Reverence Festival
Santarém, 8 e 9 de Setembro, 2017

Após ter ganho uma excelente projecção no campo do Rock, Stoner e Psych, o Reverence mudou-se de Valada para as margens do Tejo, em Santarém. Tal como nas edições anteriores, o cartaz apostou em bandas na ordem das dezenas e num horário prolongado, a prometer mais de doze horas de música por dia. Tanta quantidade implicaria, logo à partida, perder alguns nomes, mas nunca atrasos significativos no decorrer do evento.
A nova localização deste ano mostrou, no aspecto do campismo, necessitar de melhores condições, como chuveiros e outras facilidades, além de segurança. No espaço do recinto, a oferta revelou-se demasiado pobre, com dois palcos e alguns bares, sem espaço para convívio, com uma oferta reduzida de comida e merchandise. O pouco público presente, que no segundo dia dificilmente terá ultrapassado o milhar, levou a que muitos serviços fechassem cedo, ao ponto de, no segundo dia, mais de metade dos bares e barracas de comida já estarem fechadas várias horas antes do evento encerrar.

A chegada deu-se ao som de Tren Go! Sound System e ainda a tempo de assistir à primeira grande banda da noite, Oathbreaker, que foram sofrendo diversos problemas ao longo da performance. O concerto revelou-se interessante, apesar de ainda assente no mesmo disco que os trouxe cá por duas vezes, e com os problemas de som referidos, a voz de Caro a ficar diversas vezes abafada pela restante banda, perdendo assim a intensidade que se esperava deles. Zarco, no palco Tejo, revelou-se uma péssima escolha e algo deslocados entre os dois nomes do palco Sabotage. Amenra foi a missa que todos esperavam e não desiludiu os muitos fãs que os aguardavam, excepto pela ausência de temas do novo disco. A banda primou pela intensidade habitual, embora com um Colin mais visceral que em anteriores actuações. Sem dúvida, o melhor concerto do festival, o que atesta sobre a qualidade dos belgas, mas também sobre a menor qualidade que o cartaz se revelou.
Wildnorthe (Tejo) revelaram-se curiosos, enquanto Moonspell foram um erro de casting, não só porque o show que traziam era demasiado grande para o espaço físico do palco fornecido, mas também por se revelarem um pouco outsiders para o público daquela noite. No resto, foram iguais a si próprios, com uma actuação idêntica às dos últimos concertos em Portugal. Já num horário tardio, os Névoa mostraram a sua singularidade, mas, apesar do bom concerto, o público já demonstrava cansaço face ao adiantar da hora, pois por esta altura as actuações levavam quase duas horas de atraso. Foi pena para os energéticos japoneses, residentes em Londres, Bo Ningen, com o recinto a ficar cada vez mais vazio. Reza a história que seriam já sete da manhã quando 10 000 Russos se despediram de uma plateia com menos de cinquenta pessoas.

O segundo dia já foi enfrentado sem o sorriso de quem vem a um festival para passar um bom bocado, por isso Asimov foi esquecido e Sienna Root actuava no palco Sabotage quando se chegou ao recinto. No palco Tejo actuaram os Conjunto!Evite, no mesmo palco onde os Cows Caos se revelaram uma banda para sessões de strip e depois se recauchutariam para uns Pás de Probleme, que não passaram da piada do primeiro tema. Entretanto no palco Sabotage actuaram uns muito interessantes Träd, Gräs Och Stenar, com um rock misto de folk e psych. Os “cabeças-de-cartaz” dessa noite, Gang Of Four, mostraram porque nunca deveriam ter tocado naquela posição, com um set tão curto como pouco emotivo e um pouco deslocados da (pouca) coerência do cartaz. Os muito esperados Mono actuaram para uma plateia enregelada, que se dividia entre os que sabiam ao que iam e os que esperavam alguém aos saltos. Tal como os outros grupos que tinham integrado edições recentes do Amplifest, o concerto não se revelou muito diferente do visto nesse festival nortenho, a perder apenas com o soundcheck que se ia ouvindo de fundo, no palco Tejo e que quebrava os momentos de maior intimismo. Is Bliss e Hills foram bandas de passagem para uns sempre interessantes Löbo. Esben and the Witch foram a derradeira banda a ver neste festival, já pelas quatro da manhã, numa actuação morna, e agradecendo aos fãs mais resistentes que os aguardavam, num dia em que novamente os injustificáveis atrasos ultrapassaram a hora e meia.

Um festival que acabou a revelar-se um erro a que dificilmente se deverá retornar, faltando saber se ele próprio terá nova edição.☆

Rita Afonso


      



Oathbreaker


Oathbreaker


Oathbreaker


Oathbreaker


Amenra


Amenra


Amenra


Amenra


Wildenorthe


Wildenorthe


Wildenorthe


Wildenorthe


Moonspell


Moonspell


Moonspell


Moonspell


Névoa


Névoa


Névoa


Bo Ningen


Bo Ningen


Bo Ningen


Bo Ningen


Cows Caos


Cows Caos


Cows Caos


Cows Caos


Pás de Problem


Pás de Problem


Pás de Problem


Pás de Problem


Träd, Gräs Och Stenar


Träd, Gräs Och Stenar


Träd, Gräs Och Stenar


Träd, Gräs Och Stenar


Mono


Mono


Mono


Mono


Löbo


Löbo


Löbo


Löbo


Esben and the Witch


Esben and the Witch


Esben and the Witch


Esben and the Witch

Emanuel Ferreira

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Dream Theater

2017.04.30- Coliseu, Porto

Foi um Coliseu praticamente esgotado, que recebeu os Dream Theater, a propósito do aniversário do lançamento de “Images And Words”, mas a primeira parte destinava-se a celebrar o passado mais recente do quinteto norte-americano, com temas como “The Dark Eternal Night”, a arrancar, “The Bigger Picture”, “Hell's Kitchen”, “The Gift of Music” e “Our New World”, após o qual o baixista John Myung fez uma bass cover para “Portrait of Tracy”, de Jaco Pastorius. Veio “As I Am”, o tema mais pesado da noite que, pelo meio, deu direito a uma pequena versão de “Enter The Sandman” dos Metallica. Num palco sóbrio, com um sistema de luz eficaz e contido, os músicos foram evoluindo ao longo dos temas, encerrando a primeira parte com “Breaking All Illusions”.

Após um intervalo, um jingle radiofónico, levava todos até um distante 1992, com passagem de temas da época, que culminou em “Pull Me Under”, o mais bem sucedido single do grupo até à data. Como James LaBrie viria a recordar, os temas contidos neste pedaço de rádio, mostravam os nomes contra quem os desconhecidos Dream Theatre tiveram de batalhar em 92. Seguiram-se os temas de “Images And Words”, por ordem de apresentação, com um solo de bateria, em “Metropolis Pt. 1: The Miracle and the Sleeper”, a cargo de Mike Mangini, substituto de Mike Portnoy, que a par de Rudess fazia o par de músicos, presewntes no Coliseu, que não integrava a banda em 92. Pelo meio, Labrie foi contando histórias, secundado por um Jonh Petrucci muito bem-disposto.

Finda a execução na íntegra de “Images And Words”, veio o intervalo e em jeito de encore, o colectivo apresentou o Ep “A Change Of Seasons” também na totalidade resultando tudo num concerto de quase três horas, e numa daquelas noites de que daqui a anos ainda se estará a falar. ☆















Emanuel Ferreira

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The Dictators NYC + Vürmo

2017.04.14- Cave 45, Porto

Foi um pouco da história do Rock, em particular do Punk norte-americano que passou no domingo de Páscoa pelo bar portuense. Os Dictators estão algures entre o proto punk de uns MC5 ou Stooges, da cena Rock de Detroit, na viragem dos 60 para os 70, e o movimento punk de uns New York Dolls e Ramones que por volta de 72 a 73 se foi formando à volta do CBGB, um bar que o vocalista Handsome Dick Manitoba não se esqueceu de recordar, referindo terem sido dos primeiros a lá tocar.

