
Bandas/Discos |
Crónicas |
Livros |
Eventos |
DJ7 |
Links |
Apoios |
Home
| Mais Reportagens Fenther |
After show
Fantasporto 2009
FANTASPORTO 09
Os convidados que o Fenther ouviu.
Wim Wenders
Os filmes que o Fenther viu.
“The Wrestler”, Darren Aronofsky (EUA)
g.c.
“The Escapist”, Rupert Wyatt (GB, Ire)
j.s.
“Dunya & Desie”, Dana Nechushtan (Hol)
j.s.
“Hansel & Gretel”, Pil-Sung Yim (Cor. Sul)
g.c.
“Idiots and Angels”, Bill Plympton (EUA)
j.s.
“Exodus”, Penny Woolcock (GB)
g.c.
“Eden Lake”, James Watkins (GB)
g.c.
“Palermo Shooting”, Wim Wenders (Ale)
j.s.
“Adam Ressurected”, Paul Schrader (Ale, EUA, Isr)
j.s.
“Centigrade”, Colin Cunningham (Can) – curta-metragem
g.c.
“Vault”, Fred Neun (Lux) – curta-metragem
g.c.
“Monsters and Rabbits”, Nicky Lianos (GB) – curta-metragem
g.c.
Fim
Prémios
Secção Oficial Cinema Fantástico
19ª Semana dos Realizadores
Secção Oficial Orient Express
Prémio Méliès d’Argent
Cinematografia homenageada
Cinema Galego
Prémio da Crítica
“Delta”, Kornel Mundruczo (Hung)
Prémio de Audiência JN
“The Wrestler”, Darren Aronofsky (EUA)
Prémio de Carreira
textos e fotografias: gonçalo codeço e joana soares

Ano: 2009. Edição: 29. Mais um ano de cinema fantástico. Mais uma edição do festival no Rivoli. A que muitos ditaram como ‘a última’ – ouvia-se nas conversas que se apanhavam no ar, antes de cada sessão. “Para o ano, ainda vai ser o FantasGaia!”, alguém comentou. Quem sabe? O que é certo é que os directores do festival prometeram, de que forma fosse, um Fantas 30 anos e já andam a preparar modos de angariar fundos. Para o programa espera-se já uma retrospectiva do trabalho do realizador português Luís Galvão Teles e uma série de filmes com a temática da robótica. O cartaz já está desenhado e as datas marcadas (de 26 de Fevereiro a 6 de Março). E esta semana será posto à venda um conjunto de 30 DVDs com alguns dos melhores filmes que passaram pelo festival, para começar a celebrar o seu trigésimo aniversário.
Este ano, o Fantas abriu com a ante-estreia nacional da primeira parte de “Che – The Argentine”, de Steven Soderbergh, e fechou com “Adam Ressurected”, de Paul Schrader, a estrear nas salas de cinema a 12 de Março, espera-se. Entre um e outro, passaram filmes nas categorias de Cinema Fantástico, Curtas Metragens de Cinema Fantástico, Semana dos Realizadores, Orient Express, Longas e Curtas Metragens de Méliès de Prata, bem como Antestreia, Première & Panorama e retrospectivas de Cinema e Arquitectura, do italiano Mario Bava, do alemão Jorg Buttgereit, do português José Fonseca e Costa e dos nossos vizinhos da Galiza. Parcerias feitas pelo Fantas foram com o Cineclube de Avanca, o Festival Black & White, a Universidade Católica Portuguesa, a Casa da Animação, a ETIC, a Agência da Curta-Metragem, a Unifrance, o Dutch Film Institut, o Madrid en Corto, o Kimuak (basco), o festival U-Frame, o Rotterdam Film Fund, o Scottish Screen, o Wallonie Bruxelles Images, o New Irish Cinema e a Escola de Cine de Barcelona. Os convidados que passaram pelo festival foram os arquitectos Sou Fujimoto e Marcos Cruz, Tony Belloto (escritor e músico) e Malu Mader (actriz) pelo filme brasileiro “Bellini e o Demónio”, Jorg Buttgereit (realizador de “Nekromantik”), Macarena Goméz (actriz) por “Sexy Killer”, José Fonseca e Costa, Paul Schrader por “Adam Ressurected” e Wim Wenders por “Palermo Shooting”.
