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After show
DOC Lisboa 2010
DOCLISBOA DÁ MÚSICA
Já que o Fenther.net privilegia e destaca, desde sempre, a música, a escolha dos filmes a ver na última edição do doclisboa esteve intimamente ligada a essa área. Ficam aqui alguns comentários aos filmes vistos na secção rítmica do festival.
Crossing the Bridge: The Sound of Istambul, Fatih Akin
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Frank Zappa: A Pioneer of the Future of Music: Part I & II, Frank Scheffer
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Hitler’s Hit Parade, Oliver Axer e Susanne Benze
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Stones in Exile, Stephen Kijak
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Tonite Let’s All Make Love in London, Peter Whitehead
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What’s Happening: The Beatles in the USA, Albert & David Maysles
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Punk is not Daddy - Arquivos do Fim de Século, Edgar Pêra
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Benda Bilili!, de Renaud Barret e Florent de la Tullaye (França, 2010), sobre «um projecto desenvolvido ao longo de cinco anos com os músicos de rua de Kinshasa (Congo), que pela primeira vez gravam um disco (os ensaios e algumas gravações decorrem no Jardim Zoológico da cidade!) e seguem com uma triunfante tournée internacional.»
B-Side, de Eva Vila (Espanha, 2008), «uma viagem sonora para redescobir Barcelona.»
Breath Made Visible, de Ruedi Gerber (Suíça, EUA , 2009), «a primeira longa-metragem sobre a vida e carreira de Anna Halprin, uma das pioneiras da dança americana, que ajudou a redefinir a noção de arte moderna.»
NY Export: Opus Jazz, de Henry Joost e Jody Lee Lipes (EUA , 2010), uma adaptação de “Ballet in Sneakers” (1958) de Jerome Robbins (o coreógrafo de West Side Story).
Uma noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil (Brasil, 2010), sobre « a final do Festival da Record, que mudou para sempre o destino da Música Popular Brasileira», com Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, Roberto Carlos, Edu Lobo e Sérgio Ricardo.
Passion – Last Stop Kinshasa, de Jörg Jeshel e Brigitte Kramer (Alemanha, 2010), «filme de música e dança sobre o raro encontro entre a música clássica e a realidade africana, (...) reflexão sobre a música sacra cantada por talentosos intérpretes e um contratenor congolês Serge Kakudji, num país que luta pela sobrevivência.»
Retour à Gorée, de Pierre-Yves Borgeaud (Suíça, Luxemburgo), «um road movie musical, que conta a épica viagem do cantor africano Youssou N’Dour’s, quando segue o rasto deixado pelos escravos negros e o jazz por eles inventado.»
Yemen Travelogue, de Michael Pilz (Áustria, 2008), «reflexões pessoais sobre a música, sobre os rostos e a paisagem do Vale Hadramout, uma das mais antigas culturas deste mundo.»
Texto: J.

Como já tem acontecido desde 2008, o doclisboa 2010 teve uma secção dedicada à música – Heart Beat. Com 14 filmes que vêm desde os anos 60 até aos dias de hoje, fomos das ruas de Barcelona a Istambul, dos Beatles aos Rolling Stones, do Congo à Alemanha Nazi, de Frank Zappa a Youssou N’Dour’s.

Alemanha, Turquia, 2005, 92’
Alexandre Hacke (Einsturzende Neubauten) vagueia por Istambul, recolhendo os sons da cidade. Músicos de rua, músicos tradicionais, músicos populares, de hip-hop, de rock sónico, de heavy-metal – todos se tornam personagens deste filme e da banda sonora de Hacke.
A forma de filmar de Fatih Akin – deambulante, meia tremida e muito colorida – leva-nos à verdadeira cidade de Istambul. Uma cidade decadentemente poética, plena de sons e cheiros, com personagens bizarramente interessantes, indefinida, no limiar, [des]equilibrada no balancear constante entre o Ocidente e o Oriente.
Um filme que só interessará aos apaixonados pela música, pelas viagens solitárias e pelas cidades escondidas.

Holanda, 2006, 108’
Mais do que um documentário de Cinema, esta montagem de arquivo, muito bem conseguida, leva-nos mais para um universo de televisão. Aliás, o facto de haver duas partes e de a segunda ter, no início, repetições de imagens e comentários da primeira parte, acentua isso mesmo.
Não se quer retirar, com isso, o mérito do[s] filme[s]. É uma fantástica apresentação da genialidade de Frank Zappa, com imagens de arquivo (e do arquivo pessoal dele – gigantesco!) e depoimentos mais recentes de amigos, colegas e familiares.
Para quem não conhece muito bem a figura de Zappa, esta é uma óptima exposição do seu trabalho e génio – e mesmo para os fãs, vale sempre a pena.