As voltas do tempo levaram a que o grupo ficasse um pouco na sombra do movimento e se desmembrasse, com Ross The Boss a fundar os Manowar e o baixista Mark Mendoza a ingressar nos Twisted Sister. A reunião a partir de 91 começou lenta, mas com o regresso de Ross ganhou outra dinâmica.

Em palco, Manitoba revelou-se um furacão, algures entre o pregador, vendedor de banha da cobra e pugilista, mostrando como a dimensão do clube é à sua medida, pois seria difícil imaginar o vocalista a mover-se no público, exibir as suas tatuagens e colares do cimo de um palco de festival. De “Master Race Rock” a “Kick Out The Jams”, foi toda uma sucessão de malhas e boa disposição, que já tinha começado na actuação dos Vürmo.

Ficou anunciado o regresso para 2018, embora já sob o nome Manitoba, já que razões legais obrigaram primeiro a uma mudança de nome para Dictators NYC e agora para Manitoba. O nome poderá mudar, mas o Rock é o mesmo!☆

























Emanuel Ferreira

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Russian Circles no Hard Club

Russian Circles + Cloackroom + Putan Club
2017.03.11 - Hard Club, Porto

A noite estava anunciada para dois nomes numa sala do Hard Club. A demanda, tal como no dia anterior com Stoned Jesus, levou a que a escolha final recaísse numa sala 1, que recebeu cerca de 800 pessoas.
Talvez por isso, ou talvez porque a oportunidade surgiu, a Amplificasom resolveu brindar o público com um nome extra, os franco-italianos Putan Club, que regressavam ao Porto com o seu Rock Manifesto. De um lado da sala, a baixista Gianna Greco, percorrendo o público, flirtando com a audiência; do outro lado, o guitarrista François R. Cambuzat, visceral, ocasionalmente defrontando-se com a sua colega, menos interativo com o público mas igualmente cativante. Rock genial e uma excelente surpresa para iniciar a noite!

Mais sensaborão, depois da descarga de Rock anterior, revelaram-se os norte-americanos Cloackroom, numa miscelânea de estilos que tanto roçava o post-rock, como o indie e shoegaze. Talvez pelo tipo de sonoridade, o trio de Indiana esteve longe de entusiasmar o público em letargia, mesmo que na frente se percebesse terem alguns fãs. Um nome que não traz nada de novo ao género e soou desinspirado, talvez mais interessante num qualquer festival de verão. Finalmente os Russian Circles, mais uma vez de volta ao Porto, escondidos atrás da música e deixando que esta falasse por eles. Depois de “Asa” para iniciar, a sísmica “Vorel”, com uma percussão irrepreensível mas onde a guitarra ligeiramente baixa não deixou sentir a intensidade de uma das melhores faixas de Guidance. O setlist incluiu temas não só do último álbum, como “Afrika” e “Mota”, mas relembrou também algumas boas malhas anteriores, como a desoladora “Deficit”, a crueza de “309”, “Harper Lewis” e “Mlàdek”. Particularmente bonito o solo de bateria em “Afrika”, iniciando aí talvez um dos momentos mais íntimos e intensos do concerto, que se prolongou em “Harper Lewis”. Um excelente concerto de apresentação para “Guidance”, que terminou em crescendo com a explosão de “Youngblood” como encore, com o público imerso e em sintonia até ao final.

A noite não ficou completa sem se espreitar o Radio Bar, onde os Astrodome celebravam o regresso a casa, juntamente com Solar Corona, onde deram mais um excelente concerto. ☆


Putan Club


Putan Club


Putan Club


Putan Club


Cloackroom


Cloackroom


Russian Circles


Russian Circles


Russian Circles


Russian Circles

Emanuel Ferreira

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Mangualde Hard MetalFest

Vigésima terceira edição do Mangualde Hard MetalFest, com um cartaz dividido entre bandas portuguesas na tarde e estrangeiras na noite. Devido a um atraso dos Derrame, os Machinergy de Arruda dos Vinhos tiveram assim, de abrir hostilidades com um som cru, temas cantados em português, por vezes rondando o punk. “Antagonista” foi talvez o melhor tema, a que se juntou uma versão de “I Don’t Care” dos Ramones, que passou desapercebida junto dos muitos que já estavam presentes para ver o trio.

Seguiram-se os aveirenses Estado de Sítio, mais próximos do crust punk, mas nem por isso menos interessantes, numa boa actuação do quarteto que terminou com o vocalista a cantar o último tema no meio do público. Vieram depois os Destroyers Of All, num excelente concerto, que revelou uma unidade sólida e muito interessante com um thrash/death bastante coeso. Não só foram a melhor banda nacional de cartaz, como ombrearam com outros nomes internacionais.

Atrasados, os Derrame acabaram a actuar ao fim da tarde, proporcionando uma boa ocasião para o jantar. Os Bloodhunter, vieram desde a Corunha para se intrometerem entre o cartaz nacional e mereciam uma melhor posição. Praticamente desconhecidos entre nós, apesar de já terem actuado algumas vezes e o seu primeiro disco ter sido gravado em terras nortenhas, os Bloodhunter foram chamando pessoal à sala graças ao visual da sua vocalista, que ao terceiro tema saltou para a plateia, para movimentar as hostes. Os seus potentes guturais e a qualidade dos músicos que integram o quarteto, proporcionaram bons momentos, com um som que por vezes lembra os primeiros tempos de Angela Gossow com Arch Enemy. Um grupo a seguir.

Seguiram-se os Theriomorphic que lentamente estão a regressar aos palcos e que entregaram uma prestação sólida. Pede-se apenas mais temas novos e mais rotatividade, porque já não andam longe da máquina que foram em outros tempos. Depois vieram os finlandeses Convulse, um trio que começou melódico, lento, com poucos vocais e foi crescendo para territórios do death, acelerando, incrementando as letras e tornando-se técnico. Muito interessante, embora ficasse a sensação de terem tocado mais que o desejado.

Tygers Of Pan Tang vieram fazer a festa, mostrar que o Metal clássico tem sempre uma energia capaz de mexer com todos, mesmo que isso depois não resulte tão bem em vendas ou em concertos fora de festivais. Bons músicos, máquina experiente e bem oleada, fizeram a festa e portaram-se como se fossem os cabeças de cartaz. Previsivelmente terminaram em encore com o seu único êxito, “Love Potion nº. 9”.

Holy Moses tem em Sabina Classen o centro das atenções e a vocalista, apesar dos seus 53 anos, não parou em palco e incentivou as raparigas ao stage diving, naquele que foi o concerto mais participado. Apesar disso, musicalmente revelou-se muitos pontos abaixo dos músicos que a ladearam, que surpreenderam pela qualidade de execução, verdadeiramente impressionante.

Ao fim de década e meia, Ancient Rites voltavam aos palcos nacionais, eles que já foram tão populares por cá. Infelizmente foram a decepção da noite, com Gunther Theys apenas na voz, baixo gravado e aquela sensação de já ser tarde na carreira e na noite, num cartaz que revelava ser maior que a resistência de grande parte das centenas de pessoas presentes ao longo do dia. A festa fechou com o grind dos portugueses Shoryuken, mas só para os resistentes, para a maioria já tudo estava fechado desde Holy Moses.☆


Ancient Rites


Bloodhunter


Convulse


Derrame


Destroyers Of All


Estado de Sítio


Holy Moses


Humanart


Machinergy


Theriomorphic


Tygers Of PanTang

Emanuel Ferreira

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Xeque-Mate – Um testamento musical
«Æternum Testamentum»

Trinta anos atrás, os Xeque-Mate marcaram a cena nacional com a edição de um dos primeiros discos de Hard Rock nacional, “Em Nome Do Pai, do Filho e do Rock’N’Roll”, este disco valeu acima de tudo pelo simbolismo, iniciando uma vaga de edições de vinil, com nomes como Cruise, Tarântula, Ibéria, Vasco da Gama ou V12.

