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After show

Noites Ritual 2009



ESTAS NOITES SÃO NOITES DE CRISTAL

Dezoito anos depois da sua primeira edição, as Noites Ritual regressam ao Palácio de Cristal, envolto desta vez em tema polémico devido à intenção camarária de destruir o lago e parte dos jardins para a construção de um centro de congressos, motivo de contestação por grande parte das bandas. Manel Cruz não se cansará de falar no "laguinho", Miguel Guedes na insurgência dos habitantes da cidade em actuarem em prol dos jardins e Adolfo Luxúria Canibal, num discurso bem preparado, irá fazer uma resenha histórica desde o tempo do Pavilhão de Cristal, barbamente destruído para a construção do actual e inestético Pavilhão Rosa Mota.

O festival estreia-se à hora marcada com o rock-blues solitário de Steve França, músico que encarna a One Man Hand, e que nos leva desde a tranquila Concha Acústica até ao calor sufocante de Louisiana. "One Reason" é disparada, a guitarra solta-se e a harmónica entra em campo. "Stop (I Want to Get High)" desafia a consumos proibitivos, "We Are All in the Same Boat" incita à revolução e já a encerrar "On a Way To...", com a participação de Xinas no contra-baixo. O público aplaudiu generoso e dançou entusiasta até ao fim.

A estreia do palco principal ficou a cargo do multifacetado Manel Cruz e do seu mais recente projecto Foge Foge Bandido. No público, muitos rostos jovens, sem idade para terem alguma vez assistido às famosas actuações de Ornatos Violeta, banda que já ascendeu ao título de mítica na cidade do Porto. E não tendo visto Ornatos, os jovens acorrem a ver o seu idolatrado porta-voz.
É-nos apresentada uma versão calma do disco-livro O Amor Dá-me Tesão/Não Fui Eu Que Estraguei, melodias ternas sobre o amor, a perda, sobre o desejo de encontrar aquele que se ama.
A dada altura Manel suspira "Ouvi dizer que vão acabar com o laguinho, é tão bonito este laguinho". Ao que o público sabiamente responde, "Bandidos!". Ouve-se "Canal Zero", "Acorda Mulher" e a terminar "Tirem o Macaco da Prisão", com o importante apontamento da parte do vocalista, "Não sei se já falei no laguinho".

Noiserv é o projecto de David Santos e no Palácio apresenta-nos o seu prometedor disco de estreia, One Hundred Miles From Thoughtlessness. "Tokyo Girl" é a inquietude em forma de palavras sussurradas, é o início de algo belo, de um concerto intimista que passa demasiado rápido. "Bullets on Parade" vai buscar o nome ao original de Rage Against the Machine, mas só o nome pois esta canção apresenta um ritmo diametralmente oposto, ditado pelo suave tilintar do metalofone e do rebobinar de uma máquina fotográfica, sons que são gravados e repetidos incessantemente. Numa bem construída sobreposição de sons, "Consolation Prize" surge de forma simples e arrebatadora, e inesperadamente chega o último tema, "Bontempi", que David explica ser "o nome do teclado que estou a tocar". As músicas são desenhadas também na tela, Diana Mascarenhas encarrega-se do cenário ilustrado, que vai desenhando ao longo das canções. Noiserv é David Santos, é também banda-sonora para paixões delicadas, e é mais do que tudo uma das recentes revelações da música portuguesa e merece palcos grandes e públicos dispostos a ouvir e a compreender que a música também se sente no frágil ritmo do coração.

Já no palco principal, Tó Trips e Pedro Gonçalves estão sentados ao centro, um voltado para o outro, numa sábia intimidade de músicos experientes. Se por um lado se ouvem notas que remetem ao fado, por outro ouve-se música que emana uma onda de calor de wertern norte-americano. Ouvir Dead Combo é, antes de mais, uma experiência visual. Guitarras vadias, noites quentes, solidão errante coberta de pó, numa bela mistura de acordes crus que evocam um silencioso deserto polvilhado de cactos. O concerto centrou-se numa clara apresentação do seu mais recente álbum, Lusitânia Playboys, sendo os temas "Rodada" e "Like a Drug", dois dos pontos altos da actuação.