Paul Schrader
Um dos convidados de renome internacional foi Paul Schrader, galardoado com o prémio de carreira do FantasPorto. Conhecido argumentista de filmes de Martin Scorcese, como “Taxi Driver”, “Raging Bull” e “The Last Temptation of Christ”, o que o trouxe ao Fantas foi uma realização sua – “Adam Ressurected”. A história gira em torno de um sobrevivente do holocausto e da sua relação com os outros num hospital psiquiátrico (onde todos são sobreviventes do mesmo). Como referiu Paul Schrader, em conferência de imprensa, ao contrário da maioria dos filmes sobre o holocausto, este não é baseado em factos reais – é, nas palavras do realizador, “an act of imagination” do escritor Yoram Kaniuk, que causou controvérsia em Israel com esta obra de humor negríssimo. “Não senti que o mundo precisasse de outro filme sobre o holocausto”, disse o realizador, cuja paixão pelo cinema surgiu com os filmes europeus dos anos 60 (nomes referidos foram os de Bergman, Buñuel, Godard e Antonioni). Para Schrader, todos os filmes são um déja-vu, já não se faz nada que não tenha sido visto antes – as pessoas vão ao cinema ver o que já viram antes, mas sob a ilusão de que nunca o viram. Por isso, o objectivo de Schrader é evitar ser “boring”, criando uma ‘narrativa exaustiva’. Paul Schrader adiantou qual é o seu novo projecto de escrita: será um filme britânico com história e actores indianos, filmado em Bollywood.
Wim Wenders talvez tenha sido a figura mais esperada do festival, sem desmérito para qualquer outro convidado. Apresentou em competição o seu mais recente filme, “Palermo Shooting”, centrado num fotógrafo alemão, que começa a entender o tempo, a sua velocidade e a falta que este lhe faz. Wenders, sem querer falar demasiado do filme, confessou que nunca tinha filmado nada assim. A personagem Morte, presente na sua nova obra, foi talvez o ponto fulcral na conferência. Wenders explicou que já há algumas décadas não se mostra a Morte, como personagem, no cinema, devido, diz o realizador, ao consumismo desbarato que assola a nossa sociedade, deixando-a incapaz de encarar o fim-da-vida e levando mesmo à sua negação. “We will shop until we drop dead”. Para o realizador de “Asas do Desejo”, só o rock’n’roll sempre enfrentou a figura da Morte e escreveu letras sobre ela/ele (o sexo da Morte varia de língua para língua; em alemão, é masculino, daí a personagem ser interpretada por Dennis Hopper). Wenders apresenta, então, este filme “as if it was a rock’n’roll song”. Talvez por isso se veja uma aparição fantasmagórica de Lou Reed.
O realizador ganhou também o prémio de carreira e deixou um cheirinho do seu novo filme, sobre um serial-killer no Japão. Não adiantou mais, mas prometeu que seria um bom filme para o festival de cinema fantástico do Porto.

Como fã incondicional de Darren Aronofsky, este era para mim o filme mais esperado do FantasPorto.
Este é capaz de ser o filme mais sóbrio do realizador e ao mesmo tempo o mais honesto.
É-nos apresentada a personagem principal, um lutador de wrestling, que é admirado por todos os seus colegas e é uma lenda para o público. De seguida, conhecemos o auxiliar da personagem principal, Marisa Tomei, o seu amor, uma bailarina da noite. E é neste primeiro encontro entre estas duas personagens que nos é mostrada uma metáfora que perseguirá o lutador durante toda a narrativa. Cassidy, a bailarina, diz a Randy que ele é parecido com Cristo; fala também dum filme que gostou muito, “Passion of the Christ”, e diz que nesse filme a personagem leva porrada do início ao fim. Um comentário que pode passar despercebido mas que nos leva a comparar Randy com essa personagem da coroa de espinhos. E ao fazer essa comparação, podemos também ver Maria Madalena no papel da bailarina Cassidy.
Randy, depois de uma luta que meteu vidros e arame farpado, tem um enfarte e tem que dizer adeus ao wrestling para o bem da sua saúde. No entanto, Randy não tem amor nenhum na vida além da luta nos ringues. Cassidy lembra-lhe que ele tem uma filha e apoia-o na reconciliação com esta. O lutador está mesmo convicto a levar uma vida pacífica dividida entre a sua filha e o seu mais recente emprego na secção da charcutaria num supermercado qualquer. Com o decorrer do filme apercebe-se que está sozinho e que esta nova vida não lhe traz mais do que tristeza e ruína.