O grupo terminaria pouco depois, não sem antes revelar um guitarrista que viria a marcar profundamente a cena nacional: Paulo Barros. Após décadas de silêncio, o quinteto começou a ensaiar um regresso aos palcos, primeiro de forma pontual, depois com mais regularidade. A doença de um dos seus mentores, António Soares, viria a mudar tudo.

Com o aniversário da morte de António Soares, o colectivo optou por homenagear este, publicando um longa-duração, em que estão contidas as composições entretanto elaboradas pelo guitarrista. Em seu lugar, nas gravações, uma nova esperança no campo da guitarra, Artur Capela, ladeado por Paulo Barros, este que em tempos foi o “miúdo” do grupo!

O disco, intitulado «Æternum Testamentum», recupera ainda velhos temas, regravados, como Filhos Do Metal” e “Vampiro Da Uva”, este apenas existente em formato single, e temas novos gravados ou concluídos no período que mediou de 2007 até 2015, os anos em que o quinteto andou a tocar “para amigos” e contou com a presença de António Soares na guitarra. São caso disso, temas como “A Hoste”, “Cães Que Mordem” ou “Não Sou Só Eu A Falar”.

A edição do disco coincidiu com a data do falecimento do guitarrista e, dias depois, o grupo actuava no Hard Club, acompanhado do Ensemble Vocal Notas Soltas, que iniciou o concerto cantando “Filhos Do Metal” os quais se uniram os cinco músicos e a guitarra de António Soares que desta forma assinalou como o músico permanece presente no espírito de todos. Todo o concerto foi uma celebração de um espírito que se vivia nos anos 80, não ficando de fora a saudade. Como disse o vocalista Francisco Soares, logo nos primeiros temas, “Bem-vindos aos anos 80”!

“Filhos Do Metal”, “Memória Gritante”, “Não Sou Só Eu A Falar”, “Até À Eternidade”, “Hoste”, “Escrava Da Noite”, “Cães Que Mordem”, “Eles Rondam Isto”, “Ás Do Volante”, “A.S.”, “Vampiro Da Uva”, “Paraíso, Não É preciso” foram os temas executados, concluindo-se a festa com uma versão de “Filhos Do Metal”, com Francisco na bateria e o Joaquim a tentar segurar as vocais, cantando o tema com a audiência. António Soares teria certamente gostado.

28 de Janeiro será a vez de Lisboa ter oportunidade de assistir a esta homenagem, com a passagem do colectivo pelo Stairway Club em Cascais, com colaboração de António Freitas como DJ.☆

      

      

      

Emanuel Ferreira

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Best of 2016

No final dos anos 80 comecei a fazer listas de “melhores”, coisa exaustiva, horas de preparação cuidada, retocadas e pensadas antes de divulgar. Os anos passaram e os discos são, felizmente, cada vez mais, assim como as experiências de olhar para trás e perceber o que passou ao lado, compreender como o que gosto hoje pode não ter significado amanhã, como um disco menor para mim, por ser repetição numa carreira já não ascendente, pode ser importante para quem chega pela primeira vez ao artista. E valerá mais um disco bem produzido e formatado com o poder monetário de uma editora, ou algo cru, mas com a garra de quem parte para uma carreira memorável? E aqueles grupos que não se escutam, porque nada de interessante daí vem, e uma inflexão tornou relevantes?
Fazer uma lista dos melhores, absolutista, é apenas uma medida do ego de cada um e uma forma de revelar a ignorância do resto que não se escuta. Fazer uma lista dos melhores pode, no entanto, ser uma forma de transmitir os nomes que num dado ano editaram algo e cuja experiência ao fim do ano os tornou relevantes. A experiência pode passar não só pela escuta do disco, mas também com a conjugação de ver o artista ao vivo, como neste ano me aconteceu com Neurosis.
Tenho relutância em intitular esta lista de melhores de 2016, ou sequer do meu top para 2016, mas aqui vão algumas propostas, nada mais que isso.☆


INTERNACIONAIS
1. Neurosis – “Fires Within Fires” (Neurot)
2. Cobalt – “Slow Forever” (Profound Lore)
3. Dark Tranquility – “Atoma” (Century Media Records)
4. Katatonia - “The Fall Of Hearts” (Peaceville Records)
5. SubRosa – “For This We Fought the Battle of Ages” (Profound Lore Records)
6. Anaal Nathrakh – “The Whole Of The Law” (Metal Blade Records)
7. Novembre – “Ursa” (Peaceville Records)
8. Rorcal – “Creon” (Bleak Recordings)
9. Fleshgod Apocalypse – “King” (Nuclear Blast)
10. Black Tusk – “Pillars of Ash” (Relapse Records)



NACIONAIS
1. Memoirs Of A Secret Empire – “Vertigo” (Signal Rex/Bisnaga Records)
2. Correia – “Act One” (Ed. Autor)
3. Colosso – “Obnoxious” (Ed. Autor)
4. Sinistro – “Semente” (Season Of Mist)
5. Black Bombaim & Peter Brotzmann – “S/T” (Lovers & Lollypops)





Emanuel Ferreira

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Amon Amarth, Testament, Grand Magus

10/6/2016, Coliseu, Porto

Certamente este era um dos cartazes mais antecipados para a cidade do Porto, nos últimos meses, e a escolha da sala favoreceu a oferta. Grand Magus arrancaram cedo, pelas 20h, com “I, The Jury”, tema do trabalho de 2010, “Hammer Of The North” e só à terceira música, “Varangian”, visitaram mais recente trabalho “Sword Songs”, ao qual não mais voltaram, num set em que optaram por revisitar temas mais antigos. Excelente estreia para o trio sueco, que teve em “Steel Versus Steel” um dos melhores momentos da noite. “Iron Will”, “Like The Oar Strikes The Water”e “Hammer Of The North” completaram o (curto) concerto.

Estranhamente os Testament há algum tempo quem, nas suas visitas a Portugal, ou integram posições intermédias em cartazes ou festivais, depois de há cerca de uma década serem cabeças-de-cartaz. A posição voltou a repetir-se, mas o quinteto liderado por Chuck Billy entrou forte com a faixa título do seu recentíssimo “Brotherhood Of The Snake”, ao qual voltaria mais duas vezes, com “The Pale King”, terceiro tema da noite, e “Stronghold”, já quase no final. Para os menos atentos, visitaram também o álbum de 2012, “Dark Roots Of Earth”, através de “Rise Up”, segundo tema da noite e da faixa título. A descarga foi intensa, mas curta e por cada clássico tocado na grande sala portuense, ficaram a faltar outros dois ou três. Mesmo assim, ainda houve tempo para “Disciples Of The Watch”, “The New Order”, “Into the Pit” ou “Over The Wall”, encerrando a actuação com “The Formation Of Damnation”. Faltaram muitos temas, mas o tempo era escasso, mas pelo menos o quinteto redimiu-se das menos boas actuações recentes.

Já com uma sala surpreendentemente quase completa, na plateia, os Amon Amarth foram entrando no palco, para arrancarem com “The Pursuit Of Vikings”, desde logo se percebendo o stage set bem cuidado, com a bateria assente num capacete viking, ladeado de escadas. “As Loke Falls” e “First Kill” foram os temas seguintes, vindo uma nova surpresa com “The Way Of Vikings”, em que dois figurantes ensaiaram uma luta de vikings. Com a plateia conquistada, foi uma questão de rolar malhas, enquanto backdrops alusivos às capas dos discos iam surgindo, bem como recorrentes aparições dos dois figurantes empunhando armas. “At Dawn's First Light”, “Ravens Cry”, “Cry Of The Black Birds”, “Deceiver Of The Gods”, “On A Sea Of Blood”, “Destroyer Of The Universe”, “Death In Fire”, “One Thousand Burning Arrows”, “Father of the Wolf”, com um figurante em palco, simbolizando Loki, “Runes To My Memory” foram os temas que levaram uma plateia rendida até ao final, com “War Of The Gods”. Por essa altura já era difícil perceber se era plateia ou banda que estava conquistada, face ao entusiasmo que se via em ambas as partes.
Num primeiro encore, com direito a cerveja, “Raise Your Horns” e “Guardians Of Asgaard”, foram os temas escolhidos, enquanto no segundo encore, “Twilight Of The Thunder God” foi acompanhado por um dragão, Jörmungandr, insuflável em palco, em algo que lembrou muito as lutas com Eddie nos Iron Maiden.
Uma noite memorável, com um cartaz sólido e uma banda principal que soube fazer valer o custo do bilhete!!

