Bandas/Discos | Crónicas | Livros | Eventos | DJ7 | Links | Apoios | Home


Mais Reportagens Fenther

After show

Festival Alive 2008



Alguns dos momentos que fizeram a edição de 2008.

10 de Julho de 2008

19h – Os festivais de Verão continuam. Vou agora no comboio a caminho do que promete ser o melhor festival do país, este ano, e um dos melhores da Europa. Saio em Algés. Sigo a multidão. T-shirts dos Rage Against The Machine na maioria dos corpos. Línguas: português, espanhol e inglês; um francês aqui ou ali. Mochilas enormes de quem se dirige para o parque de campismo. Os Vampire Weekend já começaram. Quero apressar-me para os ver, mas parece impossível. Para entrar há que esperar.

20h – Os Spiritualized abandonam o palco principal pouco depois de eu entrar no recinto. Tenho agora que escolher entre MGMT ou The National. Apetece-me ouvir a voz melancólica de Matt Berninger.

21h30 – Os National levaram o dia com eles. A negritude dos seus sons acompanhou o pôr-do-sol e a chegada da noite. Não surpreenderam mas deram um bom espectáculo, com prestações musicais excepcionais; de salientar, o violinista e a secção de sopros, ainda que discretos, estes últimos. O público não era muito, embora, durante o concerto, fosse aumentando em número. Mas todos, mesmo os menos fãs, reagiam a hits como “Fake Empire” ou “Mistaken For Strangers”. A música dos National no Alive08 sentiu-se cá dentro. Os graves no estômago. Estava-se à vontade, sem apertões. Mas já se notava a chegada do público dos gipsy-punks Gogol Bordello. Somos mais, agora.

23h – Parte de mim agradece aos Cansei de Ser Sexy por terem cancelado a sua passagem pelo festival. Dessa forma, não tive que duvidar entre ver o espectáculo deles ou assistir à festa dos Gogol Bordello!
Já há algum tempo se gritava “Go-go(l) Bordello!” quando uma data de piratas invadiram o palco com uma energia louca. Começaram a tocar e só pararam no fim, misturando música do mundo e rock. No público, todos saltavam com Eugene Hütz e acompanhavam com as vozes, que se salientaram mais no refrão de “Start Wearing Purple”. Para além do vocalista-guitarrista, as figuras que mais captavam a atenção eram as do acordeonista e do violinista, autênticos ciganos-punks. Para não falar das duas meninas que por vezes entravam em palco, quer para fazer poses estranhas, quer para tocar uns tambores maiores que elas; foram a cereja no topo do bolo e a delícia dos homens (e dos rapazes)! Em todo o lado (nas t-shirts, nos tambores, na guitarra - que perdeu várias cordas) se viam mensagens de ordem; já se sentia o cheirinho a RATM.

00h30 – Já tinha visto os The Hives há uns anos. Dessa vez usavam fato branco e pose típica rock’n’roll. Desta vez vestiram fato preto e à pose acrescentaram irreverência, arrogância, vaidade e loucura, reflectidos no fundo vermelho-sangue. Tudo foi planeado e de execução perfeita. As baquetas eram atiradas ao ar várias vezes e só paravam nas mãos. A banda parou como estátuas durante alguns minutos a meio do concerto e recomeçou ao mesmo tempo. O vocalista desceu várias vezes para junto do público e confrontou as câmaras de frente com olhos arregalados. Em cima do palco, dava ordens que toda a audiência cumpriu. Parecia um espectáculo de teatro, com a atitude e expressões ensaiadas. Ninguém resistiu às batidas punk-rock da banda.

3h – Espero pelo comboio de volta. Doem-me os pés, as pernas, as costas, os braços. O concerto dos Rage Against The Machine foi bombástico, incendiário. Continuam iguais. Parece que os anos não passaram, porque até os temas das músicas se mantêm actuais, embora os Rage não tenham nenhum álbum de originais recente (o último data de 1999). Antes de entrarem, surgiu como fundo de palco a famosa estrela vermelha do EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional), apoiado pelos membros da banda. De lado, uma bandeira mais pequena do revolucionário Che Guevara. Os rostos de toda a gente transpiravam ansiedade. E mal Zach de la Rocha, Tom Morello, Tim Commerford e Brad Wilk puseram pé em palco, as bocas do público abriram-se a saudá-los.
Eram os (mais) desejados. E as bocas continuaram abertas até ao fim, acompanhando cada sílaba de “Testify”, “Bulls on Parade”, “Bombtrack”, “Know Your Enemy”, Bullet in the Head”, “Guerilla Radio”, “Sleep Now in the Fire”, entre tantas outras, terminando no encore com “Killing in the Name”. Os olhos estavam postos nas várias guitarras que passavam pelas mãos mágicas de Tom Morello. Cantámos todos, saltámos todos, aplaudimos todos, em uníssono. Os ideais foram os mesmos durante aquela mais-de-hora-e-meia. Entre os adeptos do mosh e os mais parados, naquele momento, todos entoaram revolução. E houve tempo ainda para a Internacional Socialista e homenagem a José Saramago. Pena que depois do concerto tudo continue igual e que os ideais gritados não tenham qualquer tipo de concretização.