No primeiro acto, a personagem é senhor e rei do seu mundo, o mundo da luta. Ao mudar de mundo, no segundo acto, também consegue singrar positivamente. Mostra-se uma boa pessoa e capaz de se sacrificar pelos mais próximos que eram amados por eles.
No entanto, não sente esse sentimento retribuído e decide voltar ao ringue. Óbvio que está a pôr a sua saúde em risco mas preocupar-se com isso neste momento seria ser mesquinho…
A minha irmã depois de ver o filme perguntou-me: o Randy morre no fim?
Não sei… e isso não é de facto o mais importante. Aliás, não é importante de todo. O fulcral no fim do filme e aquilo que deve ser retido como moralidade do filme é o sacrifício. Randy sacrifica-se em prol de uma ideia e de um amor.
A história de Randy acaba aqui com o sacrifício máximo. Se ele sobrevive e se casa e tem filhos com a Maria Madalena, isso não importa. Disse Maria Madalena?! Desculpem, Cassidy, queria dizer Cassidy.
Brian Cox venceu o prémio de melhor actor, na categoria da Semana dos Realizadores, pela sua exibição em “The Escapist”, como Frank Perry, um velho prisioneiro que decide fugir da cadeia quando descobre que a sua filha está gravemente doente. A história e as personagens, típicas de uma prisão – a que já estamos habituados a ver nos filmes e séries –, não nos trazem nada de novo. O que é mais interessante, como o próprio júri do Fantas acabou por ‘provar’, é o núcleo de actores que interpreta o grupo de prisioneiros que tentam fugir juntamente com Perry. Para além de Brian Cox, o incomparável Seu Jorge, o quase-irreconhecível Joseph Fiennes e Liam Cunningham dão forma a um dos pontos mais fortes da obra de Wyatt. Outro ponto forte é a montagem paralela em dois tempos diferentes, um marcado pelos planos da fuga e o outro pela fuga em si. Esta opção permite aproximar ambas as acções – a passada e a futura – e torná-las mais coerentes, conseguindo, assim, cativar o público que se identifica com as emoções dos prisioneiros e com as suas motivações. A acção do filme, embora não-linear, faz sentido.
“The Escapist” não é o filme do ano, mas é um bom filme. Um filme que vale a pena ver.
O Fantasporto teve em cartaz, este ano, três dos filmes estrangeiros nomeados para os óscares – da Grécia, Noruega e Holanda (só faltou o vencedor japonês e o genial israelita “Valsa com Bashir” que já esteve nas salas de cinema portuguesas). O Fenther foi ver o candidato holandês, “Dunya & Desie”. O filme parece mais uma das novas estreias do Norteshopping do que parte do programa do Fantas. Sim, é um filme animador, colorido, que nos deixa soltar uma ou outra gargalhada. Mas não nos diz nada, não nos toca. É um filme leve, que nos apresenta duas amigas, uma holandesa e outra marroquina imigrante na Holanda, e os choques que se dão entre essas culturas e mentalidades distintas – a liberdade de uma e a repressão e conservadorismo familiar de outra. Talvez o maior interesse do filme seja o facto de não nos levar para a Holanda-idealizada, cheia de túlipas e campos verdes. Não. O que vemos é uma Holanda-real, com persongens reais, que vivem nos subúrbios, que não são especialmente inteligentes, nem bonitas, que não falam bem, que não sabem muito, que não vestem bem. São pessoas reais. O valor do filme prende-se aí: apesar de a história nos levar por certos caminhos irreais (e mesmo surreais!), as personagens, as suas relações e o mundo em que vivem são reais e tocáveis. Estão próximos de nós.
Um homem tem um acidente de carro. Acorda e encontra uma menina que lhe oferece onde ficar. Ele segue-a para dentro da floresta e encontra uma casa muito grande e bem arranjada, cheia de brinquedos e doces. Nela, vivem três irmãos, um rapaz e duas raparigas. O rapaz, o mais velho, é nitidamente o protector das suas irmãs. No decorrer do filme, vamo-nos apercebendo da impossibilidade de sair da floresta e de não morrer caso não se faça a vontade aos catraios.
Entretanto, o filme torna-se apenas repetitivo, isto é, a personagem principal só sabe dizer que quer ir embora e os miúdos também só sabem dizer que não querem que ele vá. No meio de toda a repetição, o filme alcança o absurdo quando se descobre que o irmão mais velho, se fechar os olhos com força, pode controlar e magoar os outros – uma espécie de professor Xavier dos X-Men, mas sem a cadeira de rodas e com os olhos em bico.