Emanuel Ferreira



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Max & Igor Cavalera - Return to Roots

6/11/16 Hard Club, Porto

“Roots” não é o melhor álbum de Sepultura, para a maioria de fãs do quarteto brasileiro, mas é. Sem dúvida, o mais experimental, aquele em que o grupo se vira para o Brasil, procura as raízes indígenas e faz a ponte com a nação. É também um disco inovador no panorama metálico e marca um ano complicado: O disco sairia no início de 96, a digressão mundial seria encurtada face à morte de Dana Wells, enteado de Max Cavalera e antes do ano terminar, Max abandonaria o colectivo que formara com o irmão. Será difícil de dizer se Soulfly teria existido sem “Roots”, mas é fácil afirmar que Sepultura entrou em período descendente desde aí, com novo pico uma década depois, quando Igor, o restante Cavalera, saía do grupo.

Em 2007 os irmãos reuniam-se sob o nome Cavalera’s Conspiracy onde ainda hoje permanecem, secundados pelo guitarrista Marc Rizzo e o baixista Johny Chow. Para a celebração de “Roots”, vinte anos após a edição, a formação mantém-se mas cai o nome Cavalera’s Conspiracy, ficando apenas a celebração em nome dos irmãos.

Como seria de esperar o concerto centrou-se em “Roots”, o que, para os fãs que nunca viram a formação clássica de Sepultura, poderá ter parecido pouco, pois no período dito “de concerto”, foram executadas apenas faixas do disco, pela ordem de aparição: “Roots Bloody Roots”, “Attitude”, “Cut-Throat “, “Ratamahatta”, “Breed Apart”, “Straighthate”, “Spit”, “Lookaway”, “Dusted”, “Born Stubborn”, “Jasco”, “Itsári”, “Ambush”, “Endangered Species” e “Dictatorshit”. Num primeiro encore, Max e Igor, tocaram “Polícia”, original dos Ratos de Porão, seguindo-se, já com toda a banda, “Procreation Of The Wicked”, versão de Celtic Frost gravada à época de “Roots”, e “Ace Of Spades”, um original de Motorhead que serviu como tributo a Lemmy e à banda de onde tinham retirado o nome de “Sepultura”. Um segundo encore esgotou-se numa nova abordagem a “Roots Bloody Roots”. Uma mão cheia de temas de “Arise”/”Caos A.D.”, talvez tivesse deixado mais satisfação numa actuação que se revelou curta (menos de noventa minutos) e em que se notou um Max com menos voz e bem mais lento que vinte anos atrás.

Emanuel Ferreira


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Resurrection Fest

O dia 3

Último dia do festival e nem foi preciso entrar no recinto para perceber quem ia tocar, pois uma em cada três camisolas, trazia o logo dos Iron Maiden.Todos, ou quase todos, estavam ali por eles. Talvez por essa razão, os Nashgul tenham saído tão mal dispostos do palco, vociferando algo como “y se acaba esta mierda!”.

Antes já tinham tocado, no mesmo palco, os Cannibal Grandpa, mas as primeiras atenções viraram-se para os surpreendentes Wild Lies, com um bom Hard Rock, a actuarem no palco principal. Neste mesmo palco, seguiu-se a actuação dos The Raven Age, quinteto britânico onde pontua o guitarrista George Harris, filho de Steve Harris. Família à parte, o grupo valeu por si, e só o pouco impacto mediático os levou a tocar tão cedo.

Os Obsidian Kingdom foram dos nomes mais deslocados no cartaz, tocando demasiado cedo e claramente num palco em que não estavam à vontade. Pena, pois o seu death prog revelou-se interessante, embora perdendo gás muito rapidamente, e tudo funcionaria melhor num pequeno clube.

A presença de Maiden voltou a sentir-se com os Destruction muito recuados no Main Stage, num concerto eficaz e apenas isso, enquanto Thy Art Is Murder conseguiram trazer alguma atenção para o Ritual. Da Noruega vieram uns surpreendentes Shining, em que o saxofone resultou bem, na melhor actuação da tarde para esse palco.

Eram muitos os que esperavam Bullet For My Valentine, que foram certinhos, arriscando pouco e sabendo que tinham muitos fãs entre a legião de Maiden.

Os Municipal Waste serviram como desculpa para sair dali e ir até à tenda Ritual, assisitir aos thrashers, enquanto os Enslaved não chegavam ao Chaos. Estes dois palcos, foram quase sempre melhor opção que o Main Stage,

Enslaved nunca dão um mau concerto, mesmo que neste se tenham esquecido dos temas do último álbum, não os tocando.

Já ninguém ligou a No Fun At All, para assistir a uns Iron Maiden irrepreensíveis, em que apenas falhou terem actuado de dia. Com um repertório tão vasto, falharam muitos clássicos, mas o mesmo se poderia dizer de temas dos últimos três ou quatro discos. Mesmo assim, soube bem escutar um “Wasted Years”, por vezes esquecido nos alinhamentos.


Curiosamente, seguiu-se um fim de festa que valeu como um novo festival: Uncle Acid & The Deadbeats, The Shrine, Graveyard e Nashville Pussy! Uncle Acid começaram ainda Maiden entrava no encore, revelando-se mais densos e pesados que um par de anos atrás.

No palco principal era Abbath que sucedia a Maiden, num concerto atribulado, em que o músico chegou mesmo a sair de palco, face aos problemas de som.

No Ritual, os Shrine mostraram bastante virtuosismo num stoner que cruza com Southern Rock.

Já a actuação de Graveyard oscilou entre o puro Rock e o intimismo de alguns acústicos, conseguindo-se alguns momentos sublimes, que embalaram um público exausto desde o arranque com “Slow Motion Countdown” até encerrar com “The Siren”.

Como que para acordar os corpos embalados, chegou Ruyter Suys e os seus Nashville Pussy que descarregaram um conjunto de malhas eléctricas.

Na saída, The Goddman Gallows fechava a festa no Ritual Stage.

Até 2017, Viveiro!


Emanuel Ferreira


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Resurrection Fest

O dia 2

Entrava-se pelo recinto no segundo dia, e já actuavam os Never Draw Back, mas as atenções começaram a virar-se para o palco do meio, onde, depois da actuação dos Thirteen Bled Promises, se preparava a actuação dos [In Mute]. O som destes espanhóis situa-se algures pelo death core, o que não significa que amanhã não possam soar a death metal, noutro tipo de palco. A realidade é que o grupo não vale exclusivamente pelo desempenho musical, onde não passa da mediania, mas principalmente pela prestação da sua vocalista, e não refiro a presença feminina (foram muito poucas as mulheres presentes em placo neste festival), mas pela forma como cobre todo o espaço de palco, ao ponto de antes do concerto se ter colocado na borda do mesmo a medir a altura. Não deu para saltar, mas ainda fez umas incursões pelas colunas. Sem deslumbrarem, os [In Mute] merecem uma revisão um dia destes, para perceber como conseguiram chegar ao Wacken 2014, representando a Espanha.

