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After show

O maravilhoso mundo de Paredes de Coura

Nos dias 29 de Julho a 1 de Agosto, cumpriu-se mais uma edição do carismático Festival de Paredes de Coura. O saldo é positivo e as expectativas largamente ultrapassadas, com margem para além de um cartaz de luxo. No território com alma houve espaço para momentos inesquecíveis nos palcos principal e after hours, nos acampamentos, nas agradáveis margens da praia fluvial e no centro da vila. Na verdade, Paredes de Coura, em dias de festival é tudo isto, embrulhado num espírito de entrega ao evento, pela sede das actuações e animação constante. Durante uma semana, a vila Minhota é lar acolhedor. A ameaça da chuva vive-se com a convicção num impermeável e o frio (nocturno) combate-se com lugar marcado na multidão que se estende pelo magnífico anfiteatro natural, ou no sempre animado palco after hours. Este último com grande inovação de uma tenda que tornou o espaço ainda mais acolhedor.
Foram em média 23 000 pessoas que não quiseram passar um ano, longe de um festival que ganha corpo de um grande festival.

O primeiro dia começou com a já tradicional recepção ao campista. O palco after foi o local eleito e a noite começou com Sean Riley and the Slowriders, a promover o mais recente álbum “Only time will tell”. A banda de Coimbra desafiou a super lotada plateia para aproveitar o melhor dia de festival, o 1º e aquele em que todos estão, ainda, com toda a energia. Os momentos altos aconteceram nos temas “Harry rivers” e “Houses and wives” e a tenda foi ao rubro com “Got to go”. O público respondeu ao desafio e prestou merecido agrado à banda. No ano passado os Sean Riley and the Slowriders tocaram no extinto palco Ibero Sounds, e no futuro já merecem o principal. Seguiram-se os Strange boys, oriundos do Texas. Se a reacção inicial foi estranha, o que é certo é que a actuação evoluiu para o estado seguinte, e foi visível a crescente curiosidade ao estilo e à voz de Ryan Sambol. A sonoridade destes rapazes, condimentada pelo blues e folk, não esconde no final um sabor intenso a punk e isso agradou aos campistas.

No entanto, os festivaleiros agarrados às grades estavam a garantir o melhor lugar para o que se seguia. Patrick Wolf era a grande expectativa, e deste entertainer esperam-se sempre boas canções e grandes momentos de palco. As expectativas não foram defraudadas, e este foi o momento alto da noite. A tenda after, tornou-se pequena para tamanha adesão à actuação. Patrick Wolf entrou em palco triunfante levando todos ao rubro nos primeiros rasgos electrónicos. Com indumentária a sugerir uma personagem élfica, o alinhamento foi percorrendo as ondas clássica e electrónica já conhecidas do seu trabalho discográfico, sempre acompanhado pelo excêntrico comportamento em palco. Partick Wolf é personagem camaleónica e no final, já só em calções fez tremer o chão em “The magic position”. O público passava largamente o limite da tenda e as mesas e bancos ali colocados foram tomados de assalto para que nada se perdesse.
“White Winter Hymnal” dos Fleet Foxes foi o mote oferecido pelo set dos Bons Rapazes, com Miguel quintão nos pratos e Álvaro Costa a animar. O palco after rendeu-se às propostas do set e durante duas horas ninguém arredou pé.



O segundo dia do Paredes de Coura 2009, nasceu com o sol alto e com vista fantástica para o anfiteatro. The Temper Trap tiveram direito a plateia bem composta. A banda Australiana, em estreia nacional, respondeu bem à inauguração dos concertos no palco principal, e apresentou o talentoso disco editado este ano, de onde se extrai o agradável single “Sweet disposition”.
The pains of being pure at heart, também em estreia nacional, trouxeram-nos o rock indie de influência Nova-iorquina, numa aparição marcada por alguma timidez, mas por muita simpatia.

The Horrors entraram em cena no cair da noite, ambiente propício à imagem obscura de todos os elementos da banda. Visualmente criaram grande impacto no palco principal de Coura, e a curiosidade na sonoridade punk melancóquica deixou vontade de os voltar a ver.
Seguiram-se os senhores Supergrass, nascidos nos anos 90. O dia de estreia do Nokia on play, trouxe uma mão cheia de inéditos em palcos lusos e a banda de Oxford correspondeu à premissa. A actuação viajou entre o muito conhecido “She’s so loose” e temas mais recentes do “Diamond hoo ha”. Paredes de Coura esteve à altura do entusiasmo no palco, mas o grande momento da noite ainda estava por acontecer.