11 de Julho de 2008

19h – Gonçalo leva vestida, no segundo dia do festival, a t-shirt dos RATM e, na cabeça, os mesmos ideais entoados no dia anterior; é dos poucos que se mantém ‘fiel’ às palavras de ordem. «Quando cheguei, os Kumpania Algazarra já tinham começado. Não estava muita gente, e a que estava não parecia muito motivada. Muitos sentados. O som: nada de especial. Nunca tinha ouvido falar deles até ao dia anterior. No fundo, desapontante apesar das expectativas não estarem altas.

Fui passear, não me apetecia ‘ter que’ estar ali... Fui ver o que havia nas barracas dos patrocinadores. Foram para lá oferecer mundos e fundos se fizéssemos ‘figuras de urso’. Eu e os meus amigos queríamos fazer semelhante ‘figura de urso’ de modo a que fossem eles (os sponsors) os embaraçados.» E assim foi. «Se nos oferecessem alguma coisa era indiferente.
Ainda ao som de Kumpania Algazarra fui-me sentar perto dos outros muitos já sentados. Esperava Nouvelle Vague. Era o que mais queria ver naquele dia. O concerto estava marcado para as 18h.»

19h30 – «Tive que esperar pelas 19h20 para que me dissessem que os Nouvelle Vague não iriam actuar mas que, no entanto, John Butler iria entrar no palco mais cedo.»

21h30 – «Tentaram cobrir a falta de Nouvelle Vague com um músico de que eu nunca ouvira falar e que mais tarde se veio a confirmar não ser nada de extraordinário. Após meia hora de concerto de John Butler Trio, decidi ouvi-lo enquanto jogava matrecos. E eu nem sou grande fá de matrecos. Mas o ambiente estava pouco chamativo. Neste momento apenas falta Bob Dylan. Sim, apenas! Porque não vou ver nem Within Temptation, nem Buraka Som Sistema. Após meia hora de matrecos fui jantar - a zona de restauração até está bem organizada (bem melhor que no Rock in Rio, por exemplo!)»

00h – «Bob Dylan entrou em palco e corremos para lá. O público era um público ignorante. De sopa na mão e filtro atrás da orelha, apenas olhavam para o senhor de chapéu engraçado - Bob Dylan - quando lambiam a mortalha. A nuvem geral de fumo começou, todos a falar com todos. Eu que estava relativamente perto do palco tinha dificuldades em ouvir o que o cantor me estava a dizer. Ao que me parece o paiva ou outra coisa qualquer era-lhes mais importante. De qualquer das formas, o próprio Bob Dylan não puxava pelo público. Como se não tivesse obrigação disso. De 3/4 costas cantava e tocava piano com pouca emoção. O meu pai diz que ele em palco é muito arty, e eu concordo. Fizeram-se as 11 horas e eu já estava ‘cansado’ de ouvir o senhor. Corri a uma barraquinha; com 15 euros comprei um vinil com covers cantadas pelos Arcade Fire e músicas suas não editadas.
No fim, espremendo o dia, o vinil salvou o dia.»

Para um festival, cujo primeiro dia só mereceu elogios, o segundo só trouxe desilusões. Ainda que a organização não tivesse qualquer culpa da prestação dos músicos em palco, nem dos problemas no aeroporto com Nouvelle Vague, em relação à banda francesa, a informação poderia ter chegado mais cedo, evitando mais de uma hora de espera. Após um dia revolucionário e muito agitado, o ambiente do segundo dia pareceu desanimar o público que se deixou ficar sentado sem ter especial atenção ao palco. De sublinhar como negativo ainda a escolha para o cartaz, no segundo dia, de Within Temptation e Buraka Som Sistema, após nomes da revolução como Rage Against The Machine (1º dia) e Bob Dylan (2º dia). Custa-me acreditar que o público seja o mesmo.

Texto e Fotos: J e Gonçalo Codeço

Mais Reportagens Fenther