Os Blowfuse passaram por Portugal numa digressão ignorada por quase todos, mas no Ritual Stage demonstraram uma energia invejável e ficou vontade de voltar a ver os miúdos que mostraram energia e vontade de estar em palco, enquanto quase ao mesmo tempo, no Main Stage, os Desakato faziam parecer que só lá estavam para ocupar tempo. É complicado chegar a um festival, tocar de dia e para uma minoria, mas seria melhor que as bandas não aceitassem que irem para o festival com ar de frete.

Numa tarde em que parecia fazer-se um balanço do Metal extremo espanhol, a chegada de Avulsed foi bem recebida e, na audiência, alguém segurava um cartaz dizendo “Dave Rotten, tus tripas comenzaram todo”. O facto, é que pese o som mais extremo, os madrilenos apenas foram a melhor banda espanhola do festival. Um concerto curto e intenso, que merecia uma hora mais tardia.

Arkangel foram dos nomes de que ficou pouca memória, mais pela escassez de tempo para ver, que pela qualidade, ou terá sido a qualidade que fez fugir rapidamente do local?

No caso de Hamlet, compreendeu-se a presença no Main Stage, mas continuam pouco interessantes, ao ponto de, no final, a actuação de Battlecross ter sido mais apelativa. Também aqui, não se percebeu bem o que este grupo fazia no cartaz e nesta posição, mas foram engraçados q.b., mostrando possuir um excelente frontman, vagamente primo de Chewbacca.


E andava-se nisto quando os Being As An Ocean, no Ritual Stage, vieram recordar as centenas de quilómetros percorridos até ao Viveiro: A qualidade de muitos nomes, que reúne e permite conhecer, embora estes californianos já tivessem andado em Portugal, numa mini-tour em fins de 2015. O vocalista Joel Quartuccio subiu ao palco para logo descer até à plateia e aí iniciar o set, com “Little Richie”. Ganha a plateia, foi fácil o resto, mas nem por isso o quinteto deixou de se esforçar com o seu post-hardcore. Muito bom.


Já os Protest The Hero foram esquecidos e os Rise Of The Northstar vieram oferecer um som situado no hardcore, mas com um visual assente no conceito de manga, num stage-set próprio, talvez se possam revelar interessantes.

Por essa altura, muitos estavam frente ao Chaos Stage, para mais uma visita de Angelus Apatrida ao festival. As malhas são boas e é das bandas mais interessantes de Espanha, mas ao fim de algum tempo, entra na monotonia, e o discurso de Guillermo, sobre a falta de atenção que é dada em Espanha soa deslocada, quando vindo de um dos nomes com mais presenças no Resurrection.

Caminhava-se para o final da tarde e o Main Stage capturava todas as atenções com Hatebreed, numa actuação em que mais uma vez Jamey se revela o motor do grupo e o verdadeiro entusiasta daquele lado. Ficaram as músicas!

No final duas opções Sinistro ou Frank Carter & The Rattlesnakes. A língua falou mais alto e poder ver um nome nacional num dos palcos, foi argumento para virar à direita e ir para o Chaos Stage, onde os “nossos” Sinistro se preparavam para tocar debaixo de Sol ainda intenso. O momento o dia não foi dos melhores e a inserção de última hora também não ajudou, basta ver a sequência de nomes para perceber que estavam deslocados. Apesar das contrariedades, o desempenho foi bom e só faltou a iluminação que torna o seu espectáculo mágico!

Mas a necessidade de também ver Frank Carter, levou a trocar de palco e chegado ao Ritual Stage, Frank cantava de pé, nos ombros da audiência, depois desce, empurra toda a gente à sua volta, invocando um “massive circle pit” e no meio do mosh, entoa “Snake Eyes”, logo de seguida, pede a todos para sentarem, porque o tema seguinte era em nome dos entes queridos que tinham partido, arrancando “Beautiful Death”. Regressa ao palco, onde já o esperam os Resu Kids, tempo para mais dois temas e final! Fabuloso!!

A seguir, tudo se reunia no main Stage para Gojira, no dia seguinte a terem tocado no Hard Club, no Porto, tão consensuais como bons, naquele que foi o grande concerto do dia, nesse palco.

A seguir, esquecidos os Angel Crew no Ritual Stage, a atenção foi toda para uns Dark Tranquility, que não me recordo de alguma vez ter visto um mau concerto, e também aqui isso não aconteceu, embora este tipo de nomes perca muito quando entalado num cartaz tão vasto. Perdeu-se a intimidade e exclusividade, mas ganhou-se “Monochromatic Stains”, “The Silence in Between” ou “ThereIn”.

The Offspring, concentrou tudo e todos no Main Stage. Uma hora antes, a segurança movimentava-se para criar corredores, pois na entrada formavam-se longas filas de pessoal que na última da hora, resolveu entrar no recinto. No resto, um concerto recheado de malhas, que deixou muita vontade de rever “Smash”. Na ressaca final, os milhares presentes, dividiram-se entre partir, ver Madball ou ficar por Turisas. Madball escolheram o Ritual Stage, mas o número dos que assistiram, esteva para lá do dobro da lotação do espaço. Se Offspring tinham as malhas e a popularidade, os Madball possuem a energia e a honestidade. Quase todo o tempo, o palco esteve com um backdrop nas traseiras a lembrar Melchior Roel, alcaide de Viveiro, um dos grandes impulsionadores do festival e falecido em 2014.

Já Turisas, no Chaos Stage, tinham fãs nas grades, com pinturas, desde Dark Tranquility e não desiludiram.


Emanuel Ferreira


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Resurrection Fest

O dia 1

Num momento em que completa uma década de existência, o festival Resurrection, tem afirma-se como a melhor oferta da península no que toca a hardcore e música extrema, apresentando mais de duas dezenas de nomes por dia, em três palcos diferentes.

O dia zero do festival contou com a presença de Skindred, Narco, Eskimo Callboy, Siberian Meat Grinder, For The Glory (portugueses), Hyde Abbey e Strikeback.

O festival oficialmente, arrancou no dia sete de Julho no Chaos Stage com Evil Impulse, Minor Empires e Implore.

No Ritual Stage, Tierra Hostil e Viva Belgrado eram os nomes que davam as boas vindas.

Com os atrasos habituais de chegada, já só foi possível escutar, no palco principal, Soldier, nome em crescendo por terras espanholas e que virá a Portugal, com o seu thrash, para o VOA, a realizar em Corroios, no próximo mês de Agosto. De Andorra vieram os Persefone, com um death melódico que não impressionou muito, ficando para os Tesseract o primeiro destaque, com um som cada vez mais progressivo, por vezes embarcando no emo. Num palco mais pequeno, o resultado teria sido melhor, aliás, foi este o problema de alguns nomes presentes neste festival, pois apresentando-se em palcos de grandes dimensões e de dia, perderam alguma mística que criariam num pequeno clube.

Estando o Ritual Stage dedicado a nomes mais próximos do hardcore e metalcore, foram os norte-americanos Norma Jean a serem a primeira banda que pude assistir com mais atenção, servindo um excelente concerto, embora curto.

Com cada vez mais público a entrar, face ao evoluir da tarde e muitos escolherem apenas viajar para este dia, foram os Stick To Your Guns que obtiveram a primeira enchente deste palco numa continuação da festa iniciada pelos seus compatriotas, mesmo que com uma actuação inferior a Norma Jean.

Mas não foi por ter a vida facilitada e toda a atenção que os britânicos deixaram de dar um excelente concerto, com o vocalista Lawrence Taylor, a arriscar mesmo um crowd surfing. Arrancando com “Brainwashed” e terminando com “Four Walls”, dispondo de apenas sete temas, foi fácil converter a actuação num best of repleto de energia e metalcore. Uma das melhores prestações do dia!

The Casualties, no Ritual Stage, trouxeram um certo punk rock como só em Espanha se faz e num misto de temas em inglês e castelhano, conseguiram pôr todos a dançar com o clássico “Cucaracha”!

