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After show



Entremuralhas
Castelo de Leiria

A 27 e 28 de Agosto realizou-se em Leiria, mais propriamente no seu lindo castelo, o primeiro festival gótico português, o Entremuralhas. Tivemos o privilégio de estar presentes no dia 28 neste evento único e pudemos partilhar de um festival que primou pela simpatia e disponibilidade da organização, por um ambiente descontraído e “civilizado” e pela diversidade cultural.

Este festival surgiu com o intuito de desmistificar um pouco as imagens pré-concebidas que o comum dos mortais tem em relação à “tribo” gótica, estando aberto a toda a comunidade que nele quisesse participar e degustar um pouco do que de bom e de belo a cultura gótica tem para oferecer, arte, música, conferências, vendo para além dos vampirinhos e das bruxinhas que neste momento povoam certos filmes e certos programas televisivos. Assim sendo, o programa dos dois dias fora diversificado comme il faut; para além dos concertos anunciados no cartaz foram realizadas conferências subordinadas ao tema “Margens e Rupturas” que se propunham a debater o gótico nas suas diversas vertentes, tendo a participação de intervenientes ligados à música (Fernando Ribeiro, Adolfo Luxúria Canibal), arquitectura (Miguel Figueira e Pedro Trindade Ferreira) e cinema (Joana Bartolomeu, Filipe Melo e Patrick Mendes). Do programa fizeram igualmente parte um ciclo de filmes assinados pelos cineastas presentes (“The Tailors Kiss”, “A Sangue Frio” e “Ill See You In My Dreams”) e a exposição de escultura “A Ferro e Pedra” de Alexandre Estrela, onde se podiam ver peças nascidas da criatividade do seu criador e da reutilização original de materiais industriais.

Ao chegarmos um pouco antes das 17h fomos bem acolhidos por elementos pertencentes ao Castelo de Leiria que nos explicaram como tudo funcionava a nível de espaços e horários e nos contaram como tinha corrido o dia anterior. Esta recepção afável foi igualmente partilhada com os elementos da organização Fade In, os quais tiveram imenso gosto e preocupação para que tudo corresse bem neste evento. Aproveitando a luz do dia que ainda se fazia sentir visitamos o Castelo de Leiria, local muito bem escolhido para a realização deste festival pelo seu enquadramento histórico e arquitectónico e por toda a ambiência com que contribuiu para este evento. Perfeito, foi o adjectivo escolhido por todos os presentes, rendidos à beleza gótico-medieval deste monumento. O passeio pelos íngremes caminhos deste castelo foi caracterizado pelo sossego, a satisfação dos convivas perante tal cenário e por alguns “tropeções” causados por algum calçado “gótico” menos adequado a estes caminhos que ainda hoje se mantém inalterados na sua rudeza histórica.
Deu ainda para visitar as barraquinhas recheadas de toda a parafernália de livros e cds, roupas e calçado subordinados ao tema gótico e ainda uma barraca de merchandise cinematográfioco.

O recinto tinha dois palcos dedicados cada um a uma essência diferente; o palco Corpo e o Palco Alma. A abertura do palco Corpo no dia 28 coube aos portugueses Uxu Kalhus que animaram este fim de tarde com o seu folk-rock-funk apresentando temas com raízes na cultura tradicional portuguesa como “ A saia da Carolina”, “Erva Cidreira” e “Malhão”.
Seguidamente dirigimo-nos para o Palco Alma que se encontrava na parte superior do castelo, uma subida um pouco cansativa e íngreme, mas que valeu a pena para ver a actuação dos franceses Collection D’Arnell Andrea, estreantes no nosso país. Representantes da chamada “french coldwave”, levaram o público por uma viagem sensorial proporcionada pelo seu som melancólico e neoclássico enfatizado pela doce voz de Chloé St Liphard e pela projecção de imagens de finais do século XIX, início do século XX. O espectáculo teve duração de cerca de hora meia e foi preenchido com temas como “Deafening Breath”, “Un Matin de Septembre” e “The Spirits of Dead”.

Após algum tempo de preparação de palco, e continuando com a “Alma”, surgiram discretamente os suecos “Ordo Rosarius Equilíbrio”, ansiosamente aguardados pelo público proporcionaram, do meu ponto de vista um concerto um pouco sereno demais, criando no entanto um ambiente bastante intimista para os seus fãs através da sua sonoridade darkfolk e pelas suas letras de cariz erótico-pornográfico, apresentando temas como “Hell Is Where The Heart Is”, “Mercury Rising”, “Glory to Thee My Beloved Masturbator” e “Three Is An Orgy Four Is Foreve”.
Após a actuação dos ORE descemos novamente para o Palco Corpo, para dançarmos ao som dos Covenant que vieram apresentar o seu mais recente trabalho, “Modern Ruin”. O trio sueco soube fechar a noite com chave de ouro, pois proporcionou um bom espectáculo com todo o publico a mexer ao som das suas batidas electrónicas e impulsionado pelos dizeres do vocalista Eskil Simonsson, o qual numa atitude muito “peace and love” nos instigava a gozarmos o momento, a apreciarmos a música, chegando mesmo a trepar as grades e a mergulhar na multidão. Foi um concerto em tudo diferente dos dois anteriores, mais melancólicos e serenos; a dançarmos ao som de temas como “20hz”, “Ritual Noise”, “Call The Ships to Port” e “Brave New World”.
A noite no castelo chegava ao fim, mas festa continou no Beat Club ao som dos DJs Fade In e Graveyard.

Esperemos que o Entremuralhas tenha vindo para ficar e que se continue a realizar nos anos vindouros, trazendo mais iniciativas ligadas à arte e à cultura e bandas que normalmente não vemos por cá. Claro que houve alguns pontos negativos, como as insuficientes casas de banho e a pouca variedade na alimentação, mas isso são pequenas coisas a melhorar e que facilmente são ultrapassadas pelas belas recordações que o Entremuralhas nos deixou.

Agradecimentos: FADE IN


Texto e Fotos: Helena Granjo


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