Depois da banda-sonora crua e penetrante oferecida por Dead Combo, na Concha ouve-se electro-disco-house visual. Peltzer oferece-nos os temas do seu EP de estreia, "Outdated". O projecto é original na medida em que recorre a instrumentos virtuais que interagem com o corpo. Ouve-se a melódica "Motion", "Black RGB", "Superstart", "Sugar & Meals" e já a encerrar "A Story to Tell Me".

Todo o entusiasmo (e público) da noite estava guardado para Deolinda, a banda-sensação do fado-pop. As guitarras estão lá mas não são clássicas, a voz é bem colocada mas não original, os temas sucedem-se mas não são empolgantes. Deolinda vive do efémero mas também da repetição (e com ela surge a incómoda sensação de déjà vu), as introduções às músicas apesar de nalguns casos bastante originais, noutros revelam-se um tanto ou quanto desalmadas. Mas o segredo do sucesso depende também bastante da boa-disposição de Ana Bacalhau, que "canta a tristeza rindo". Entre "Eu Não Sei Falar de Amor" e "Lisboa Não É A Cidade Perfeita" ouvimos a história da "menina mais bonita da sua aldeia, tão bonita, tão bonita, que em dia de procissão vai no andar em lugar da santa". "Fon-fon-fon" e "Movimento Perpétuo Associativo" são os temas que mais entusiasmam o público mas o ponto alto da noite encontra-se na bela composição "O Fado Não É Mau", Ana encanta e a sua voz canta o fado vadio a doer.



A noite do segundo dia arrancou com a suave pop electrónica de Hot Pink Abuse, um trio composto por Miss Tish na glamourosa voz, Vítor Moreira no piano e sintetizadores e Geraldo Eanes no baixo e programações. Em digressão, no Palácio apresentam-nos "No One Blames You" do seu álbum de estreia "Nowadays". Com "Marie Antoinette" e "Hit Me And Run" terminam a sua actuação na Concha Acústica.

Os Pontos Negros são rock em estado adolescente e "Magnífico Material Inútil" a sua arma para crescer. Com o tema homónimo arrancam o entusiasmo do público e, já acompanhados com palmas, desfilam os temas que compõem o seu álbum de estreia. Numa saudável imaturidade.

Se do rock viemos, então nos rock nos manteremos com o simpático Paul da Silva. Nascido em Londres é contudo em Portugal que vive os primeiros anos. Mas será na capital inglesa que tem o seu primeiro contacto com a guitarra, instrumento que elege como principal meio de expressão. Esse, e a sua voz. "Intro" e "One Bullet Left" apresentam-no ao público que escuta com atenção na relva. A actuação prossegue com "Life Support", "Death in the Afternoon", "Dead Tongue" e a terminar "News" e a épica "Man Among Giants".

Pouco haverá para escrever sobre os Blind Zero. Se o grunge já não está tanto presente, deu lugar contudo a um rock desprovido, maduro, competente. A cumplicidade sente-se, entre os músicos e entre eles e o público. Desta vez é com "Luna Park" que sobem ao palco, o seu último disco, bem longe do concerto inicial nas Noites Rituais, onze anos antes. "Se há festival que nós recordamos na alma, é este, nós viemos cá tocar à onze anos" e uns instantes depois, já menos saudoso e mais interventivo, "Como bem devem saber, há quem queira privatizar isto, eu não sei, acho que todos nós devíamos pelo menos pensar duas vezes nisso." E a música seguinte foi dedicada às árvores.

Já sem os seus Mesa, João Pedro Coimbra sobe à Concha Acústica como Andrew Thorn e "Brutes On The Quiet" é o novo projecto musical, desta vez a solo e electro. Em palco encarrega-se da voz e teclados e a acompanhá-lo estão Jorge Queijo na bateria, Miguel Ramos no baixo e Jorge Coelho na guitarra. Os teclados estão quase sempre lá, a marcar o ritmo de forma controlada, desprovida.

