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After show

KALASHNIKOV – Portuguese Genocide Tour
PlanoB no Porto



Plano B, dois seguranças à entrada perguntam-me se levo alguma arma. Uma AK47 não, mas se a levasse com certeza não o diria.
Entro, desarmada, e já um público numeroso anseia pelo espectáculo. Não foi preciso esperar muito mais. Camuflados, os Kalashnikov, passaram tudo menos despercebidos, com o seu ar de guerrilheiros.



Logo no início, em projecção, uma montagem de imagens muito bem conseguida apresenta os membros da banda em locais cuja situação presente de guerra é de alerta vermelho. Aliás, muitas destas imagens são já conhecidas dos fãs, estando disponíveis no myspace da banda (www.myspace.com/kalashnikovarmy). A figura carismática do Jel não desilude e torna-se o centro das atenções, usando uns tiques linguísticos, como ele diz, assimilados nas localidades em conflito, onde impera um “fuckin’” entre cada palavra. Já aqui se subtrai uma crítica à global intervenção americana.
De entre a setlist, destacam-se os (já-)hits “Tienanmen Tienanmen”, “Peace Is Dead”, “Warriors Of The Hezbollah” e “One Love One Family”, conhecidos e repetidos por um público efusivo. A meio do concerto, o roadie da banda, Arafat Marafat, aniversariante e “único bombista-suicida vivo”, é chamado ao palco e, com a melodia de “Happy Birthday”, toda a gente canta «Uma morte feliz, uma morte feliz…».
No fim, até o Jel se juntou ao mosh e outros membros da banda foram (e)levados em crowd-surf.



A música dos Kalashnikov situa-se num heavy-metal suportável ou, como se lê on-line, “wartime rock’n’roll”. Mas atrevo-me a dizer que o seu valor está no significado das letras e na imagem, e não tanto no seu poder instrumental.
Observando a plateia em êxtase, pergunto-me quantos saberão o significado daquilo que entoam em coro: “Tienanmen Tienanmen kill another yellow man”. Pergunto-me se conhecerão essa praça. Se terão ouvido falar da revolta estudantil de 1989. Se estarão a reparar nas imagens chocantes que passam atrás da banda. Pergunto-me se não estarei a ser demasiado crítica. Talvez esteja, ou talvez não, pois quando o Jel anuncia o “fuckin’ hino da guerra” e as guitarras tocam o hino americano, não são muitos os que reagem à ironia.
Talvez, como o próprio Jel referiu em tom de gozo, nós ainda precisemos de ser educados para a guerra; neste caso, para a consciencialização da guerra, lembrando-nos da ainda-não-distante guerra do Ultramar.



Os Kalashnikov são uma banda de entretenimento e temos que levar com leveza a sua música e divertirmo-nos nos concertos. No entanto, eles são mais que isso: são uma inteligente crítica ao imperialismo americano, ao extremismo árabe, ao autoritarismo asiático; ou seja, há uma parte que tem de ser encarada de forma séria.
O melhor será, e julgo que seja essa a intenção de todo o projecto, encarar com ironia e sarcasmo um assunto sério, sem nunca descurar uma realidade feia, tomando consciência e conhecimento de assuntos bélicos, políticos, económicos, quer da actualidade, quer pertencentes a um passado histórico.

Deixo os meus parabéns aos membros da banda (Cobra, Duro, Rambo, Bruxa, Bazuca) e a todos os envolvidos, pela criação de uma iniciativa onde a música funciona como meio para a demonstração de uma realidade tumultuosa, através do riso.
De salientar, também, a qualidade da colectânea de imagens que nos apresentam um passado recente (e mesmo presente) de confrontos violentos, e cuja recolha parece ter sido exaustiva e (positivamente!) selectiva.
O conselho é: divertirmo-nos com Kalashnikov, tendo noção do verdadeiro significado das palavras de ordem gritadas.

Para mais informações, recomenda-se a visita ao site da banda: www.myspace.com/kalashnikovarmy

Texto e Fotos: Joana Soares



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