme destaque acção de sensibilização que foi levada a cabo, o choradilho de notícias ocas, e depois notícias que verdadeiramente importam, o Brexit, vítimas de atentados… e uma mensagem, a dizer que estamos juntos. São duas bandas magníficas, e cujo trabalho em conjunto, é deveras especial, mas foi mesmo a sua tentativa de transmitirem que somos um colectivo que ficou.

Por fim chegou o dia mais esperado, o dia com mais bilhetes vendidos, o dia mais hip hop do que rock, um dos únicos quatro concertos de Kendrick Lamar na Europa. Para começar, e debaixo de um sol abrasador, o Palco Antena 3 albergava Slow J, que ao som de O Cliente, entretia uma vasta audiência que ocupava as escadarias da MEO Arena. Do outro lado do recinto, a norte-americana Kelela entreteu todos os que estavam no Palco EDP. Numa actuação com um certo quê de sensualidade, o seu R&B foi a alternativa ao estilo musical que imperava nesse dia. E quem estivesse por esses lados, terá certamente admirado como o panorama desse palco mudou radicalmente. O ambiente com os Fidlar tinha os ares de uma banda de garagem, com um fascínio enorme por um público novo e dedicado. Ainda não tinha visto nesse palco tantas pessoas a serem levantadas, e transportadas pelos braços da multidão. Os músicos queriam que essas pessoas ficassem no ar músicas inteiras, e os seguranças frente ao palco ficaram atolados com público que acabava lá na frente. Acredito que Fidlar vá voltar a Portugal, o dar e receber que aconteceu foi especial. Entretanto na MEO Arena, foi a vez dos portugueses Orelha Negra. Com cada um no seu canto do palco, sem nenhum dos músicos virados para si mesmos, funcionaram tal e qual uma máquina. Cada um dos músicos foi uma peça essencial, que quando em conjunto fizeram as delícias dos fãs. Além de temas mais conhecidos como Throwback, também tiveram a generosidade de interpretar temas que vão pertencer ao, ainda por lançar, terceiro álbum. Ainda no mesmo género musical, a MEO Arena esteve à mercê do trio nova-iorquino, De La Soul teve todos na palma da mão. Podendo muito bem ser apelidados de pais do hip hop actual, com a formação de apenas um DJ e dois MC’s, são mestres em domar multidões. Fosse com saltos ou a cantar o que os músicos pediam, era executado. Mas foi com o tema Feel Good Inc que o público mais reagiu, temas como Me, Myself and I e Ring Ring Ring não pertencem à memória da maior parte dos presentes. E o momento final, o derradeiro concerto, o chamariz dos festivaleiros, com a citação “Look both ways before you cross my mind” de George Clinton, surge em palco Kendrick Lamar. O que sucedeu a seguir, é melhor descrito como uma autêntica comunhão. Não foi o mesmo domínio do público como anteriormente, viu-se foi um constante incentivo para que fosse feito barulho, e em uníssono foi dado o que se pediu. Tanto que não tardou que Kendrick ficasse emocionado por tamanho carinho. Não foi apenas o facto de tantos cantarem os seus temas sem erros, foi por ter sido aclamado, reconheceu todos os presentes ao dizer “that’s love”. Bitch Don’t Kill My Vibe, m.A.A.d City, Alright, I Love Myself… todas músicas entoadas, que contribuíram para que Kendrick ficasse disposto a voltar a Portugal. Com a sua saída definitiva do palco, após o encore, a MEO Arena que estava cheia, começou a vazar, libertou os fãs saciados e houve ar fresco. É absurdo pensar que alguém ficou insatisfeito com a noite, apenas é de louvar a organização pelo cartaz.

Texto: Tobias de Almeida
Fotos:Ana Pereira


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