Estar numa sala fechada às escuras e sentir um arrepio no corpo antevendo um terramoto. Vertigem passageira, tontura que se imiscui devagar e sobe pelo corpo acima, numa impotente claustrofobia. Esta é a sensação sempre que no silêncio e sem luzes os Mão Morta entram em palco, é algo forte, desmesurado perante a iminência de toda a energia que daí advirá. E os acordes começam, a energia regressa mais uma vez ao Palácio. "Aum", "Budapeste", "As Tetas da Alienação". Alternando temas de início de carreira com alguns mais recentes. Nova tirada, "E Se Depois", "Tu disseste", "Bófia". Adolfo Luxúria Canibal cospe as palavras e sentimos o seu e o nosso sangue a revolver quando grita "Merda, merda, só merda em directo para a televisão". Uma hora depois somos ainda presenteados com um estonteante encore. De rajada, "Chabala", "Charles Manson" e "Anarquista Duval", naquele que foi um dos finais mais apoteóticos das Noites Rituais.

Texto: Ana Cancela
Fotos: Daniel Bento



NOITES RITUAL 09

Isto não é uma crítica musical. É apenas um relato – sim, um relato de um jovem espectador presente por entre o público das Noites Ritual Rock 2009, nos jardins do Palácio de Cristal, na Cidade do Porto.


28AGOSTO
21H30 ONE MAN HAND

Chego ao ‘Palácio’ no momento em que começa a primeira banda. Aliás, a primeira one-man-band, no palco secundário. No caminho, reparo que há já bastante público espalhado pelos jardins. A entrada-livre justifica-o. Desde os conhecidos gunas da Invicta, aos putos indies de Paredes de Coura, passando pela socialite da nova movida portuense, pela clientela habitual do Piolho e pelos trintões e quarentões que se lembram da primeira edição deste festival, chego ao palco onde está Steve Rego França com os seus óculos de aviador. Embora odeie comparações musicais, a verdade é que para fazer compreender o que aconteceu em cima do palco, preciso de usar uma. Imagine-se um Legendary Tiger Man com menos charme, menos pose e menos versatilidade [musical e letrista], et voilá, temos o que é One Man Hand! Os espectáculos do Tiger são conhecidos também pelos convidados, e Steve R. França trouxe-nos o contrabaixista Filipe Xinas, dos Country Dust e The Chargers, para tocar com ele a última música. Xinas não pareceu convencer a audiência com as suas habilidades, nem quando se equilibrou em cima do contrabaixo. Esperemos que o Pedro Gonçalves [Dead Combo], que pegou no seu contrabaixo mais tarde, não tenha vislumbrado a cena [herética]! À parte tudo o que de negativo escrevi, os pés não evitavam bater ao ritmo do bombo da bateria e, apesar de toda a gente estar sentada [o espaço convida a isso], uma personagem deliciava-se aos saltos e em gesticulações, ao som de One Man Hand.

http://www.myspace.com/onemanhand


22h00 FOGE FOGE BANDIDO

Embora o concerto tivesse sabido a pouco – nem 40 minutos foram – e não chegasse aos calcanhares do espectáculo no Sá da Bandeira, Manel Cruz, com Eduardo Silva, Nuno Mendes, Brendam Hemsworth e Alfredo Teixeira, mostrou um Bandido mais forte que Paredes de Coura, o que me parece ideal neste tipo de concertos ao vivo. FFB é um projecto intimista, que pede uma sala pequena e, se possível, cadeiras. Mas o que não resultou em PdC, resultou bastante melhor nas Noites Ritual – claro que o facto de já ser noite contribuiu para isso. Assistiu-se a um concerto mais rock e menos experimental, com mais canções e menos “sons estranhos”. Por entre as músicas, não podiam deixar de se ouvir os protestos irónicos do Manel sobre o “laguinho dos patos”, que a Câmara do Porto quer retirar aos seus habitantes – projecto de privatização dos jardins do Palácio de Cristal, para construir um centro de congressos, tema que foi novamente levantado pelos Blind Zero e Mão Morta, na noite seguinte.
De salientar, a música “Acorda Mulher”, com um momento em que todos os músicos pareciam estátuas [pelo menos, através da panorâmica que se viu nos ecrãs laterais], enquanto um céu estrelado, em movimento, iluminava o palco. Bonito de se ver e ouvir, depois, o Manel cantar/dizer «estive há dez minutos atrás da varanda do meu quinto andar, a observar a cúpula invisível entre o céu e o enorme lego de betão e a sentir-me um inquilino passageiro desta pensão de uma estrela perdida na imensa cidade negra a que damos o nome de universo», de “Ainda Pode Descer”. No público, como é habitual em todos os projectos do Manel Cruz, uns gostaram, outros odiaram. Entre os fãs, sabe-se que não foi o melhor.