Os também espanhóis Crisix ficaram para a história por terem sido os primeiros a receber os resu kids em palco, e também, pelo pedido de casamento feito pelo vocalista em pleno Chaos Stage. Uma nota para explicar que os resu kids são, na realidade, filhos de alguns festivaleiros, que passam os dias em companhia de técnicos que não só os levam a passear pelo festival, como os levam mesmo a subir ao palco e interagiram com grupos.

O palco principal voltou a funcionar para receber uns Bad Religion que pareciam enfadados por estarem lá, mal ligando à visita dos resu kids e com um Greg Graffin quase sempre mais perto de declamar que as letras do que de as cantar. Valeu, no entanto, pelo alinhamento.

Desconhecendo o feudo entre Bad Religion e Bring Me The Horizon, o facto é que os últimos foram os vencedores em palco, num óptimo concerto, extremamente visual, quase parecendo um gigante videoclip com um com um Oliver em todo o estilo de poses.

Ao lado, no Chaos Stage actuaram Fleshgod Apocalypse e Rotting Christ, dois nomes com produções muito cuidadas, nos seus discos e que, em certa maneira se podem comparar. Para apresentar o excelente “King”, já deste ano, os gregos souberam trazer uma cantora para backing vocals, vestiram-se com trajes de inspiração barroca e tentaram recriar o disco em palco. Já os gregos apostaram nos samplers, ficando-se por vezes a olhar para um palco, com músicos parados enquanto uma voz ecoava no PA. A maneira como os italianos souberam adaptar o seu som ao palco, tornou o concerto destes muito melhor que o de Rotting Christ. Uma nota, para os mais desatentos: Fleshgod Apocalypse toca em Vagos, no próximo 13 de Agosto, no Vagosmetal Fest.


Em paralelo com o Chaos Stage, na tenda do Ritual stage passavam uns energéticos Walls Of Jericho e H2O.

Novamente apenas a funcionar o Main Stage, este ficou por conta dos Volbeat, um grupo relativamente pouco conhecido por cá, apesar da força que possui no estrangeiro. Orelhudos como não podiam deixar de ser, os Volbeat ainda tentaram brincar com o público mas o seu concerto revelou-se demasiado extenso para o dia, caindo na monotonia, mesmo quando criticaram o público por não ter reconhecido uns acordes de Johnny Cash e reagirem aos seus: “You don’t know Cash and you know this shit?”. Eles foram os cabeças de cartaz do primeiro dia e só por isso se aceitou a extensão do concerto, normal para um grupo numa digressão própria, mas excessiva num cartaz tão repleto de nomes bons.

No Ritual Stage, os Brujeria já receberam um público de rastos, que pouco ligou às suas referências e piadas políticas, dirigidas a Trump.

A noite ainda se completou com Nice Boys, um grupo de covers de Guns’N’Roses!


Emanuel Ferreira


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Quadro de Honra

Num mercado que segue quase sempre as modas exteriores, o Heavy Metal começou a ter títulos nacionais traduzidos ou originais. Apesar de suspeito, por ser colaborador da publicação, o momento obriga a manifestar-me sobre este “Quadro de Honra”, editado via Saída de Emergência, mas com chancela da revista Loud! e que reúne textos e ilustrações alusivas a trinta e oito discos marcantes na cena portuguesa.

Quase todos os textos foram editados originalmente na revista, mas a reunião dos mesmos e a adição de alguns textos novos, permitem ter uma visão diferente do todo e de como se construíram os pilares do Metal Nacional, e do denominado “underground”.

Não me atreverei a dizer que está lá tudo, pois faltam quase todos os pioneiros do vinil: Xeque-Mate, NZZN, V12, Vasco da Gama ou Ibéria. Está José Cid com um disco importante no prog, e estão grupos, à época da edição, vizinhos do Metal e não inseridos no movimento: Mão Morta, Peste & Sida… No entanto, de um modo geral, a cobertura revela-se eficaz e permite recuperar nomes que poderão estar erradamente esquecidos: Shrine e WC Noise, por exemplo, apenas para citar um par de bandas que deram um dos melhores concertos a que pude assistir por parte de bandas nacionais, no velho Dallas, no bar Galeria Norte, algures na primeira metade dos 90.

Dos grandes nomes só faltará More Than A Thousand, mas estão lá os companheiros If Lucy Fell e Men Eater, que representam um dos últimos grandes movimentos musicais dentro do Heavy Nacional. Fora isso, do Minho ao Algarve estão lá quase todos os nomes que marcaram a diferença e se alguns ainda o fazem, como Bizarra Locomotiva, outros foram prematuramente extintos como Sirius e Inhuman.

Embora não assinando nenhum texto, poderia contar uma história pessoal com grande parte das bandas, ou referir um concerto que mais me marcou. Afinal, se tivesse de fazer um Top 10 de concertos nacionais, ao longo destes 30 anos em que acompanho a cena, receio que quase todos os nomes estariam neste livro: Mão Morta, Moonspell, WC Noise, RAMP, Shrine, Men Eater…

Mas por agora, é o Quadro de Honra que interessa. Leiam!

Emanuel Ferreira


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Heavenwood

O regresso dos Heavenwood, por esta altura, só soará estranho aos menos atentos. O grupo portuense, apresenta por estes dias o seu quinto longa-duração intitulado “The Tarot Of The Bohemians”, sucessor de “Abyss Masterpiece” de 2011. Este novo disco baseia-se no Tarot de Marselha e Ricardo Dias, fundador e letrista da banda, escolheu doze das cartas do baralho, para ilustrar outras tantas malhas, ficando as restantes cartas, prometidas para um novo disco ainda sem data marcada.

A minha review ao disco, pode ser lida em http://www.metalimperium.com/2016/03/heavenwood-tarot-of-bohemians-review.html enquanto na edição da revista LOUD! à venda este mês de Março, consta uma entrevista realizada ao guitarrista Ricardo Dias. Entretanto a banda tem concertos de apresentação agendados para Porto e Lisboa. No Porto, será a 27 de Março, na sala 1 do Hard Club, com The Temple, Blame Zeus e Gates Of Hell. Em Lisboa, o concerto terá lugar a 2 de Abril no RCA Club e as bandas convidadas serão os Iberia, Tó Pica e Legacy Of Cynthia.


A par dessa entrevista, falei ainda, com o guitarrista Vítor Carvalho, membro fundador dos bracarenses Demon Dagger e que integra actualmente a formação de Heavenwood. A sua entrada deu-se em 2013 e no ano seguinte, o músico bracarense participava do “tema de avanço “The Juggler”, para este álbum que agora vê a luz do dia”. Segundo Vítor, “esta união acabou por acontecer naturalmente, pois já nos conhecíamos há bastantes anos, chegamos a partilhar como Demon Dagger, a mesma editora, a Recital Records e o mesmo agenciamento, a Avantguarde Management, tendo participado conjuntamente em vários espectáculos ao vivo”. Naturalmente que desde logo se levanta a questão sobre o fim dos Demon Dagger, afastados das gravações desde 2009, algo refutado pelo fundador do quarteto que adianta encontrarem-se “neste momento em standby, situação especialmente motivada pela imigração do nosso vocalista Litos e da mudança de cidade do nosso baixista, Paulo Chanoca”. Fica ainda a nota de que nos “planos futuros, está retomar a actividade da banda e voltar “à carga” com novos trabalhos”.

Outra questão passa pela diferença de abordagem entre os dois guitarristas que agora passam a coexistir nos Heavenwood, com Ricardo Dias conhecido pela sua abordagem mais na veia Rock, enquanto Vítor é bem conhecido pelos solos rápidos. A resposta surge elaborada, mas clara, com o lead-guitar de Demon Dagger a referir que “o facto de possuirmos características e formas diferentes de tocar permite dar mais ênfase e personalidade aos vários ambientes musicais que podem ser encontrados neste novo disco de Heavenwood. A minha responsabilidade são essencialmente as “lead guitars”, procurando sempre complementar o trabalho do Ricardo de características mais melódicas, com passagens rápidas e explosivas de licks cortantes! Na minha opinião, esta sinergia permitiu obter-se um trabalho final mais rico, completo e sólido do qual me orgulho bastante”.