Entretanto, e usando como justificação o fantástico e o imaginário (eu chamo absurdo), a personagem principal descobre que aquelas crianças são, na realidade, mais velhas e que, quando eram crianças, foram muito mal tratadas pelo pai e acabaram por matá-lo. Por fim, o herói descobre como sair dali e acorda depois do acidente inicial, tendo tudo o que se havia passado sido um sonho delirante, o que é igual a nada.
Este filme, aos meus olhos, foi muito pretensioso, mas, acima de tudo, falhado. A personagem, ao chegar ao mundo novo, não é capaz de saber viver nele, sendo a mesma pessoa do início ao fim. Alguns dos seus valores até podem ter mudado, mas isso foi apenas por obra do Espírito-Santo. É suposto que o herói aprenda a viver no mundo desconhecido em que se encontra e, aí, singrar e ser um herói. No entanto, a persongem não tem arco algum e é apenas repetitivo.
Também houve quem elogiasse as cores e a fotografia do filme. Para começar, para poder haver uma boa fotografia e uma fotografia trabalhada, é necessário que se filme em película, o que não foi o caso. Não digo que o vídeo seja pior (apesar de o ser), mas a ‘fotografia’, neste caso, não vai além de correcção de cor, isto é, pornografia digital. É mais fácil de fazer, o director de fotografia pode ser contratado de uma companhia de filmagens de casamentos, porque o Final Cut resolverá tudo! E pior de tudo, as cores ficam falsas, parecendo mais um filme de animação.
Se fosse uma pessoa má, que aconteceria se um dia lhe nascessem asas nas costas, que o obrigassem a fazer coisas boas? Esta é a premissa base de “Idiots and Angels”, filme de animação, vencedor do Grande Prémio do FantasPorto.
Embora os desenhos (maravilhosos!, diga-se) sejam muito típicos de BD – com muitos traços e exageros caricaturais –, há uma estranha aproximação à realidade e, por vezes, quase nos esquecemos que estamos a ver uma animação. Este é um dos pontos fascinantes do filme que também ganhou o prémio de melhor argumento. E é aqui que se manifesta outro (e talvez o principal) dos interesses do filme: não há qualquer linha de diálogo! Muitos podem estranhar como é possível a um filme sem diálogos ser atribuído um prémio de argumento. Mas é por isso mesmo! Um filme que vive apenas da imagem exigiu um trabalho enorme da parte da escrita. Um filme que consegue transmitir a sua essência sem diálogos tem muito mais mérito – as imagens falam por si (tendo por base o argumento escrito) sem necessidade de explicação-extra. E é isso que o cinema é – imagens em movimento. A palavra foi um advento que surgiu com o som – o cinema desenvolveu a sua linguagem durante 30 anos de mutismo, como escreveu Edgar Morin. Ou seja, a sua linguagem é a da imagem, que tem por trás uma descrição, o argumento.
Bill Plympton, para além de conseguir contar-nos a sua história ‘apenas’ em imagens, conseguiu também que ela fosse fantástica e cativante. Daí merecer, sem dúvida o prémio de melhor argumento e de melhor filme. Porque tem tudo. 
“Exodus”, vindo da Grã-Bretanha, realizado por Penny Woolcock, foi um dos filmes que mais me surpreendeu (não falando daqueles para os quais eu já tinha uma expectativa mais elevada – como “The Wrestler” e “Palermo Shooting”).
A estrutura narrativa é já muito conhecida pelo povo Ocidental – o herói cresce e torna-se líder e senhor do seu mundo e ao fim da primeira das três partes que compõem o filme parte para um mundo desconhecido; desde o início do segundo terço do filme até meio deste, o herói conhece o segundo mundo; e, até ao fim do segundo terço, o herói torna-se senhor e líder deste segundo mundo. No último terço – última parte – do filme, o herói volta ao seu mundo natal, diferente em relação ao momento da sua primeira partida; aqui, estabelece-se um novo equilíbrio e o fim acaba. Seja o nosso herói Ulisses, Jesus, ou até mesmo o Tintin, o seu percurso como personagem é sempre o mesmo. Óbvio será dizer que pode haver sempre variantes e até quem conte a história com um princípio, meio e fim, não necessariamente pela mesma ordem – Godard.