http://www.fogefogebandido.com


22h40 NOISERV

De volta ao segundo palco. Noiserv, ou David Santos, espera o público que chega do concerto de FFB no palco principal. Outra one-man-band, mas num registo completamente diferente de One Man Hand. Noiserv traz sons que parecem saídos de uma caixinha de música [através de um metalofone, ou de uma melódica, entre outros]. Para quem já ouviu o seu álbum de estreia, “One Hundred Miles From Thoughtlessness” – que ele próprio não se cansou de citar –, o concerto foi muito semelhante ao que é ouvir o disco ou as músicas no myspace, já que muitos dos sons são pré-gravados. Mas desenganem-se os cépticos, porque há muito trabalho feito em palco!
Por detrás de David Santos iam surgindo ainda uns desenhos feitos pela sua prima, que se iam apagando e refazendo, como umas deliciosas nuvens penduradas por molas numa corda de estender a roupa. Noiserv foi talvez o que de melhor passou naquele palco. Embora não tenha sido nada do outro mundo, soube bem estar sentado ao som das suas cançonetas melodiosas.

http://www.myspace.com/noiserv


23h15 DEAD COMBO

Não tenho receio de dizer que Dead Combo proporcionou o melhor concerto desta edição das Noites Ritual, mesmo completamente fora do seu contexto e para um público, descrito acertadamente por alguém, como «gente a mais e poucos os que queriam ver os concertos».
Mesmo assim, quando Tó Trips anuncia que vão tocar “O Assobio (Canção do Avô)”, inspirada no assobio de Vasco Santana, no filme “Pátio das Cantigas” (1942), ouvem-se vários comentários no público, tal como «esta música é do c*r*lh*!» [perdoem-me o meu francês]. O ideal teria sido que todo o público se sentasse. Mas, mesmo tal não tendo acontecido, os Dead Combo conseguiram animar o ambiente com uma versão-restaurante-chinês [palavras de Tó Trips] de “Like a Drug” (Queens of the Stone Age); com a sempre estonteante “Eléctrica Cadente” [embora com uma pequena escorregadela logo ao início]; com a sensação de chicotadas que Tó Trips criava com a sua guitarra [como o grande final de “Mr. Eastwood”]; com a luta entre dois marinheiros e dois músicos de jazz, que Pedro Gonçalves começou, acendendo, com grande estilo, um cigarro, que manteve nos lábios até ao final da canção, e que Tó Trips tocou com um prato de bateria sobre as cordas da guitarra; com uma cruzeta que servia de antena a uma velha televisão e com a qual Pedro Gonçalves fez soltar “aaah”s de espanto, através do jogo da sua mão com as ondas sonoras; com o grande final [já conhecido dos fãs], presenteando “Temptation”, de Tom Waits, com Tó Trips a tocar guitarra com uma maraca e Pedro Gonçalves a tocar contrabaixo com uns sininhos agarrados ao pulso e cumprindo a voz de Waits com um kazzoo. Pena não termos a presença de um dos convidados [de honra!] do seu último disco, “Lusitânia Playboys”, Kid Congo Powers [The Cramps, Gun Club e Nick Cave and The Bad Seeds].

