Blast Zone

Lemmy

Escrever sobre Ian Fraser "Lemmy" Kilmister nunca será fácil, pois a sua imagem é por demais omnipresente na cultura Rock, e, de uma forma mais recente, em alguma cultura Pop. Roadie nos finais da década de 60, Lemmy ainda teve tempo de ajudar Hendrix, o que marcou a forma como usava o seu Rickenbacker. Com os Pink Floyd certamente partilhou as drogas, as mesmas que o fariam ser preso algures na fronteira entre Canadá e Estados Unidos, numa digressão dos Hawkwind, banda que integrou entre 72 e 75, depois de ter passado pelos The Rockin' Vickers e Sam Gopal.

Para os Hawkwind contribuiria com diversos temas, entre eles, “Motörhead”, malha que depois daria nome ao trio com que se imortalizou. Em plena explosão do Punk, o contrato de Motörhead com a EMI parecia garantia de futuro, mas o disco não foi editado – anos mais tarde, com o sucesso do grupo, acabaria por ver a luz do dia - e o trio reformulou-se e mudou de editora. Entre 77 e 81, o trio formado por Lemmy, Philthy Animal Taylor (falecido ainda este Novembro) e Fast Eddie Clarke gravaria quatro discos de estúdio e um live que marcaria todo um som e estilo em que Blues, Rock, Punk e Metal se cruzavam: “Motörhead” de 77, “Overkill” de 78, “Bomber” e “Ace of Spades” de 79 e “No Sleep 'til Hammersmith” de 81. A isto se juntaram Ep’s como “Beer Drinkers & Hell Raisers” ou “St. Valentine's Day Massacre”. Ao contrário de hoje, as malhas e clássicos não se limitaram aos temas título, por muito icónicos que “Overkill” ou “Ace of Spades” sejam. Na sua autobiografia, Lemmy diria mesmo que depois disso ainda escreveu muitos grandes temas, mas seria esse período que marcaria as várias gerações de fãs e três quartos de qualquer set dos Motörhead integrava obrigatoriamente temas dessa fase.

António Sérgio, do saudoso Lança-Chamas, entre outros programas de rádio, seria a primeira pessoa a introduzir a banda por cá, ao colaborar na edição do disco “Punk Rock New Wave 77”, de 78, da editora Pirate Dream com nomes como Sex Pistols , The Jam , Motörhead ou Generation X. A vinda do grupo a Portugal só ocorreria em 88, primeiro no Dramático de Cascais e no dia seguinte no Porto, no Pavilhão Infante de Sagres. Seria também a única vez que os Motörhead tocariam por cá em formato de quarteto, pois voltariam a ser um trio no período posterior, fosse em 99 no Coliseu dos Recreios de Lisboa, na passagem, em 2004, pelo festival Paredes de Coura, 2007 na concentração motard de Faro ou, finalmente, em 2010, no Rock In Rio em Lisboa. Retenho uma pequena história passada em Paredes de Coura, numa edição em que choveu copiosamente , ao ponto do festival estar à beira do cancelamento. Lemmy subiu ao palco e anunciou algo como “We are Motörhead and we came to stop the rain”. Ao fim da primeira música a chuva parou mesmo. “Did you see? It stoped”, comentou o vocalista. Algo de divino se tinha passado naquele momento.

Ozzy Osbourne, Doro Pesch, Slash, Nina Hagen, Ramones, Dave Grohl e muitos outros, quiseram-no como guest vocalista em temas seus, da mesma forma que fez diversos cameo em vídeo-clips – Doctor And The Medics, por exemplo – ou filmes, dos quais, os da Troma serão os mais conhecidos. Para lá disso uma foto com Lemmy era um certificado de status para qualquer banda Rock. É por tudo isto que a carreira de Lemmy ultrapassou largamente os 23 álbuns de estúdio, os inúmeros live, infinitas guest appearances, as longas-metragens como “Eat The Rich” e até, na fase final, ultrapassou a mascote war-pig como imagem de reconhecimento dos Motörhead.

O gosto por álcool e drogas nunca foi escondido, bem como pela companhia feminina, mais não fosse, para ter alguém com quem falar. Nos últimos anos as sucessivas doenças viriam a levar a diversos concertos cancelados, embora agendasse sempre digressões, estando a próxima anunciada para inícios de 2016, com Girlschool e Saxon, promovendo o trabalho de 2015, “Bad Magic”.

Nascido a 24 de Dezembro de 1945, teve uma mega festa de 70 anos com diversos músicos convidados. Dias depois era-lhe diagnosticado um cancro terminal. “Faleceu” dois dias depois a 28 de Dezembro. As aspas são de propósito… um imortal nunca morre. Lemmy Kilminster, Born To Loose, Live To Win! ☆

Emanuel Ferreira

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