Mas não foi a estrutura do filme que me fascinou. Foi, sim, a sua componente de sociologia. O filme começa com uma ordem dada pelo superior supremo da Grã-Bretanha, que manda prender toda a ‘escumalha’ existente – pobres, negros, ciganos, muçulmanos, criminosos, drogados, etc. – e fecha-os num sítio qualquer. Apenas alguns têm possibilidade de entrar no mundo normal e fazem-no apenas para trabalhar. Empregos que as ‘pessoas normais’ não querem ter. No entanto, no momento desta detenção, uma mãe deixa um bebé na praia, na esperança de que ele possa ter uma vida melhor que a sua, no mundo lá fora, no mundo normal.
Está apresentado o nosso herói, Moises. Moises é encontrado pela mulher do presidente e o casal adopta-o. Moises tem uma vida calma e segura, até que, por puro acaso e em auto-defesa, ataca um polícia, matando-o. Isto acontece dentro da ‘Dreamland’ – onde vivia a ‘escumalha’. Moises é acolhido na ‘Dreamland’ e é visto por muitos como alguém que pode mudar a situação presente. Ele decide fazer-se ouvir ao mundo normal. Então, unindo toda a ‘escumalha’, conseguem construir, com restos de madeira, uma estátua da liberdade com cerca de 50 metros de altura. Moises discursa e ameaça o seu pai e toda a comunidade protegida por este. No fim, incendeiam a estrutura. Um fogo enorme que alumiou todo o seu envolvente durante a noite. Vemos aqui uma comunidade não instruída, frágil, pobre, mas que, graças a uma voz, se uniu e estava pronta para lutar.
Após isto, vários planos (ou massacres) são orquestrados por Moises com o objectivo de ferir aqueles que se julgavam livres – planos tais que funcionavam alegoricamente como os milagres feitos pelo Moisés bíblico.
Estava abismado ao ver o poder da voz de Moises e da coragem e determinação daquela comunidade em ser livre. “Afinal, é possível muitas pessoas lutarem honestamente por uma causa comum – e não porque lhes disseram que é preciso lutar. É possível que toda a recompensa esteja no alcançar valores e lutar por eles (apenas) e não nas virgens que estão no céu à espera ou nos descontos ou reformas que nos esperam em casa. É possível (e correcto) sentir-me e ser superior a um cristão, pois eu alcancei a noção da impossibilidade de haver Deus, ao contrário dele que não pensou, mas leu um livro vermelho grande com epístolas.” Pensava eu isto quando os portões se abriram e a ‘escumalha’ pôde sair e ser livre.
Surpreso fiquei ao constatar que naquelas pobres cabeças nada havia além de fúria e raiva – e assim que puderam mataram e chacinaram os seus opostos, que não eram obrigatoriamente oponentes; a estupidez na mente do povo ofendido é que projectou oponentes em vez de opostos.
Quer eu, quer Moises, ficámos surpresos ao ver um sonho terminar em sangue.
O dia havia começado com “Idiots and Angels” de Bill Plympton, seguindo-se o “Exodus” de Penny Woolcock. Estava a ser de facto, um muito bom dia. Por último foi-nos apresentado este filme como o thriller do momento…
Não poderia ter ficado mais desapontado.
Um casal na casa dos vinte anos decide ir passar um fim-de-semana amoroso no meio de uma floresta que ficava perto de Eden Lake. Lá, nesse lago, encontram uma data de miúdos rufias que são fanáticos pelo “Scarface” – não no estilo de “Gomorra”. Eram idiotas, nada mais.
Entretanto, esses gringos roubam o jipe do casal. Mais tarde, o casal lá encontra os miúdos e o jipe roubado; sem querer, matam a cadela pertencente ao gringo chefe. Muito másculo, esse chefe, começa a chorar a perda da cadela e em fúria começam a perseguir o casal que acaba por bater numa árvore. O homem fica preso no jipe mas a salvação reside na mulher que leva consigo o GPS topo de gama para chamar ajuda. Isto tudo durante a noite cerrada dentro da floresta. Ora, a mulher decide esconder-se na floresta em vez de chamar ajuda. Os rapazes conseguem encontrar o homem preso no jipe e começam a torturá-lo. Estavam decididos a matá-lo; no entanto, limitam-se a dar-lhe uns golpes com uma faquinha.