http://www.deadcombo.net


00h15 PELTZER

No palco secundário, já se começava a sentir a chegada da noite-noite, com a electrónica thomarense de Peltzer, «one-man-digital-band», que se fez acompanhar por um baixista e um vj, Homem Bala. O primeiro português a dar um concerto no Second Life, contabilizando já mais de 300 concertos na vida virtual, apresentou-se com as suas máquinas, com as quais diz manter uma relação de amor-ódio.
Mais outra banda descontextualizada – Peltzer deveria talvez ter sido enquadrado no pós-Noites Ritual [no 75º Synergy], no bar Pitch, juntamente com os U-clic, também thomarenses e que, curiosamente, partilham os mesmos designers gráficos [facilmente observado pelas imagens projectadas], bem como o produtor Miguel Urbano [URB], que está a produzir o novo EP de Peltzer, “Outdated”.
O projecto não funcionou particularmente bem ali [não consigo dizer se por culpa do próprio projecto ou do espaço e do público], mas dá vontade de espreitar num barzinho o verdadeiro single que é “Sugar and Meals”, que faz parte dos “Novos Talentos Fnac 2009”.

http://www.myspace.com/peltzerr


00H40 DEOLINDA

Os monitores de palco estavam decorados com rendinhas brancas, quando os Deolinda entraram, percebendo-se logo que a maioria dos presentes nos jardins [nunca vistos tão cheios] estavam lá para ouvir o Fon-Fon-Fon. Os Deolinda passaram pelo seu álbum [“Canção ao Lado”] todo e repetiram mesmo “Fon-Fon-Fon” no encore [de prever, diga-se]. O público acompanhou as letras todas, especialmente quando Ana Bacalhau lhe dava a voz, ouvindo-se em uníssono «beijinhos na boca, arrepios no peito» ou «que se lixe o romantismo». Não há dúvida que foi um concerto animado – isso era óbvio ao ver tanta gente a dançar, mesmo os que tinham a vista fora do alcance do palco. No entanto, houve conversa a mais. A cantora dos Deolinda explicava a história da letra de cada canção antes de a cantar. Para além de o texto ser obviamente decorado e forçadamente teatralizado, Ana Bacalhau parecia esquecer-se que canta em português e que toda a gente presente entendia as letras, sem precisar de tradução. Como alguém comentou, parecia o «concerto da festa Panda». Claramente exagerado, mas o tom da conversa dos Deolinda parecia mesmo dirigido a crianças. Houve quem gostasse. Eu não gostei. E isso influenciou todo o concerto, já que depois da conversa, eu perdia a vontade de ouvir as músicas. E eu até gosto dos Deolinda.

http://www.deolinda.com.pt




29AGOSTO
21H30 HOT PINK ABUSE

Este grupo portuense, formado por Vítor J. Moreira, Geraldo Eanes e Miss Tish, na voz, diz ter um som electro-pop. E, de facto, as influências notam-se. No entanto, falta-lhes muito para chegar à verdadeira postura electro-pop. O som parece um pouco medíocre [facto a que, infelizmente, já estamos habituados no panorama da música portuguesa]. E a pose da vocalista – essencial neste estilo e, principalmente, numa banda que salienta, na sua descrição, a sensualidade da cantora – como dizia, a pose deixa muito a desejar. Olhando à nossa volta, não é preciso ir muito longe: basta pensar numa das mais recentes bandas desta onda, os ingleses Chew Lips, que, estando longe do genial, se mostram muito mais interessantes e glamorosos que Hot Pink Abuse. É de salientar, no entanto, a capacidade dos HPA conseguirem algo, que se encontra entre os principais objectivos do electro-pop: criar canções que não descolam. “Hit Me And Run”, última apresentada nas Noites Ritual, embora me soe extremamente irritante, fica na cabeça de imediato, ao fim da segunda audição. Só não sei se por mérito, ou por, precisamente, ser uma repetição do que já se fez.

http://www.myspace.com/hotpinkabuse


22H PONTOS NEGROS

Confesso que ia já com o pé atrás para ver os Pontos Negros e parece-me mesmo que a única coisa que disseram de jeito foi cantar qualquer coisa sobre a perversidade do calor, porque estava mesmo um calor insuportável.
Vá, não lhes vou retirar o mérito todo! Têm o seu charmezinho [as meninas adoram] e têm canções que chegam às pessoas [à minha volta, muitos cantavam as letras]. Mas do charme que as meninas gostam, eu não gostei – as poses demasiado forçadas à-la-músicos-de-rock. E das letras, nem me falem – podem ter algumas saídas com piada, mas... «Ele velejava no Verão e esquiava, no Inverno / Ela trabalhava ao balcão de um qualquer estabelecimento moderno»?! Quero acreditar que muito daquilo é propositadamente mau [como nos filmes de Tarantino, inspirados em b- e trash-movies]. Dou-lhes o benefício da dúvida.
Mas, lamento, Úria, realmente, deve haver «qualquer coisa tragicamente errada» em mim!...