Alemanha, 2003, 75’
“Hitler’s Hit Parade” é um conjunto de imagens de arquivo da Alemanha Nazi, acompanhados por músicas da época. Há um entrelaçamento entre material de propaganda, publicidade, desenhos animados e registos amadores.
Embora o filme proporcione momentos de gargalhadas – tanto pelo objectivo de puro divertimento, como pelo lado ridículo de como vemos hoje a propaganda da altura –, a montagem torna-se sufocante e perturbadora. Imagens de massas a comportarem-se da mesma forma. Imagens do homem e da mulher ideais. Imagens de uma Alemanha industrial e em constante desenvolvimento. Mensagens subliminares. Animações com judeus como vilões. Imagens dos campos de concentração.
Imagens de uma Alemanha com um nível de vida económico e cultural elevado, onde todos vivem felicíssimos, em paz e harmonia. Imagens de casas destruídas e homens mutilados. Tudo interlaçado. E de fundo – a música! Canções dos anos 30, 40, letras felizes, melodias alegres, de amores e flores. E enquanto a música nos embala, as imagens, à nossa frente, contam-nos uma história terrível.
Parabéns aos realizadores pela selecção das imagens e pela mestria com que as conjugaram.

Reino Unido, EUA , 2010, 61’
O filme é deste ano, mas documenta um grande acontecimento para a História da Música, em 1972: a gravação do álbum “Exile on Main St.” dos Rolling Stones, no Sul de França.
Para além de comentários recentes dos envolvidos na criação e gravação do disco, o filme vive verdadeiramente das imagens inéditas que Stephen Kijak conseguiu reunir. Aquele momento foi mesmo de exílio para os membros da banda e respectivas namoradas, mulheres, filhos. Estavam completamente isolados do mundo. Tinham um estilo de vida boémio, «dolce-vita-fellini-ass-kind-of-style», que se foi degradando com a passagem do tempo, entre o rock’n’roll e as drogas.
Como disse um entrevistado, todos queriam estar lá. E as imagens do filme são tão próximas que quase nos fazem sentir ali, no meio deles, no casarão de Keith Richards, na Riviera francesa.
[Parece-me importante referir que o Director de Fotografia, Grant Gee, foi o realizador do documentário “Joy Division”, que já esteve nas salas portuguesas.]

Reino Unido, 1967, 70’
Um retrato irónico de uma Londres que se foi libertando de pesos morais e regras de bom comportamento. “Pop Concerto for Films”, é assim o subtítulo. Londres nos anos 60, a arte, o pop, o sexo, a música. Pink Floyd, Beatles, Rolling Stones, Michael Caine, Vanessa Redgrave, Julie Christie, David Hockney, Lee Marvin, Allen Ginsberg, Eric Burdon and The Animals, The Small Faces, a Rainha, a Guarda Real – estão lá todos.
O filme é viciante: acaba num instante e fica-se a desejar mais, não porque ficou a saber a pouco, mas porque, como os vícios, é estimulante.

EUA, 1964, 71’
Este foi talvez o filme mais esperado do doclisboa 2010, na área da música. Com uma única projecção, a Sala 1 do São Jorge encheu e, depois do filme, houve direito a uma festa temática.
A ida dos Beatles aos EUA em 1964 é seguida de perto – no carro, no hotel, no bar, no restaurante, no comboio. Ficamos a conhecer os Beatles, para além do palco e das entrevistas formais. Vemos como funcionavam em grupo “fora-de-cena” e conseguimos delinear um pouco as suas personalidades. Claro que a presença constante da câmara provoca algumas alterações de comportamento, mas estamos tão próximos deles que parece que a câmara nem existe. E é muito interessante reparar na discrição de Lennon e Harrison, na ostentação de McCartney, na extravagância de Starr, em palco, e perceber que eles eram mesmo assim. Os Beatles-humanos. Os Beatles-estrelas a nascer. Eles eram o acontecimento.
Um filme muito animado, com opções fílmicas muito interessantes, fora do comum, e com uma cena brilhante, ainda longa, de Ringo Starr a dançar numa discoteca.

Portugal, 2010, 70’
“Punk Is Not Daddy” não fazia parte da secção Heart Beat, porque estava em competição no festival. No entanto, achamos que merece um destaque especial, porque é um filme português sobre música portuguesa.
Edgar Pêra reuniu alguns dos seus cine-diários, filmados nos anos oitenta a rodagens, concertos, ensaios dos GNR, Xutos e Pontapés, Sétima Legião, Delfins, Censurados, Heróis do Mar, entre outros, e juntou-os numa montagem “punk” – tal como as filmagens, sem-regras.
Mas o filme vai para além de uma simples colagem de cine-diários filmados entre 1980 e 1990. Edgar Pêra consegue contextualizar-nos num Portugal dos anos 80, com filmagens das ruínas do Chiado, de greves e manifestações, de discussões culturais, de viagens com a família.
Mais do que filmes, os cine-diários de Edgar Pêra são memórias. E ele trouxe-as de volta: devolveu as memórias a quem lá esteve, mas também a quem não viveu aqueles acontecimentos.
No final, perguntamo-nos, como escreve Jorge Mourinha no Público, «para onde foi uma vitalidade que parece hoje retraída». Havia uma energia ali, mesmo que underground, que se foi dissipando. E fica a “Saudade” [Heróis do Mar].
Para além destes filmes, Heart Beat apresentou ainda:
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