Aftershow

Crystal Castles

Quase todo o público estava incerto sobre o que se ia passar a seguir, ao entrarem na sala principal do Hard Club na passada quarta-feira. Para os mais esquecidos, convém relembrar que os Crystal Castles sofreram alterações importantes, após a saída da vocalista, Alice Glass, causando a divisão da legião de fãs que criara um “culto” em redor da dupla. Muitos tomaram o partido de Alice, que nos finais de 2014 anunciou o “fim da banda” justificando a impossibilidade de “sinceridade, honestidade e empatia” na sua arte e auto-expressão dentro dos Crystal Castles. No entando, 5 meses depois, o produtor e fundador da banda, Ethan Kath lançou um novo single, “Frail”, com a nova vocalista, Edith Frances, seguido de outros novos singles até ao lançamento do 4º álbum, Amnesty (I).

Esta divisão dos fãs da banda foi visível no concerto de quarta-feira, principalmente em comparação com o último concerto do grupo no mesmo local. O público presente na passada quarta-feira era pouco mais de metade do público que compareceu ao concerto da banda em Fevereiro de 2013.
A perda foi deles, não sabem o que perderam. Embora o público tenha sido consideravelmente mais pequeno, e a atmosfera tenha sido, por consequência, muito diferente do habitual nos seus concertos. Tradicionalmente mais “apertados” e até um ponto agressivos, principalmente pelo facto de a anterior vocalista passar grande parte do concerto em cima do público (literalmente), este concerto foi muito mais “aberto”, deixando o público muito mais confortável, o que foi um fator positivo, embora um pouco mais de agressividade tivesse sido bem vinda. Este fator, porém, permitiu ao espetador desfrutar muito mais do concerto, a nível musical, por não estar constantemente a ser empurrado ou dar por si num local completamente diferente de onde estava anteriormente, de cada vez que Alice se lembrava de vir ao público.

A outra diferença, ou semelhança, que mais se fez notar no concerto, foi obviamente a vocalista. Embora muitos afirmem que Edith seja uma “cópia barata” de Alice, pôde constatar-se que isso não é, de todo, verdade. Como é óbvio, há semelhanças, como o tipo de voz ou em alguns pontos a postura em palco. Convém lembrar, porém, que Alice, que se juntou em 2004 à banda, foi aquilo que fazia sentido nos Crystal Castles, que começaram por ser um projeto a solo de Ethan, ainda em 2003. Assim, faz todo o sentido que o fundador da banda procurasse alguém que se enquadrasse nesse perfil, assim como o tinha feito anteriormente com Alice. No entanto, há diferenças claras na postura das duas, desde o facto de Edith raramente se deslocar ao pé do púbilico a preferir passá-lo em cima das estruturas do palco ou a encharcar-se de água, antes de encharcar por sua vez os epetadores. Embora se tenham ouvido comentários acerca da autenticidade da sua postura em palco, a minha impressão é de que esta é tão genuína quanto a de Alice Glass.

De volta ao concerto, a banda decidiu abrir com um excerto do “Requiem” de Mozart, o que, depois de uma longa espera pelo atrasado início, arrepiou o público que excitou para o início de um concerto de que não sabiam o que esperar. Como é óbvio, o novo álbum, Amnesty (I) foi a atração principal, começando com um dos primeiros singles, “Concrete”. Desde “Enth”, “Frail” a “Char”, os Crystal Castles mostraram como a saída da vocalista não afetou minimamente a qualidade musical do grupo em palco. Para contentamento do público, a banda tocou vários hits de álbuns anteriores, como “Baptism”, “Celestica” ou “Suffocation”, antes do momento comum a todos os concertos em que tanto Ethan como Edith fazem a passagem por vários hits por trás de um sintetizador, tocando músicas da autoria de Ethan como “Telepath” ou a célebre “Untrust Us”. O concerto atingiu o ponto alto na última música, com a “Not In Love”, deixando o público ao rubro e terminando o concerto da melhor forma possível.

Em resumo, embora a atmosfera dos seus concertos se tenha alterado bastante, com tantos pontos negativos como positivos, os Crystal Castles provaram que não perderam qualidade e que continuam e vão continuar a proporcionar concertos que darão muito de falar nos dias que se seguem.


Texto: Pedro Soares

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