Fechando em grande apoteose, os Franz Ferdinand compensaram o “desastre” do Sudoeste de 2008, marcado por incontroláveis problemas de som. Alex Kapranos entrou em palco a falar português correcto, e a entrega do público foi total. Apesar do novo trabalho discográfico, esta actuação foi encarada pela banda como o grande momento para a legião de fãs nacionais. “Bite hard” e “No you girls” deram o mote à actuação e “This fire” foi pela primeira vez tocado ao vivo em Portugal. Em actuações anteriores, a banda silenciou este tema como forma de protesto às vagas de incêndios que arrasavam o país. O público acompanhou o alinhamento a rigor com descontrolados moches, constantes momentos de crowd surf, palmas e vozes em uníssono. Não iremos esquecer, com toda a certeza, a energia sentida no “I love the sound of you walking away”.
No final da actuação os elementos da banda apoderaram-se da bateria de Paul Thomso, e todos se renderam ao magnífico momento de cumplicidade. Já em encore “Ulysses” permitiu que o público provasse a energia de Paredes de Coura, que ainda encontrou forças para manter os braços em riste, e marcar este concerto para a história da banda e para um dos grandes momentos a recordar , sempre, deste festival.
Seguiram-se os Chew Lips e Holy Ghost, para os amantes do palco after.



Com a já conquistada irreverência e apelando à (des)construção de imagens e mitos filosóficos, Mundo Cão sobe ao palco para iniciar o 3º dia de concertos. Pedro Laginha, acompanhado pela banda de Braga, e já repetentes em Paredes de Coura, confirmaram a mensagem da “Geração da Matilha” que se move entre os inconformismos do comportamento de massas e dos sentimentos que se compram.
Os Portugal the man não explicaram o nome da banda, mas afirmaram que “We love Portugal, the country”. O público gostou, mas era nítida a expectativa geral para a última actuação da noite. Passeavam, neste dia, em solo minhoto, milhares de T-shirts com a inscrição NIN.

Em seguida os Blood Red Shoes encheram o palco. A voz e a guitarra de Laura Mary Carter estiveram à altura bem com a energia electrizante da bateria de Steven Ansell. Foi um puro momento de rock alternativo e punk rock, característico da banda e dos temas do “Box of secrets”.
Já havia decorrido meia edição do festival e a satisfação sentia-se no ar. Colina acima e colina abaixo, os festivaleiros já coleccionavam grandes momentos de palco e de ambiente à boa maneira de Paredes de Coura.

Surpreendentemente, Peaches entrou em cena a prometer um espectáculo inesquecível. E se este foi o prelúdio da sua aparição, a meio do concerto o objectivo já estava garantido. Animal de palco, selvagem, desinibida, provocadora, malabarista, interventiva, Peaches foi tudo isto e muito mais. O Nokia on play não foi suficiente para mostrar o quanto estava a gostar de ali estar. Para além de ter subido a estrutura do palco e saltar para o alto de uma coluna a gritar “I love you”, mergulhar para os braços do público foi um dos momentos quentes da actuação. A canadiana, que actualmente reside em Berlin, perfumou o ambiente com intensos aromas electrónicos e com a necessária dose de irreverência, que tão bem a caracteriza.

Depois de montada a parafernália de luzes e a visível inquietação da multidão, eis que chega o grande e esperado momento da noite. O fantasma de uma hipotética última oportunidade de ver os Nine Inch Nails em Portugal, levou milhares de pessoas a assistir ao concerto. Trent Reznor entrou em palco igual a si próprio, recebido em generalizado delírio. O ambiente provocado pelos sons de rock industrial estava perfeito e garantido. A digressão intitulada “Wave Goodby” trouxe no alinhamento passagens obrigatórias por “Head like a hole”, “Wish” e “March of the pigs” vividas com total intensidade e moches constantes; e “La mer” e “Gone still”, com a banda mais introspectiva e concentrada na melancolia inquietante do seu líder. Trent Reznor não se conteve em comentar a beleza do local, bem como a recepção do público português. “Hurt” marcou o final da passagem de NIN por Paredes de Coura e ficou também como um grande momento deste festival.
Quem ainda teve forças e energia pôde viver a loucura de Kap bambino no palco after, seguidos do set Punk Jump Up. A prometida chuva acompanhou este final de noite, deixando no ar alguma inquietação para o dia seguinte.



