Aftershow

Vodafone Parerdes de Coura 2016

Acontece o costume. Mais uma edição do Paredes de Coura acaba e ganha-se sempre mais nestes dias de festival do que o que se perde, salientando o que sempre se diz: não há festival como este. O meu segundo ano (não consecutivo) na Praia Fluvial do Taboão soou a casa e a verdade é que as saudades já eram muitas.

Os dias antes do festival em si são sempre mais pacíficos e mais sossegados que os outros: o rio é sempre o melhor sítio para se estar seja a qualquer hora do dia com os barcos, as sacas, tupperwares e arcas de esferovite no fundo deste para poder ser de borla o fresco de uma cerveja, vinho ou sumo; os concertos durante as festas tradicionais da vila têm mais vida, mesmo depois de se morrer de cansaço depois da enorme subida.

O primeiro dia do festival surge abençoado por chuva que deixou as margens rio desertas durante a manhã, mas que durante a tarde voltaram mais ou menos à normalidade. O recinto abre e a noite começa à portuguesa, com We Trust (que anunciam a sua pausa) com Coura All Stars e Best Youth que soaram a carícia em todo o recinto. Minor Victories surgem como primeira banda internacional (ou primeira superbanda?) a atuar na edição deste ano, com um concerto de fim incerto de tanto loop de obrigados. O público esperou e teve o que mereceu. Se a maior parte das pessoas daquele dia esperavam por Unknown Mortal Orchestra, tiveram o que queriam: um concerto incrível onde ambas as partes contribuíram para começar a haver finalmente calor humano no habitat natural da música. Orelha Negra surgem como últimos no palco principal, onde conseguiram manter o calor dito anteriormente, mas não fizeram muito mais que isso.


O segundo dia acabou por ser um dos melhores. Dizer isto quando se esperava há meses por LCD Soundsystem parece banal, mas a verdade é que existiram concertos (incríveis) para além deles. Para mim o dia começou com Sleaford Mods que começou a encher o recinto com um espaço bastante minimalista ocupado dentro do palco. Se o ambiente de festival começa a fermentar neste concerto, imagine-se em Thee Oh Sees. Já há pó pelo ar, há muito crowdsurf e o público desperta para aquele que foi dos melhores concertos do festival.

Claro, acabar o resumo do segundo dia com LCD Soundsystem soa-me bastante justo de tão ansiosa que estava pelo concerto. Começar a ver o palco encher-se com tudo o que era preciso para um concerto memorável começou a deixar um nervoso miudinho de quem queria demasiado vê-los antes de decidirem não fazer mais nada outra vez. O concerto começa e eis um nome, um concerto, um público inteiro digno de um grande cabeça de cartaz. Este último, de variadas idades, percebeu perfeitamente que seria um dos melhores concertos do cartaz de este ano (e na minha opinião um dos melhores que já vi na vida). E eis uma bola de cristal gigante que fez toda a gente dançar ainda mais; e umas projeções e efeitos das câmaras de outro mundo. A banda de James Murphy mostrou versões bem diferentes das dos álbuns e eu não sei explicar o quão bem eles conseguiram fazê-lo.


Depois de um segundo dia assim, o terceiro não poderia ficar atrás. Para mim o dia no recinto começou com First Breath After Coma, amor que começou há dois anos, precisamente no mesmo sítio. Mas na verdade, o dia para mim começou a sério com outro dos melhores concertos do festival. Sem paragens, com uma genialidade de outro mundo, King Gizzard and The Lizard Wizard apresentaram o Nonagon Infinity, o seu álbum mais recente que, se em estúdio já é incrivelmente complexo, ao vivo foi de outro mundo. Na verdade vi-os sem conhecer muito deles e perceber que depois de um concerto só queres ouvir mais faz-te perceber que o concerto foi fantástico. O recinto voltou a tornar-se numa tempestade de pó e gente a ser agarrada por seguranças depois de chegarem ao fosso. Um dos concertos mais esperados por mim acabou por ser uma pequena desilusão. De t-shirt vestida pronta para a festa, esperava pelos The Vaccines para vê-los pela segunda vez, na esperança que até fosse melhor que o primeiro a que assisti (no Super Bock Super Rock de 2015). Mesmo sendo uma fã daquelas a sério de Game Of Thrones, a entrada deles em palco com a música de abertura da série fez com que todo o público cantarolasse mas não passou muito disso. As músicas do álbum mais recente passaram todas ao lado da maior parte e só as mais conhecidas se ouviam cantadas em coro. Por último, outros cabeças de cartaz que muitas pessoas esperavam: Cage The Elephant. Na verdade só vi o fim do concerto e do pouco que vi percebi que é provável ter sido também um dos que o público mais gostou. Tanto a banda como o público estavam irrequietos, as musicas eram cantadas por todos e ouviam-se por todo o recinto o coro do público frenético por ver a banda. Esta considera o Paredes de Coura o seu festival preferido do mundo todo e até percebo o porquê, Portugal gosta deles da mesma forma.


O último dia já soa a despedida e começa-se a ver gente ao fim da tarde a preparar tudo para, no dia seguinte, provavelmente de direta, arrancar para casa e abandonar mais uma edição memorável do Paredes de Coura.

A última noite foi de poucos concertos para mim e começou com os Capitão Fausto. Sempre presentes no festival, desta vez tocaram no palco principal e tiveram um público bem recheado para a hora que era. Cigarettes After Sex era uma das minhas maiores curiosidades para ver ao vivo. Não desilude, mas ainda assim pedia um sítio mais fechado e intimista, coisa que se perdeu com o movimento que há sempre pelo festival. Outros dos concertos de que esperava bem mais seria da banda com o nosso país no nome. Ainda que digam que sem nós, eles não podiam ser quem são, os Portugal. The Man deram dos concertos mais confusos do festival. Entre algumas músicas em que o público despertava e outras em que a multidão se limitava a olhar (nem que fosse para as projeções que vá, estavam muito boas se não fossem sempre repetidas), o recinto estremeceu e entoou quando a banda de John Baldwin relembra Oasis com uma versão até bastante agradável de “Don’t Look Back in Anger”. Acabei o festival a ver CHVRCHES ao longe. Não por odiar, mas por achar que não passa de mais do mesmo neste último álbum, que nem chega a ter nenhuma música que fosse tão sonante como muitas do álbum anterior.

Acabou mais uma edição do Paredes de Coura, e as saudades já cá estão um mês depois. O Couraíso espera-nos para o ano, venham mais cartazes, mais amigos, mais bons momentos no rio em 2017!

Texto: Raquel Nunes
Fotos: Hugo Lima


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