http://www.myspace.com/ospontosnegros


22H45 PAUL DA SILVA

A caminho do palco secundário, passa-se por filas de góticos sentados no chão. Esperam Mão Morta, a última banda a actuar nas Noites Ritual.
Entretanto, em concerto, o português-londrino faz-me lembrar Bryan Adams demais para o meu gosto. A ideia de agradar a todos talvez tenha sido alcançada pela organização, porque umas meninas lá estavam em pé a dançar. Mas as calças de ganga roçadas, a camisola justa, a voz rouca-às-vezes e o sotaque americano não me convenceram. Não sei se é exigência a mais da minha parte, ou se até ali a música soube a pouco, neste dia do festival. Mas se as meninas dançam, isso é que interessa, no fundo. Não nos coloquemos em posições elitistas! [Embora não consiga deixar de referir o episódio em que Paul da Silva começa a cantar com um megafone e desce do palco – parece que se vem juntar ao público em jeito de líder revolucionário – mas não passa das grades amarelas. Sinceramente, não compreendi muito bem a necessidade daquela cena, já que as pessoas estavam bastante afastadas das grades e quase todas sentadas. Tendo ainda em conta que o palco é bastante pequeno e as grades estão apenas a dois metros, aquele tornou-se num episódio ridículo. Mas, vá, as meninas aplaudem.]

http://www.myspace.com/pauldasilvamusic


23H15 BLIND ZERO

Entretanto, no palco principal, começam os Blind Zero. Não se pode negar que têm já um certo estatuto na música portuguesa. Mas podemos chamar ao que eles fazem “música portuguesa”? Nem sequer ponho aqui em questão as letras das músicas, porque a discussão sobre se as bandas portuguesas devem ou não cantar em português é já outra. [Mérito deixo aos Pontos Negros que, ao menos, escrevem em português!] Mas Miguel Guedes, de algumas das vezes que se dirige ao público, fá-lo através de expressões em inglês. Porquê? Perguntas de retórica à parte, ainda se ouviu falar português, quando os Blind Zero relembraram a sua última passagem pelas Noites Ritual, há 11 anos, e se levantou, de novo, a questão da privatização parcial dos jardins do [ex-]Palácio de Cristal.
O concerto teve menos de uma hora de duração, período em que os Blind Zero aproveitaram para apresentar duas músicas do novo álbum, “Luna Park”, que ainda não se encontra nas lojas: uma foi em première e a outra, “Slow Time Love”, já se ouve nas rádios. Por detrás da banda iluminaram-se as letras LUNA PARK e uma roda gigante, de parque de diversões, improvisada, ao estilo do seu site. Os Blind Zero passaram mais pela sua onda “Shine On”, do que pela sua época à-la-Pearl-Jam [também... com oito álbuns!...], e apresentaram ainda um “Where Is My Mind?”, original dos Pixies, muito convencional. Houve ainda tempo pela passagem por um som mais rock’n’roll. Depois do que até então se tinha ouvido nessa noite, foi bem reconfortante.