Foi aqui que o filme começou a entrar na inverosimilhança devido às acções e decisões das personagens. Tentando ser mais claro e conciso, algo que é regra para qualquer filme é o facto de quanto melhor é a personagem principal mais terrível tem que ser o antagonista. Tem que haver uma simetria entre estes dois mundos. Neste caso, a personagem principal seria a mulher e os antagonistas, os miúdos. Ora, apercebemo-nos da idiotice presente na personagem principal quando esta não sabe o que fazer e nem ajuda o seu namorado nem a sua própria pele. Por outro lado, os miúdos que estavam a cometer um crime hediondo são também idiotas ao ponto de se limitarem por uns golpes na sua vítima. A meu ver, se queriam que ele não fugisse não era preciso mais do que partir uma ou até mesmo as duas rótulas. Mas não, uns golpezinhos chegam...
E é aqui que o filme perde todo o interesse e torna-se igual a todos os outros thrillers em que o rato foge do gato.
De qualquer das formas, este filme toca num ponto de certa forma sensível, mas não podemos dizer que seja esse o cerne e o tema do filme. Ou seja, mais tarde, a mulher consegue fugir da floresta mas acaba por ir ter à casa dos pais do gringo mestre. E aqui vemos que os pais ainda são mais cruéis que o miúdo; e apercebemo-nos que toda aquela psicologia deturpada do miúdo advém dos pais e dos seus ensinamentos.
Vivemos num mundo cada vez mais fútil, mais falso, mais trabalhado. É neste mundo que Wim Wenders nos apresenta a personagem principal do seu novo filme: um fotógrafo alemão, Finn, que ganha a sua fama através de grandes trabalhos em digital, onde as cidades são reconstruídas e os céus modificados. É um mundo construído pelo fotógrafo, um mundo industrial e de consumo.
Quando, sem querer, fotografa a Morte (Dennis Hopper) num quase-acidente de carro, a sua vida é afectada. Desde o início do filme, se viam relógios a contar o tempo, mas desta vez, para o fotógrafo, os relógios contavam mais rápido. Na sequência deste encontro com a Morte, Finn parte para Palermo na busca de alguma fuga, de algo natural, genuíno. Mas a Morte masculina continua a persegui-lo e a tentar atingi-lo com as suas setas. Tal como Wim Wenders nos tentou atingir – talvez, por isso, o realizador tenha referido que este era o único filme interactivo do festival. De certa forma, ao nos deixarmos levar por aquela história (o que não é difícil!), estamos a aceitar a Morte, enquanto personagem, e a ter plena consciência da sua presença. Apesar de não olharmos para ela através de uma lente, olhamos através de um ecrã (que foi a lente de Wenders). Se formos demasiado racionais perante o que vemos, apercebemo-nos facilmente que estamos perante um filme fantástico, mas se, e repito-me, nos deixarmos atingir, conseguimos acreditar e ser tocados pelo filme, pelo tempo, pela fotografia, pelo real, pela morte e, por isso mesmo, pela vida. Porque, e hoje-em-dia já nem nos apercebemos disso, é a existência da Morte que nos dá a vida. Por ignorarmos e tentarmos apagar a sua presença, a da Morte, esquecemo-nos de viver. O que Finn aprendeu foi a viver – ao lidar com a Morte, Finn começou genuinamente a viver. A suposta complexidade do ‘sentido da vida’ foi explicada e exposta da forma mais simples. Como diz alguém que conheço, “a vida é tão simples, nós é que a complicamos”.
No final do filme, dedicado a Antonioni e Bergman, lembramo-nos logo do fotógrafo de “Blow-Up” e da Morte a jogar xadrez no “Sétimo Selo”.
Wim Wenders esteve excepcional nesta abordagem de tão complexificado tema. Bem como na escolha das músicas, desde Velvet Underground a Beirut. Banda sonora que vale a pena ter. Filme que vale muito-muito a pena ver.
Como muitos críticos escreveram, este é um filme que não sairá tão cedo da cabeça. As imagens ficam presas, as expressões de Jeff Goldblum (num papel memorável e indescritível) repetem-se mentalmente, os flashbacks, os espaços, as personagens, os loucos, os médicos, os sádicos, os gestos, os latidos, tudo, tudo. É um filme que não dá para descrever, pelo menos sem arruinar a sua essência – é preciso vê-lo.