2016 celebram-se vinte anos sobre a primeira maqueta de Demon Dagger e desde esse momento que o líder e frontman do quarteto foi Vítor Carvalho, que agora se integra num colectivo em que já existe outro líder, mas isso não é problema para o músico que afirma que “o facto de ter mais de 20 anos de experiência na liderança dos Demon Dagger, permite-me compreender e respeitar o difícil trabalho do Ricardo nos Heavenwood. Assumir a liderança de um projecto, implica um grande esforço e sacrifício pessoal, nem sempre com proporcional retorno. Assim, acima de tudo, estou ao dispor para contribuir de forma construtiva com o que estiver ao meu alcance, respeitando inteiramente o perfil e linha de abordagem musical que o Ricardo bem sabe traçar para os Heavenwood! Sinto-me, essencialmente, parte integrante de uma equipa”.

Emanuel Ferreira


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The Black Wizards

Minhotos de nascença, stoners de coração, os The Black Wizzard, fogem das estruturas normais dos padrões: quarteto em que o núcleo duro assenta num par feminino e com um som retro que parece mais próprio de ambientes de grande cidade, em que o hype bate mais forte. A isto junta-se uma média de idades bastante baixa e o caldo resultante tem tudo para correr mal, daí a primeira surpresa. O som deste quarteto roça o stoner, mas acima de tudo assenta no blues psicadélico muito na linha Hendrix, com a secção rítmica a servir de base aos longos solos de Joana Brito, que alternam com os eflúvios eléctricos das cordas de Paulo Ferreira.

Depois de “Fuzzadelic” em inícios de 2015, o quarteto, com diferente baixista, refugiou-se no "L" Dourado Resort e gravou o seu trabalho de estreia, ao vivo, no espírito de muitos grupos dos anos 60 e 70. Talvez por isso, temas como “Gypsy Woman” resultem muito bem em disco, com o seu solo de bateria, a cargo da vimaranense Helena Peixoto, nos últimos dois minutos do tema, a surgir de uma forma que certamente não resultaria tão bem numa captação regular de bateria. Ao vivo, desperta uma falsa sensação de final, com o tema a ser continuado pelo solo e permitindo como que dois finais sucessivos.

Explorando temas longos, “Lake Of Fire”, tem em “Gypsy Woman” e “Wicked Brain” os seus temas mais longos, embora revelando sempre criatividade suficiente para evitar tornar-se monótono ou entediante. Os oito temas do disco de estreia levam o trabalho para uns pouco comuns sessenta minutos, algo que até aí reflecte o espírito dos finais dos 60. Olhando para o aspeto muito jovem do quarteto e a que as vozes ficam a cargo da vocalista, podem criar-se alguns anticorpos, mas até por aí se é surpreendido pois não só o grupo mostra uma maturidade musical acima do normal como a voz de Joana Brito soa melhor do que se poderia esperar, embora seja na guitarra que brilha mais. Uma excelente surpresa de um nome que fica entre as revelações de 2015!

Emanuel Ferreira


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O melhor de 2015??


Internacionais
Fazer listas é sempre uma seca. Primeiro porque se arrisca o pretensiosismo de tudo conhecer e ter isenção de escolha, perceber que o disco X gravado com orçamento e condições Y é melhor que o disco Z gravado com orçamento e condições W muito diferentes. Para lá disso, muitos discos que impressionam no momento, são esquecidos ao fim de alguns anos, enquanto outros ganham relevância com o tempo. Para lá de tudo isso, face às inúmeras edições de hoje em dia, é natural que em 2016 (ou 17, ou 2020), se descubra um disco de 2015 que poderia estar na lista. Por tudo isso, o que segue não é uma lista, mas antes um conjunto de discos que, por esta ou aquela razão, se destacaram em 2015, ou levaram a que a sua relevância criasse um momento especial. Quantas listas, publicadas no início de Dezembro (porque cada vez mais há a corrida de publicar antes dos outros), não puseram de fora o último de Motorhead? E dessas, quantos autores não teriam optado por meter, agora, esse derradeiro disco de Lemmy?

10. Slayer - «Repentless»
Marcou o regresso de um nome grande do Thrash, particularmente um daqueles nomes que muitos marcaram. Foi também o primeiro disco de estúdio sem Hanneman. E como isso deve ter custado a King e Araya. Talvez por isso tenha sido um dos melhores de sempre desde o “Decade Of Agression”. A possibilidade de assistir a uma data da digressão, na Corunha, com um set list demolidor, contribuiu para a presença nesta lista.

9. Dødheimsgard - «A Umbra Omega»
Na realidade este lugar não é pertença de um disco, mas de três. Daqui a uns anos, olhar-se-á para 2015 e a trilogia de Dødheimsgard, Arcturus, com “Arcturian”, e Enslaved, com “In Times”, será incontornável para muitos. Ao fim de cerca de uma década, foi o quinto trabalho dos Dødheimsgard que mais se destacou entre os três nomes noruegueses.

8. Paradise Lost - «The Plague Within»
Mais um regresso, desta feita, um regresso a um som de que o grupo de Nick Holmes se vinha afastando há décadas. Um disco extremo, mas que já se anunciava para quem seguia a carreira dos britânicos, desde que assinaram pela Century Media. Os projectos em que Holmes e Mackintosh se envolveram também devem ter influenciado o som mais extremo, da mesma forma que o fabuloso concerto de Bloodbath em Vagos 2015, contribuiu para a presença de Paradise Lost nesta lista.

7. My Dying Bride - «Feel the Misery»
Com Paradise Lost e Anathema marcaram uma época no Metal britânico. Foi também um regresso às origens, contribuindo para que a lista seja mais de nomes antigos, que se renovam, do que de novos nomes, como seria de esperar. Não foi um disco que naturalmente encaixasse nesta lista, mas vistas as playlists do programa, foi um dos nomes que mais nelas apareceu.

6. Cancer Bats - «Searching For Zero»
Ver estes canadianos é sempre um acontecimento. Os seus discos estão recheados de malhas e a festa é garantida. Numa lista que já vinha demasiado enegrecida, o lado positivo deste grupo vem dar outra animação. Passaram mais uma vez pelo Hard Club, mas a sua presença em festivais britânicos deu-lhes uma notoriedade há muito merecida. Daqui para a frente só lhes falta subir nos cartazes. Uma experiência de concertos ao vivo!

5. High On Fire - «Luminiferous»
Não é o melhor deles, mas estes norte-americanos são dos melhores grupos do séc. XXI, na música do outro lado do continente. E depois tem Matt Pike, dos Sleep que andaram pelo Reverence Valada. Uma excelente referência de sludge e stoner, ideal para iniciados que querem perceber o estilo.

4. Lucifer - «Lucifer I»
Hipnótico… uma excelente estreia de mais um daqueles nomes que só a Rise Above sabe colocar no mercado. Claro que a experiência do ex-Cathedral Gaz Jennings, e do baterista Andrew Prestridge, (Angel Witch) ajudou, bem como a beleza melancólica da vocalista Johanna Sadonis, que juntamente com Andrew vinha dos The Oath. Um nome a seguir…

3. Tribulation - «The Children Of The Night»
Mais uma vez, um disco que resulta de uma experiência ao vivo… a prestação deste grupo no concerto de Melechesh e Keep Of Kalessin, ficou na memória e deu outro relevo ao disco. Se possível imaginar um quarteto de Black Rock em que pontuam dois guitarristas algures entre o andrógino e o guitar hero dos 70… e o disco é muito bom. Se calhar estarão de volta, a Portugal, em 2017… ou antes!

