Aftershow

Elza Soares na Casa da Musica

Elza Soares chegou arrebatando a Casa da Música, para o primeiro concerto da sua mini digressão em Portugal. Trouxe consigo o seu primeiro álbum de originais, apesar dos longos anos de carreira, intitulado " A mulher do Fim do Mundo", vencedor do Grammy Latino para Melhor álbum de Música Popular Brasileira. Este é composto por letras que falam dela própria, de um percurso de vida atribulado, com vários episódios trágicos, mas também com um carácter interventivo e de acção que sempre motivaram a cantora. Falar de Elza é complexo, é tentar colocar em palavras um dom de voz rouca, um furacão humano, que quer "cantar até ao fim". Agradeceu a cada ovação com um "obrigada meus queridos", da plateia gritavam-se palavras como "diva" e "rainha" e na verdade, Elza é muito mais que isso. Canta um samba sujo, como gosta de chamar, desde o início da carreira que tem como bandeira a luta contra a discriminação racial, como sugere em "A Carne", " A Carne mais barata do mercado é a carne negra", mas também a defesa dos direitos das mulheres, LGBT e libertação sexual. O espetáculo seguiu com inúmeras canções de intervenção, contou com a participação do cantor e bailarino, Rubi, em "Benedita" e numa espécie de alusão ao invocado "fim do mundo" ouviu-se "Comigo" canção que remete à perda tão presente na vida da artista. No encore, ofereceu aos presentes "Volta por Cima", que se encaixa perfeitamente na figura de Elza e que é uma espécie de celebração à superação e alegria.
Hoje só é capaz de entrar em palco com ajuda, ocupando o elevado trono a que tem direito, sentada, longe estão os dias de samba no pé, mas mesmo assim enche uma sala, chega ao público e levanta qualquer um da cadeira. Faz jus ao estatuto, à negritude tão sua e exposta na voz, diva será pouco perto da intemporalidade do que canta, do que representa, do que expõe. A Casa da Música agradeceu e mesmo depois da despedida, ficou a vontade de mais.

Texto:Irina Correia
Fotos: Catarina Costa


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