Tal como o argumento (adaptado por Noah Stollman da obra de Yoram Kaniuk) foi rejeitado por uma data de realizadores, que se assustaram com a complexidade da história, muito mais difícil é para mim, um [pseudo-]crítico, tentar explicar o que é o filme. Posso tentar dizer que é uma tragédia, quando é uma comédia, que divaga sobre sobrevivência, quando divaga sobre a morte, que fala sobre cães, quando fala sobre humanos. Como referiu o realizador Paul Schrader, o melhor é dizer que este é “um filme sobre um homem e um cão”. Mais nada. Um homem que sobreviveu a um campo de concentração nazi e ao comandante do campo (interpretado por Willem Dafoe). Um comediante que perdeu a família. Um louco que se refugiou na comédia e na [consciência da] sua loucura. “Num mundo louco, ser maluco é a única forma de se adaptar”, lê-se na tagline do filme. Ser louco é o escape. E o mais triste é compreender que a cura, supostamente esperada, só traz vazio. Curar a loucura de alguém que foi cão alemão e deixou a família morrer, é torná-lo em nada. Porque não há nada. Só conformismo. Só corpo. Oco. É isso viver?
Parabéns a Yoram Kaniuk pela história, a Noah Stollman pelo guião, a Paul Schrader pelas imagens, a Jeff Goldblum por Adam. Parabéns por demonstrarem tão bem o que é ser louco, o que é ser triste, o que é ser feliz, o que é viver.
“Centigrade” é uma daquelas curtas que nos obrigam a ver antes de um filme bom – no entanto, o filme que se seguiu era igualmente mau (“Hansel & Gretel”).
Posso afirmar com toda a certeza que “Centigrade” era uma curta sobre: caravanas com janelas avariadas.
Muito resumidamente, um homem ruim vive numa caravana. Um dia, acorda e alguém está a levar a sua caravana, atrelada a uma pick-up, para não-se-sabe-onde. Esse homem tenta fugir da caravana, mas as janelas estão estragadas e não abrem (nem se partem). No fim, a caravana é deixada num deserto junto de muitas outras caravanas – também estas com janelas estragadas.
Uma curta mal conseguida onde, supostamente, temos que ver mais além. No entanto, o que a maior parte das pessoas não percebem é que, para se ver algo mais além, tem de haver algo à frente dos nossos olhos que seja, signifique e nos conte algo – caso contrário, não podemos ir mais além. Neste caso, não se foi além das janelas estragadas.
“Vault” é mais uma curta falhada, impingida antes de um filme (também falhado – “Eden Lake”).
Começa com um miúdo possuído por um demónio qualquer e um padre a falar na língua esquisita dos demónios. Fade out. O miúdo tem a mão direita a arder (graças a um fogo criado em pornografia digital, que apenas fez soltar gargalhadas no grande auditório). Fade out. Aparece um homem na casa dos 20 anos com uma luva na mão direita – portanto deve ter a mão queimada, portanto é a mesma personagem (pensamos nós). Ele está numa masmorra e é-nos dito que ele tem um dom – talvez saiba fazer uns óptimos pastéis de nata... ainda hoje desconheço a verdadeira essência desse dom.
Pum! Aparecem uns demónios (muito parecidos com os Lama dos Power Rangers) e ele desata a falar num dialecto desconhecido, até que a guarda da masmorra os mata aos tiros. Daqui em diante, é o absurdo no seu expoente extremo... Num quarto da masmorra, o herói encontra um miúdo que é igual a si quando era pequeno. Por alguma razão alheia a nós foi decidido que esse seria o seu antagonista. Ele bate com o punho queimado no chão, enquanto grita e ele desaparece. Fim.
Será problema meu? Não. Simplesmente nem todos sabem contar histórias.
Ir para o FantasPorto e ver todo o cartaz, além de desumano, não é a melhor escolha. Temos que ser capazes de fazer uma selecção e ver o que vale a pena. Por exemplo, o filme “Sexy killer, morrirás por ella?”, quantos filmes já vi eu iguais a este?; este filme era um “Terminator”, mas em forma de mulher que tem guarda-roupa à base de bikinis e coisas que fazem os mais animalescos assobiar quando se vai ao palco receber um prémio como melhor actriz do FantasPorto.
Tempo é algo importante e temos que o saber gastar e orgulharmo-nos de como o gastamos. Portanto, tal como me orgulho de não ter visto o filme anteriormente mencionado, também me orgulho de ter visto a curta “Monsters and Rabbits”. Apesar de não ter visto quase nenhuma curta (Curtas é em Vila do Conde – é a minha radical opinião), esta foi a melhor a que assisti. Foi simplesmente bem conseguida.