2. Iron Maiden - «The Book of Souls»
Já andam por cá desde os anos 70, gravaram inúmeros temas clássicos. Quando se esperava um decaimento de carreira, conseguiram inverter a curva descendente e, a partir de “A Brave New World”, tornaram-se numa força do Metal ainda mais poderosa que antes. Hoje fazem digressões por estádios de todo o mundo, reúnem fãs às dezenas de milhar e viajam no seu próprio jacto, muitas vezes conduzido por Bruce Dickinson, uma verdadeira força da natureza. Não só «The Book of Souls» é um excelente disco, como lança Eddie para o ano 2016, quando mais uma vez farão uma digressão pelos festivais europeus, ficando a data nacional limitada ao Meo Arena, sabe-se lá porque…

1. Ghost - «Meliora»
Dupla data nacional esgotada. Foi assim a recepção nacional aos Ghost. «Meliora» pode não ser o melhor dos seus três discos, mas trouxe aos palcos nacionais a magia dos stage props e aquele tipo de visual que sempre agradou aos fãs de Metal. Além disso, os Ghost conseguem cruzar estilos e apanhar fãs de Rock mais soft. Quem sabe em 2016 não aparecem de novo, como suporte de Iron Maiden.

Nacionais
Se fazer um balanço internacional é complicado, o nacional é muito pior. Muitas edições são limitadas e a distribuição não funciona. É complicado encontrar muitos dos discos, por vezes só mesmo nos concertos dos grupos. Tirando Porto e Lisboa, a maior parte das vezes só por correio se consegue aceder a estes trabalhos. E a divulgação para imprensa também falha bastante, mesmo quando os grupos se queixam de não ser divulgados!

5. The Black Wizards - «Lake Of Fire»
Uma agradável surpresa. Mas sobre este grupo espero poder falar melhor mais para a frente… O vídeo é de um anterior trabalho, mas funciona como indicador…

4. Hill Have Eyes - «Antebellum»
Vi-os como banda suporte de More Than A Thousand, em fins de 2014. Impressionaram. Escuto o disco e mentalmente misturo as faixas com as que encontro em discos de nomes como Architects ou Bring Me The Horizon. Não o faço por terem temas idênticos, mas porque a qualidade de composição e de produção está ao mesmo nível. Gostava de os ver fora daqui. Já o merecem!!

3. Redemptus - «We All Die The Same»
Trio portuense que ainda não tive a oportunidade de ver ao vivo, mas este disco é uma verdadeira pedra na pasmaceira death/thrash/black que povoa a maior parte das bandas nacionais. Algumas boas malhas e uma vontade de meter o volume bem alto!

2. Dementia 13 - «Ways Of Enclosure»
Duas linhas atrás falava da pasmaceira death/thrash/black que povoa a maior parte das bandas nacionais, mas Dementia 13 é de outra escola. Inspirados em filmes de terror série B e no som dos Morrisound Studio de Tampa, Flórida, os três elementos de Dementia 13, só perdem para muitos nomes Death por estarem no canto da Europa.

1. Bizarra Locomotiva - «Mortuário»
Quase desde o início que assisto a concertos de Bizarra. Lembro-me particularmente de um festival em 99, em Vieira do Minho. Como grupo evoluíram, porventura, hoje, acho-os menos originais que no início, mas continuam poderosos em palco. Questiono-me porque demoram tanto a atingir o nível de outros nomes da cena nacional, ou porque não integram de forma decente, um cartaz de um SuperBock ou Optimus.


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Lemmy

Escrever sobre Ian Fraser "Lemmy" Kilmister nunca será fácil, pois a sua imagem é por demais omnipresente na cultura Rock, e, de uma forma mais recente, em alguma cultura Pop. Roadie nos finais da década de 60, Lemmy ainda teve tempo de ajudar Hendrix, o que marcou a forma como usava o seu Rickenbacker. Com os Pink Floyd certamente partilhou as drogas, as mesmas que o fariam ser preso algures na fronteira entre Canadá e Estados Unidos, numa digressão dos Hawkwind, banda que integrou entre 72 e 75, depois de ter passado pelos The Rockin' Vickers e Sam Gopal.

Para os Hawkwind contribuiria com diversos temas, entre eles, “Motörhead”, malha que depois daria nome ao trio com que se imortalizou. Em plena explosão do Punk, o contrato de Motörhead com a EMI parecia garantia de futuro, mas o disco não foi editado – anos mais tarde, com o sucesso do grupo, acabaria por ver a luz do dia - e o trio reformulou-se e mudou de editora. Entre 77 e 81, o trio formado por Lemmy, Philthy Animal Taylor (falecido ainda este Novembro) e Fast Eddie Clarke gravaria quatro discos de estúdio e um live que marcaria todo um som e estilo em que Blues, Rock, Punk e Metal se cruzavam: “Motörhead” de 77, “Overkill” de 78, “Bomber” e “Ace of Spades” de 79 e “No Sleep 'til Hammersmith” de 81. A isto se juntaram Ep’s como “Beer Drinkers & Hell Raisers” ou “St. Valentine's Day Massacre”. Ao contrário de hoje, as malhas e clássicos não se limitaram aos temas título, por muito icónicos que “Overkill” ou “Ace of Spades” sejam. Na sua autobiografia, Lemmy diria mesmo que depois disso ainda escreveu muitos grandes temas, mas seria esse período que marcaria as várias gerações de fãs e três quartos de qualquer set dos Motörhead integrava obrigatoriamente temas dessa fase.

António Sérgio, do saudoso Lança-Chamas, entre outros programas de rádio, seria a primeira pessoa a introduzir a banda por cá, ao colaborar na edição do disco “Punk Rock New Wave 77”, de 78, da editora Pirate Dream com nomes como Sex Pistols , The Jam , Motörhead ou Generation X. A vinda do grupo a Portugal só ocorreria em 88, primeiro no Dramático de Cascais e no dia seguinte no Porto, no Pavilhão Infante de Sagres. Seria também a única vez que os Motörhead tocariam por cá em formato de quarteto, pois voltariam a ser um trio no período posterior, fosse em 99 no Coliseu dos Recreios de Lisboa, na passagem, em 2004, pelo festival Paredes de Coura, 2007 na concentração motard de Faro ou, finalmente, em 2010, no Rock In Rio em Lisboa. Retenho uma pequena história passada em Paredes de Coura, numa edição em que choveu copiosamente , ao ponto do festival estar à beira do cancelamento. Lemmy subiu ao palco e anunciou algo como “We are Motörhead and we came to stop the rain”. Ao fim da primeira música a chuva parou mesmo. “Did you see? It stoped”, comentou o vocalista. Algo de divino se tinha passado naquele momento.

Ozzy Osbourne, Doro Pesch, Slash, Nina Hagen, Ramones, Dave Grohl e muitos outros, quiseram-no como guest vocalista em temas seus, da mesma forma que fez diversos cameo em vídeo-clips – Doctor And The Medics, por exemplo – ou filmes, dos quais, os da Troma serão os mais conhecidos. Para lá disso uma foto com Lemmy era um certificado de status para qualquer banda Rock. É por tudo isto que a carreira de Lemmy ultrapassou largamente os 23 álbuns de estúdio, os inúmeros live, infinitas guest appearances, as longas-metragens como “Eat The Rich” e até, na fase final, ultrapassou a mascote war-pig como imagem de reconhecimento dos Motörhead.

O gosto por álcool e drogas nunca foi escondido, bem como pela companhia feminina, mais não fosse, para ter alguém com quem falar. Nos últimos anos as sucessivas doenças viriam a levar a diversos concertos cancelados, embora agendasse sempre digressões, estando a próxima anunciada para inícios de 2016, com Girlschool e Saxon, promovendo o trabalho de 2015, “Bad Magic”.

Nascido a 24 de Dezembro de 1945, teve uma mega festa de 70 anos com diversos músicos convidados. Dias depois era-lhe diagnosticado um cancro terminal. “Faleceu” dois dias depois a 28 de Dezembro. As aspas são de propósito… um imortal nunca morre. Lemmy Kilminster, Born To Loose, Live To Win! ☆

Emanuel Ferreira


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