http://blindzero.net


00H10 ANDREW THORN

O último concerto do palco secundário pedia saltos e danças, no seu sonzinho electro-pop [este, sim!, melhor que HPA, ainda que com mais elementos rock], mas só uma pequena orla no meio do público estava em pé a abanar o corpinho. Naquele mini-anfiteatro natural estava-se bem era sentado.
Andrew Thorn [ou João Pedro Coimbra (voz e teclas), com Jorge Coelho (guitarra), Miguel Ramos (baixo) e Jorge Queijo (bateria) – uns veteranos] é um projecto centrado em J.P. Coimbra, mentor dos Mesa. Não há dúvida que os Andrew Thorn procuram fazer um bom trabalho, ao ligarem-se à distribuidora Esther Creative Group, de Tom Sarig [manager de Lou Reed, Cake, Rickie Lee Jones, Le Tigre, Blonde Redhead] e ao designer gráfico James Marsh [Talk-Talk, Jamiroquai, Salman Rushdie, Time Magazine].
Mas já não sei se é o meu humor ou se, realmente, a segunda noite do festival estava a correr um pouco mal, musicalmente falando. Não é que a música não fosse animada, nem minimamente interessante, mas... céus!, queremos mais! Estamos fartos do minimamente e do não-é-mau!
Queremos um isto-é-bom sem dúvidas, queremos que a música mexa cá dentro, queremos que vibre verdadeiramente, qualquer que seja o seu estilo.
Adiante! Alheio ao meu juízo, J.P. Coimbra fazia a festa toda e até foi bom vê-lo completamente liberto à frente do palco, a divertir-se “à grande e à francesa”, sem mostrar preocupação com o público sentado.

http://www.myspace.com/andrewthorn


00H40 MÃO MORTA

“AUM”. Camisa vermelha, nevoeiro, uma dose de desprezo, «quem vem do cemitério pela rua do antigo teatro, chegando ao largo onde estão as ruínas da igreja dos jesuítas, vira à direita, para a rua da estação do caminho de ferro». Os Mão Morta surgem em palco, mas, por muito democráticos que sejamos, os olhos estão postos na figura de Adolfo Luxúria Canibal. Ao fim de uns largos minutos de direcções [ver letra de “AUM”], começa o rock’n’roll com a famosa “Budapeste”, que leva o público a um sentimento de «gáudio» [cito]. Sem mais música, Adolfo começa, muito calmamente, com a sua voz [que, negra, se torna sensual], a contar a história do Palácio de Cristal, construído no século XIX, e como foi destruído na década de 50 do século XX, devido a um campeonato de hóquei em patins – num tom irónico delicioso! De repente, as guitarras começam “As Tetas da Alienação”. Afinal, «tudo assenta no consumo e produção». E, logo a seguir, no mesmo tom de voz, o vocalista dos Mão Morta continua a sua história [por um caminho que já se previa], sobre a privatização dos nossos [os vossos!, como disse] jardins. A crítica à sociedade moderna continua, com “Em Directo (Para a Televisão)”, sendo a TV apresentada como o único lugar onde «nunca damos, só levamos». Ao meu lado, alguém comenta «mas eu vejo coisas fixes na TV!». Bem verdade. Não sejamos tão radicais, senhores Morta; ainda creio na minha força de vontade!
Em palco, Adolfo dança à Ian Curtis e parece mesmo ter ataques epilépticos em pé. E o público aplaude e canta em coro «Solidão! Saudade!». Mas percebe-se logo que muitos dos presentes não têm ouvidos [nem paciência] para Mão Morta. «Tive uma ideia, tive uma ideia, vamos fugir.» E alguns fogem mesmo.
No encore, ouve-se “Chabala”, para dar azo à nossa perversidade, diz o vocalista e um dos fundadores da banda de Braga. Mas, logo depois, surge de novo o combate com “Charles Manson” e a ironia: «Vamos todos para a revolução / Fazer a festa de cocktail na mão». Para finalizar, “Anarquista Duval”, de novo para gáudio de muitos.
Esperava mais, Sr. Adolfo, digo-lhe já. Sei que não tem que dar mais. Mas, vá, tenho 20 anos e espero sempre mais.

http://www.mao-morta.org


NOTA FINAL

Para além da música, a 18ª edição das Noites Ritual teve outras actividades como a exposição fotográfica “Palcos & Bastidores”, a projecção da primeira série do programa de Bruno Aleixo e uma feira [ridiculamente pequena] alternativa. De parabéns fica a organização, que conseguiu encher os jardins, agradar a muitos e, através da existência dos dois palcos, nunca deixar a música parar.

http://www.noitesritual.com


Para os interessados na luta contra a construção do centro de congressos na zona do lago, no Palácio de Cristal, fica o link: http://defesadopalacio.pegada.net


texto: j.
fotografias: Sara Costa

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