Quem decide ir ao festival de Paredes de Coura, tem prioridade em incluir na bagagem o impermeável, isto porque a ameaça de chuva não é impeditiva de lá ir. Mas, o que é certo é que se vive melhor sem ela, e para o último dia as rezas foram ouvidas e confirmadas. À hora do primeiro concerto no Nokia on play não chovia e eram escassos os indícios de chuva.
Manuel cruz aproveitou as abertas de céu azul e encontrou, no anfiteatro natural uma plateia numerosa que confortavelmente se sentou a ouvir as palavras de trovador do futuro. O projecto Foge foge bandido é original, emotivo, e não deixa ninguém indiferente. Será, com toda a convicção fonte de inspiração para novos projectos de amantes da música.. O ex líder dos Ornatos Violeta tocou de tal modo no âmago da assistência, que o encore foi implorado e curiosamente concedido.

Os espanhóis The Right ons, deram continuidade às actuações do palco principal e animaram o final de tarde. Os resistentes que marcaram, diariamente, lugar em frente às grades reagiram com euforia às investidas desta banda que deambula por caminhos de rock, soul e blues. A chuva de maracas provocou um momento de festa na frente de palco, partilhada pela banda.
A esta altura já se sente resistência ao cansaço, é o quarto e último dia consecutivo com uma “barrigada” de concertos e duas mãos cheias de histórias para contar e recordar.

Howling Bells foram recebidos com agradável surpresa, permitindo um verdadeiro momento de relaxe e contemplação. A beleza de Juanita Stein é coerente com a sonoridade de indie rock melancólico, e o sentimento de puro orgulho português sentiu-se quando a própria confidenciou que nunca tinha actuado num festival tão belo.
Já com a noite cerrada, surge em palco a simpática e até cómica figura esguia de Jarvis Coker. O ex-vocalista dos Pulp criou uma curiosa sintonia com o público simulando uma chamada aleatória por nomes próprios, alguns deles em Português. Foi para muitos um dos melhores concertos do festival. No seu actual papel de cantautor Jarvis Coker foi excêntrico na atitude e acutilante nas palavras e contou histórias de amores desastrosos. Para quem temia um último dia de festival menos poderoso nas propostas, a surpresa era evidente e o sentimento de satisfação e de já nostálgica despedida estavam instalados.

De rompante, após uma estranha e longa espera, os The Hives assaltaram o Nokia on play. Já são repetentes em palcos nacionais, mas, mas a actuação em Coura fica marcada pela forma como incendiaram a plateia. Howlin Pelle, o vocalista da banda sueca, ameaçou e cumpriu com verdadeiros morteiros de rock. A loucura estava instalada e foi uma grande despedida do palco principal. Todos responderam, sempre, aos chamamentos de Ladies and Gentlemens e os momentos de explosão aconteceram em “Walk idiot walk”, “Hate to say i told you so” e “Tick tick boom”. Já em momento de encore, os The Hives entoaram de forma memorável o “Return the favour” até à última gota de sangue.

O palco principal ficou deserto passados 10 minutos, e a imensa moldura humana que vibrara durante 4 dias consecutivos na 17ª edição do festival, rumou ora aos acampamentos, ora à zona de restauração e fast-food ou ainda ao palco after onde se preparavam os remates finais.
Os Sizo, banda da cidade Invicta, tiveram o papel de fechar os motes de rock propostos pela organização. Ainda com alguma velocidade dada pelos The Hives, os Sizo arrebataram uma composta participação.
Ao Nuno Lopes coube a tarefa de entreter os resistentes até à madrugada com sons de electrónica, e hábil mistura pop.

Apesar dos nítidos sinais da “maldita” crise e a nítida ausência de um patrocinador de peso para a promoção do evento, Paredes de Coura foi um dos momentos mais consistentes do panorama musical deste ano. Para 2010 as datas estão garantidas e o encontro ficou marcado para o mesmo local entre 28 e 31de Julho.

Texto e Fotos: Carla Tiga

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