A história passa-se numa escola primária. E há um miúdo que está sempre sentado sozinho, com o seu amigo monstro imaginário a ajudá-lo a passar pelas dificuldades que surgem. Entretanto, chega uma rapariga que também anda sempre sozinha, com a sua amiga coelha imaginária. O rapaz apercebe-se de que não é totalmente feliz com o seu amigo monstro e deixa-o, trocando-o pela rapariga, uma amiga real. Assim, ficam os dois monstrinhos juntos, podendo ajudar-se mutuamente.
Uma curta simples, com princípio, meio e fim. Uma ideia e uma moralidade sempre presentes. As personagens são reais, como que estereotipos – o que é óptimo para uma curta-metragem, pois dá-lhe vida e significado.
Como em todos os festivais, este ano, o Fantas teve tanto filmes muito bons como filmes muito maus. Como disse Paul Schrader, há filmes que cansam por serem todos iguais: as histórias, as personagens, os diálogos, os fins, todos iguais. É algo que, ao nos centrarmos num estilo apenas (neste caso, o fantástico), corremos o risco que se torne repetitivo, já que se estabelecem alguns limites, ainda que vagos. E este ano, assistimos a muitas repetições... Mas ao longo dos anos, o Fantas tem-se aberto a outras projecções. Seja qual for o motivo, a verdade é que torna o festival mais interessante, pela oferta de mais variedade, sem nunca deixar de manter a sua marca no fantástico.
Julgo que, esta edição do festival, por ter filmes tão geniais como “The Wrestler”, “Palermo Shooting” e “Adam Ressurected”, levou a que houvesse alguma desilusão por muitos outros filmes. Quando nos servem um bolo de chocolate, já não queremos o pão com manteiga. Como cantavam os James, “if I hadn’t seen such riches, I could live with being poor”. E o Fantas mostrou-nos coisas tão boas, que, depois, filmes que poderíamos gostar minimamente, tornaram-se autênticas torturas.
Uma falta que se sentiu foi a sala do Sá da Bandeira (só disponível para o Baile dos Vampiros). Aquela era a sala mágica do Fantas, onde passaram filmes como o “Freaks” de Tod Browning. Onde esteve ela? Segundo a organização do festival, este ano houve mais filmes exibidos do que no ano passado. No entanto, parece que aumentaram as sessões nos auditórios do Rivoli. Foi um bocadinho do espírito que se perdeu. Esperemos que para o ano tenhamos rememorações de edições anteriores. Se houver Fantas para o ano! Talvez haja um milagre. Já que foi com fé em milagres bíblicos (o Cristo-Rourke em “The Wrestler”, o Moises-moderno em “Exodus” e o Adão-louco em “Adam Ressurected”)que o Fantas começou, durou e terminou.
Grande Prémio Melhor Filme FantasPorto 2009 “Idiots and Angels”, Bill Plympton (EUA)
Prémio Especial do Júri “Hansel & Gretel”, Phil-Sung Yim (Cor. Sul)
Melhor Realização “Eden Lake”, James Watkins (GB)
Melhor Actor Jack O’Connel – “Eden Lake” (GB)
Melhor Actriz Macarena Goméz – “Sexy killer” (Esp)
Melhor Argumento Bill Plympton – “Idiots and Angels” (EUA)
Melhor Fotografia James Hawkinson – “The Unborn” (EUA)
Melhor Curta-Metragem “Next Floor”, Denis Vileneuve (Can)
Menção honrosa do júri internacional “Astropia”, Gunnar Gudmundsson (Isl/GB/Fin)
Grande Prémio Manoel de Oliveira “Moscow, Belgium”, Christophe Van Rompaey (Bel)
Prémio Especial do Júri “Palermo Shooting”, Wim Wenders (Ale/Fra/Ita)
Melhor Realizador Bent Hamer – “O’Horten” (Nor/Ale/Fra)
Melhor Actor Brian Cox – “The Escapist” (GB/Ire)
Melhor Actriz Mamatha Bhukya – “Vanaja” (Ind/EUA)
Melhor Argumento Sergey Rokotov e Yevgeniy Nikishow – “The Vanished Empire” (Rus)
Prémio Melhor Filme Orient Express “Hansel & Gretel”, Phil-Sung Yim (Cor. Sul)
Prémio Especial do Júri “The Chaser”, Hong-Jin Na (Cor. Sul)
Prémio Méliès de Prata “Absurdistan”, Veit Helmer (Ale)
Prémio Méliès de Prata Curta-Metragem “Mamá”, Andy Muschietti (Esp)
José Fonseca e Costa
Paul Schrader
Wim Wenders
| Mais Reportagens Fenther |