Lula Pena - Teatro de Vila Real – 01-12-2017

Lula Pena é uma das mais misteriosas figuras a surgir no panorama musical português.

Ser dona de um timbre grave e raro, aliado a uma forma peculiar de se fazer acompanhar à guitarra, faz dela um caso único na música nacional. Os seus concertos em Portugal são raros, o que torna cada um deles numa experiência absolutamente imperdível.

No passado dia 1 de Dezembro subiu ao pequeno auditório do Teatro de Vila Real para fazer as delícias dos presentes.

A forma delicada e esguia da cantora surge logo após o encerramento de portas e luzes, e o convite a uma “viagem sonora” pelo seu “Archivo Pittoresco” fica feito.

Senhora de poucas palavras (apenas falou no início e no fim do concerto), atirou-se ao repertório do seu terceiro álbum durante cerca de uma hora sem interrupções.

O início da viagem dá-se com “Rose” de Ederaldo Gentil e Nelson Rufino, um dos temas cantados em língua portuguesa. A barreira da língua não parece ser um entrave para Lula Pena, uma vez que durante a sua apresentação foram vários os temas cantados em outros idiomas, do francês e inglês ao espanhol até ao grego e ao sardo (língua falada na Sardenha). Mais à frente no espectáculo, a cantora voltaria ao repertório do brasileiro Ederaldo Gentil com a interpretação sublime do clássico “O ouro e a madeira”.

A viagem faz também uma paragem no Chile e no repertório de Violeta Parra com a interpretação soberba de “Ausencia”. Em seguida visita-se a Grécia de Manos Hadjidakis e Maro Kontou (“Pes mou mia lexi” teve honras de single de apresentação do terceiro álbum, “Archivo Pittoresco”) e a Sardenha de Salvatore Sini e Giuseppe Rachel (o belíssimo poema “A Diosa” de Sini, musicado por Rachel ficou conhecido como “No potho reposare”).

Neste seu terceiro álbum, Lula Pena também se aventurou pelos caminhos da composição (à semelhança do anterior, “Troubadour”). Musicou o poeta belga surrealista Louis Scutenaire, a luso-belga Bénédicte Houart (“Deus é grande” é um dos momentos altos de “Archivo Pittoresco”), o poeta experimental Ronald Augusto (“Pesadelo da História” também conhecido por “O negro que sou”) e ainda a ensaísta brasileira Jerusa Pires Ferreira. Aliás, o concerto termina com o “Breviário” de Jerusa Pires Ferreira. E ficamos com a sensação que Lula Pena saiu de um estado de transe e emoção para se juntar aos comuns mortais.

Terminada a apresentação de “Archivo Pittoresco”, a cantora foi muito aplaudida e decide fazer o encore sem sair do palco. Solicita apenas dois minutos para mudar a afinação da guitarra, uma vez que iria tocar uma canção de outro repertório.

E assim assistimos à mistura de mais que uma canção num único tema, sendo de destacar a “Estranha forma de vida” de Amália Rodrigues (cantora com quem Lula Pena tem semelhanças físicas assombrosas). Terminado o encore, a cantora abandona o palco para mais não voltar.

São muitas as músicas e os “phados” presentes na música de Lula Pena, uma música que parece não delinear fronteiras nem estilos, uma música verdadeiramente livre de rótulos e classificações.

É uma música que vive da ligação da sua voz estranha e grave à forma quase física como toca a guitarra (Lula Pena dedilha e faz percussão na própria guitarra, por vezes fazendo percussão também com o pé), resultando num todo coeso e uno. É fado? É canção francesa? É bossa nova? É flamenco? É rebético? É tudo isso e nada disso.

É Lula Pena e basta! ☆


Texto: João Carlos Barros
Fotos: Rui A Cardoso

    

+ Aftershows      

      geral@fenther.net       Ficha Técnica     Fenther © 2006